Tio Sam deu ao Brasil o melhor presente de Natal que o país poderia almejar.

Carlos Newton

O Brasil é um país muito estranho. De repente, não mais que de repente, como dizia Vinicius de Moraes, os Estados Unidos decidem abrir seu gigantesco mercado para o álcool brasileiro, a partir do próximo mês. E ninguém, comemora, os agricultores e usineiros ficam na muda, os jornais levantam possibilidades negativas, dizem que o preço do etanol vai subir e tudo o mais.

Caramba, que país é esse? Foi o melhor presente de Natal que a economia nacional poderia ter recebido. Depois de 30 anos de resistência, os norte-americanos se curvam à realidade e desistem da legislação protecionista que no governo Reagan adotou pesada tarifa contra o álcool importado especificamente do Brasil.

Nessas três décadas, o governo dos EUA insistiu na política protecionista, enquanto os agricultores plantavam extensas áreas com cana de açúcar nos Estados mais quentes, como Califórnia e Flórida. Mesmo assim, não conseguem competir com o etanol brasileiro.

A taxa de US$ 0,54 centavos por galão sobre o etanol que os Estados Unidos importam do Brasil acaba agora no Ano Novo, após o Congresso dos EUA ter entrado em recesso sem apreciar pedidos de parlamentares para renovar a tarifa. Por ironia, a derrubada acontece justamente quando as usinas brasileiras se encontram praticamente sem capacidade para disputar o mercado norte-americano. E, ainda por ironia, este ano o Brasil teve até de comprar etanol dos EUA.

Mas essa situação é passageira. Os subsídios pagos às distribuidoras que fazem a mistura de etanol à gasolina, que custam ao Tesouro dos EUA cerca de US$ 6 bilhões por ano, e a tarifa de US$ 0,54 sobre cada galão importado para o país impediam que o etanol brasileiro chegasse ao mercado dos Estados Unidos com preços competitivos, o que desestimulou os produtores brasileiros.

Além disso, os Estados Unidos usavam muito milho para produzir álcool, que sai muito mais caro do que o etanol da cana de açúcar. Em consequência, começou a faltar milho no país e o preço das rações disparou. Na verdade, o que conta é o baixo uso de energia fóssil para produzir a mais elevada quantidade de energia renovável possível, algo que a cana faz melhor do que qualquer outra matéria-prima.

Mas agora a conversa é outra. E a cana de açúcar vai preencher muita terra improdutiva por esse Brasil a fora, não somente para exportação, mas também para o consumo interno, que também está em expansão. E o mercado do etanol nos EUA é cada vez maior, com o sucesso dos carros flex por lá.

O único dado negativo de toda essa história é a desnacionalização do setor aqui no Brasil. Cientes do imenso potencial do álcool combustível brasileiro, investidores estrangeiros estão comprando as grandes usinas nacionais. Mas não faz mal. Com as fortunas que acumularam, os nossos usineiros podem reinvestir no ramo que tanto dominam, pois não faltará freguês em busca de etanol.

Mesmo com a sobretaxa de 54 cents, o negócio é tão bom que durante os últimos 30 anos o Brasil seguiu exportando álcool para nos Estados Unidos de duas maneiras: diretamente ou através do Caribe. Como não havia sobretaxa para o álcool caribenho, nossos navios seguiam para lá, faziam um pit-stop, trocavam a nota fiscal e seguiam para os States. Simples assim.

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GARANTINDO A ESTOCAGEM

O governo federal agiu acertadamente ao abrir a possibilidade de conceder subsídios de até R$ 500 milhões por ano para estimular a formação de estoques de etanol no Brasil, segundo a Medida Provisória nº 554, publicada no “Diário Oficial da União” na segunda-feira.

Os termos destas operações ainda serão definidos pelo Conselho Monetário Nacional, mas o subsídio ficará disponível por um período de cinco anos, o que representa a disponibilização de recursos de até R$ 2,5 bilhões pela União no total. O objetivo do governo é estimular a construção de estoques do produto no Brasil para estabilizar a oferta em períodos de entressafra de cana e reduzir a volatilidade nos preços do etanol no mercado brasileiro.

Mas é claro que a ideia é ir além, muito além, rumo ao mercado norte-americano.

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