Tortura sempre mais

Sebastião Nery

Na guerra do Vietnã, os soldados americanos treinavam nos quartéis cantando canções macabras, que o mundo jamais esqueceu: “Vou para o Vietnã/matar vietcong”!

No quartel do forte do Barbalho, em Salvador, na Bahia, em 64, o capitão José Hermes de Figueiredo Ávila, nariz de gavião e sorriso de gilete, ficava na janela de sua sala de comando, no 2º andar, vendo, lá embaixo, os sargentos Nova, Santana e Jacques dirigirem os exercícios diários de treinamento de centenas de soldados da Companhia de Guarda do Exército.

O soldado Pelé, negro, alto, forte, voz de trovão, puxava a marcha e o coro coletivo, todos batendo forte os pés no cimento e gritando, ritmados: “Um, dois! Um, dois! Soldado não pensa! Soldado não pensa”!

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O CHINÊS E A ANISTIA

Um pacato comerciante chinês de lavanderia, naturalizado brasileiro, porque estava embarcando no aeroporto do Galeão para os Estados Unidos, onde a família mora e os filhos estudam, levando US$ 30 mil dólares (se fossem US$ 30 milhões, o Banco Central ensinava como mandar escondido), foi preso, levado para a cadeia, torturado e friamente assassinado.

Também uma delegação da Anistia Internacional fez um levantamento sobre torturas nas prisões brasileiras e ficou escandalizada com a quantidade, a violência e o hábito, continuado, permanente, sempre impune, da tortura aqui.

Já faz tanto tempo que a ditadura acabou e, com ela, a generalização da tortura, criada, mantida e inutilmente escondida pelos altos comandos. Tempo houve para a tortura acabar. Não acabou porque ela saiu dos quartéis militares, mas continua entranhada na secular formação de muitas polícias.

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NO PARQUE GUINLE

Há algun anos, os jornalistas Jan Theophilo e Vera Araújo, do “Globo”, fizeram denúncia aparentemente hilária, mas de terrível gravidade. Flagraram soldados do Bope (Batalhão de Operações Especiais) da PM do Rio fazendo seus exercícios coletivos matinais pelas ruas grã-finas do Parque Guinle, bem em frente ao venerando Palácio das Laranjeiras, e entoando felizes, eufóricos e heróicos, como se fossem cândidas canções de amor:

“O interrogatório é muito fácil de fazer, pega o favelado e dá porrada até doer./ O interrogatório é muito fácil de acabar, pega o bandido e dá porrada até matar”.

Um inacreditável hino de amor, saudando as luminosas manhãs do Parque Guinle.

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SOLDADOS E FAVELADOS

Se fosse apenas esse verso, podia-se imaginar que é coisa de algum tarado infiltrado na tropa. Mas continuavam, todos eles, uníssonos, marchando e cantando a letra mórbida, longa, rimada, sem um erro só:

– “Esse sangue é muito bom, já provei, não tem perigo. É melhor do que café. É o sangue do inimigo”.

E mais: – “Bandido favelado não se varre com vassoura./ Se varre com granada, com fuzil, metralhadora”.

É uma sociologia policial muito destrambelhada, muito transviada. Quantos daqueles soldados, que se presume corretos e distantes do crime e da droga, não vieram das favelas ou ainda moram em favelas? Fizeram a cabeça deles para matarem a gente deles?

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JABUTI E PM

Como ensinou Vitorino Freire, jabuti não sobe em árvore; se está na árvore, alguém o pôs lá. Esses soldados não aprenderam isso em casa. Alguém lhes ensinou nos quartéis, para onde foram aprender a servir à lei e à ordem.

Claro que isso não acontece apenas no Rio. A violência policial, civil e militar, diante da qual a Anistia Internacional fica tão constrangida, é um problema nacional, de norte a sul. E quanto mais atrasados os estados, mais facilmente cresce a violência dentro dos quartéis e delegacias.

Não basta a PM ou a Polícia Civil apurarem e punirem. É preciso, sobretudo, que as Academias de Polícia Militar e os cursos de preparação da Polícia Civil façam do combate à violência uma preocupação permanente, matéria prioritária, no ensino e no dia-a-dia. E nas manhãs do Parque Guinle.

Quanto mais violenta é a polícia, mais o bandido tem cobertura social.

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