Tipo assim (ou os jovens viciados em “conexão”)

Jacques Gruman

Vamos, vamos pela escada que se atribui ao progresso, à civilização e à cultura.
Mas aonde se vai? Realmente, não sei (Anton Tchekhov)

Maria Antonieta desprezou os revolucionários franceses e, montada na arrogância da monarquia, mandou-os comerem brioches. Foi guilhotinada e virou exemplo instantâneo da cegueira em tempos de mudanças radicais. Quando as velhas referências já não servem para entender o que acontece e as novas ainda não estão consolidadas, é comum um certo atordoamento, que, não raro, leva a erros brutais de avaliação.

No início da década de 1930, foi introduzido o sistema de gravações elétricas, portentoso avanço tecnológico que tornaria possível levar aos discos o som de certos instrumentos musicais e a voz de cantores sem grande potência vocal (Mário Reis, um intimista, foi símbolo daquela novidade, que enterrava a era das gravações mecânicas). Não foi suficiente para convencer John Philip Souza, grande compositor das marchas militares norte-americanas, que, cético e preso aos velhos padrões, chegou a dizer que aquela “música enlatada” ainda causaria “uma grave deterioração da música norte-americana e no gosto musical, uma interrupção no desenvolvimento musical do país”. O tempo se encarregou de mostrar quem estava certo.

RÉGUA DE CÁLCULO

Nos anos 1970, ainda cheguei a usar régua de cálculo. A intimorata Aristo (perdão, Stanislaw) era indispensável para enfrentar equações cheias de pis, fis, gamas e tetas. Mal desconfiava que, pouco tempo depois, aquelas varetas móveis virariam peças de museu. Já existiam umas poucas máquinas de calcular portáteis, objeto de cobiça e instrumento de poder. Não se passou meio século e as maquininhas são vendidas em qualquer camelô e oferecidas como brinde de fim de ano. A mudança veio rápido, mas, naquelas salas remotas da ilha do Fundão, não era possível projetar a revolução virtual que mudou a cara do mundo e da qual as velhas Hewlett-Packard foram quietas precursoras.

Não é a primeira vez que abordo este assunto. Volto a ele porque sinto que estamos numa fase de aceleração do processo de virtualização de coisas e pessoas. Naquilo que o jornalista Hélio Schwartsman chama de Extremistão. Além disso, tenho observado o comportamento das novas gerações, e o que vejo me entristece. Circule-se por qualquer lugar – transportes públicos, praças, bares, restaurantes, ruas, residências – e se esbarrará com a postura de abutre, isto é, gente com o pescoço curvado na frente de um monitor.

Dia desses, estava num ônibus, quando se sentou ao meu lado uma moça. Imediatamente sacou da bolsa, o que seria mesmo ?, um iPhone, celular, sei lá. Lê alguma coisa, dedilha com agilidade uma mensagem, e guarda o aparelhinho. Segundos depois, um discreto barulho a faz tirar novamente o troço da bolsa. Dedos, mensagem, bolsa que engole o modernoso. O ritual se repetiu meia dúzia de vezes num curtíssimo intervalo de tempo. Fiquei aflito. Que fragilidade emocional faz com que uma pessoa precise estar sempre conectada para conseguir se reconhecer? Quem é que ainda não cruzou com um desses pobres viciados, que, numa demonstração de descortesia e desrespeito, ficam manipulando sua tralha eletrônica durante reuniões?

EDUCAÇÃO MODERNA

Onde parará o frenesi virtual? A China admite a existência de cerca de 24 milhões de jovens viciados em internet no país. Um jovem de 19 anos da cidade de Nantong, província de Jiangsu, radicalizou. Desesperado por não conseguir largar o vício online, decepou a própria mão. Associei essa atitude com a dos condenados por estupro. Os que se sentem incapazes de conter seus instintos chegam a pedir a castração química.

É exatamente com os jovens, mais precisamente os muito jovens, que me angustio. Há pais e mães que, orgulhosos, exibem suas crias ainda com fraldas e já demonstrando desenvoltura na frente de um monitor. Outros, conformados com “os tempos” – o tempora! o mores! -, dão amplo acesso a games viciantes e sem o menor cheiro de criatividade. Livros? Conversa? Pique-esconde? Quem pode competir com o ritmo alucinante dos joguinhos ?

Pesquisas recentes mostram que as crianças que cresceram empunhando telinhas têm habilidades motoras menores. Ao lado disso, há uma preponderância de amizades virtuais sobre as “presenciais” (odeio esse termo). Um psicólogo do Hospital das Clínicas, de São Paulo, diz que “as preferências de relacionamento da nova geração passam pela mídia digital. De alguma forma, esses recursos roubam a criança daquilo que a gente imagina ser o certo a fazer”. Temo que estejamos prestes a conviver com uma geração tatibitate. Tipo assim.

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AMANHÃ: Uma tendência cada vez mais forte é a perda de privacidade.

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