Todas as vitrias

Pedro do Coutto

Quando Daniel Alves executou a cobrana perfeita da falta e a bola, de curva, roou na trave esquerda e entrou no gol da frica do Sul, faltavam cinco minutos para o final da partida. Lembrei de meu amigo Nelson Rodrigues: todas as vitrias so santas. Ele costumava dizer. O vencedor, digo eu, deve agradecer a Deus, receber o xito com serenidade, e seguir em frente pelo destino afora. Outras etapas vm sempre na estrada da vida.

A Seleo Brasileira no atuou como poderia ter jogado, tem muito mais futebol, magia e arte do que demonstrou na quinta-feira. Os africanos superaram a si mesmos, magnificamente treinados por Joel Santana. A equipe de Dunga revelou-se lenta nos contra ataques e na sada de bola. A equipe de Dunga revelou-se lenta nos contra ataques e na sada de bola, facilitando a marcao mvel do adversrio. Alm disso, prendeu demais a bola na frente, proliferando as tentativas individuais de Kak e Robinho. Quanto mais o ataque prende a bola, melhor para a defesa do outro time. H mais tempo para marcar, maior reduo de espao para os atacantes. A marcao de mobilidade da frica do Sul foi brilhante. A ttica de tentar surpreender atravs de contra-ataques tambm. Era a nica possibilidade que Santana tinha de vencer o Brasil. Os africanos fecharam atrs e partiram pata lances isolados de ataque. Em matria de aplicao ttica, foram perfeitos. Fizeram o melhor que puderam.

Ns ficamos aqum do que podemos. Mas ganhamos. Necessitamos de um lance isolado para encontrar o caminho das redes. O que importa, acima de tudo, termos chegado vitria. Estamos na final. Mais uma na longa e gloriosa histria do futebol brasileiro. O jogo de domingo tarde muitssimo mais para ns. A seleo americana, em condies normais, no assusta. Na primeira fase, perdeu para ns por trs a zero numa partida fcil. Porm deciso deciso. O clima outro. A atmosfera tambm.

Mas devemos seguir confiantes na vitria, sem, claro, assumir o j ganhou que conduziu tragdia de 16 de julho de 50. Na vspera, um sbado, ao anoitecer, havia carnaval nas ruas do centro do Rio. Vinte e quatro horas depois a tristeza na penumbra da derrota por dois a um. Mas esse episdio pertence ao passado. Vamos firme para a deciso da Copa das Confederaes, preliminar na Taa do Mundo de 2010. Vamos firmes e confiantes, mas sem mscara, sem salto alto, sem menosprezar o adversrio.

Os EUA, taticamente, realizaram uma partida primorosa contra a Espanha, compreendendo bem o estilo ofensivo e pouco defensivo do adversrio. A seleo espanhola tradicionalmente ataca bem, movimenta-se ainda melhor no gramado, porm defende-se mal. Os quatro zagueiros, at hoje, apesar da evoluo do futebol, atuam em linha nica. Isso favorece extraordinariamente os lanamentos para penetrao em velocidade, transformando um atacante em pea de levar de vencida quatro homens da defesa. O meio campo tambm no volta para proteger a retaguarda. O futebol espanhol, futebol-arte, tem fibra mas simboliza o passado.

Sobretudo porque, no passado, as equipes jogavam com 11 homens. Hoje, jogam com 13. Surpresa? Nem tanto. Antigamente os dois laterais s defendiam. Hoje atacam tambm. Tornaram-se mais dois extremas em campo. O time americano absorveu bem as atuais prticas defensivas. Volta bem para defender sua rea. Porm podem perceber- deixa vrios espaos entre suas linhas. Campo aberto para a Seleo de Ouro, pentacampe do Mundo. Por isso, acredito firmemente que venceremos mais essa e traremos mais uma conquista para o Brasil. Vamos entretanto sem o j ganhou. Porque futebol se vence no gramado. E a partida s termina com o apito do juiz.

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