Transiberiana, a ferrovia do sonho que deveria servir de exemplo ao Brasil

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A célebre ferrovia está em operação desde 1903

Sebastião Nery

Há sempre um trem de ferro na infância de cada um. Mas sempre houve um na infância de todos: A Transiberiana. Cantada em prosa e verso, cenário de romances, história de filmes, mas sobretudo mistério e aventura nos contos infantis, a Transiberiana é um patrimônio da humanidade.

E agora ela está aqui, ao meu lado, com seus trilhos nevados, sua respiração profunda, ofegante, suspirosa, seu cheiro de sonho, invadindo a floresta, mergulhando montanhas, saltando rios, cortando a Ásia de ponta a ponta, de Moscou a Vladivostock, 11 mil quilômetros, 10 horas de fusos horários diferentes, uma semana inteira, dia e noite, a mais de 80 quilômetros por hora, ligando dois mundos.

1 – “Quem domina a distância, domina a Sibéria”, dizem os siberianos. Eles sabem que, antigamente, as nações eram ocupadas por tanques. Hoje, por trilhos. Por isso, da Transiberiana acaba de nascer uma nova estrada, monumental como ela, outra epopeia da engenharia, cortando a Sibéria mais pelo centro (a Transiberiana é mais pelo Sul), dentro da floresta: a Baikal-Amour, ligando o lago Baikal, no coração da Sibéria Oriental, ao Pacífico, na região do rio Amour.

2 – A BAM, como eles chamam, 3.200 quilômetros, toda eletrificada, duas longas bitolas, correndo a 120 quilômetros por hora, carregando 3 mil toneladas, usando locomotivas e vagões especialmente construídos para ela, e controlada por um sistema de televisão. Só a infra estrutura na região, preparando a construção, custou 15 bilhões de dólares, mais do que foi gasto na própria estrada e quase um quarto do orçamento nacional anual de um país como a França.

3 – Em cinco anos de construção, movimentou 270 milhões de metros cúbicos de terreno, ou seja, mais de cem pirâmides de Qheops. Tem mais de 1.500 pontes, mais de 10 túneis, e quase 2 mil quilômetros de estradas paralelas, em um raio de 1.600 quilômetros, Cem mil homens, com uma idade média de 23/25 anos, a fizeram.

4 – Nas montanhas que a BAM atravessa, são frequentes as avalanches de gelo. Em certas regiões por onde passa, há até 2 mil tremores de terra por ano.

5 – Aliás, como tudo na Sibéria é imenso, por causa de seu tamanho, também nos outros transportes os números são sempre grandiosos: 10 mil quilômetros de rios navegáveis, ligando por exemplo, a Sibéria a Londres. Navios de 3 mil toneladas sobem e descem os rios Enissei e Angara, unindo as fronteiras sul e norte da Sibéria, ao longo de 3.200 quilômetros.

6 – Em 1978, o transporte de passageiros em todo o país foi assim: estradas de rodagem (40.365 milhões), estradas de ferro (3 bilhões), fluvial (144 milhões), aéreo (97,8 milhões), marítimo (50,3 milhões).

7 – Também em 1978, o transporte de mercadorias no país inteiro foi assim: estradas de ferro (3.429 milhões de toneladas por quilômetro), oleodutos e gasodutos (1.049 milhões de ton/km), marítimo (815.700 mil ton/km, fluvial (243.500 mil ton/km), aéreo (2.086 mil ton/km).

8 – Esses números mostram que os países de grandes extensões como a Russia, os Estados Unidos, o Canadá, o Brasil, tec., não podem basear seu transporte sobre rodovias, sobretudo depois da crise do petróleo. É preciso articular estradas de ferro, rios, mares, rodovias e aviões. Aqui na Sibéria se diz: “automóvel, só até 400 quilômetros.”

Vou anotando esses números enquanto a Transiberiana, longa e esguia, mergulha floresta adentro, no infinito branco da neve. Como nas histórias e nos sonhos da infância.

 

16 thoughts on “Transiberiana, a ferrovia do sonho que deveria servir de exemplo ao Brasil

  1. O artigo em tela, do brilhante Sebastião Nery, vem a calhar de várias maneiras.

    Primeiro:
    Tenho sido insistente em escrever a grave falha e incompetência de nossos governantes pela falta de ferrovias;
    Segundo:
    Os países desenvolvidos têm na suas histórias o trem como coadjuvante;
    Terceiro:
    Não existe um transporte que tenha sido tão importante para o progresso do que o trem;
    Quarto:
    Em termos de transporte coletivo, as grandes cidades no mundo ou possuem uma fantástica malha ferroviária ou o metrô é substancial para as populações;
    Quinto:
    Se tivéssemos governos verdadeiramente interessados no país, e não em se locupletarem com o dinheiro do povo, o Brasil seria um parque de obras relativas às ferrovias. Um país continental como somos, e desconsiderar o trem como fator crucial para desenvolver as regiões mais atrasadas que registramos, trata-se de crimes lesa-pátria, de traição ao povo, de gente que deveria estar na cadeia há muito tempo!

  2. A Transiberiana representa para os russos uma conquista inigualável.

    Tanto para transportes como para ligação entre cidades que os veículos não chegam pela falta de estradas.

    O turismo que atrai milhares de pessoas a transitarem por ela, a distância imensa entre Moscou e Vladivostok, passando por OITO FUSOS HORÁRIOS, China e Mongólia, e 10.000 km a sua extensão, é tão admirada quanto a Muralha da China!

    Se me dessem apenas uma escolha de eu viajar para fora do Brasil, eu escolheria, sem dúvida alguma, conhecer a Transiberiana!

    Pois bem, enquanto isso, os brasileiros assistem a Transamazônica ainda em chão batido, caminhões atolados, uma estrada abandonada, que poderia perfeitamente bem receber os trilhos de uma extraordinária ferrovia!!!

  3. Recado do Porco de Garanhuns ao povo brasileiro trazido pelo puxa-saco Celso Amorim, ministreco tradutor oficial do Lula, ao sair da visita á cadeia em Curitiba:

    “Eu não vou trocar minha dignidade pela liberdade.”

    – Que dignidade, porco sebento?

    • Ele sabe que não vai ser solto, mesmo. Então fica dando uma de encantador de burros. Pior do que o Lula na cadeia é ter tido o Celso Amorim como Ministro da Relações Exteriores. Este sim, sempre foi um encantador de jumentos pois foi doutor sem nunca ter terminado o doutorado.

  4. Caso Lula tivesse mesmo dignidade não estaria preso, lógico!

    A bizarrice petista é abominável!

    As tentativas de transformar em positivo o que é negativo e vice-versa, beira a insanidade, e comprova o quanto são radicais e fanáticos!

    • Caro leitor e comentarista Francisco Bendl,
      Não só as bizarrices dos petistas são abomináveis.
      Eles agora ultrapassaram todos os LIMITES com esse imbróglio do último domingo no TRF-4a. Região.
      Essa agremiação política denominada de PT faz chacota com o Poder Judiciário brasileiro, pois protocolou no STJ mais 264 pedidos de HC´s para o condenado e preso Luiz Inácio Lula da Silva.
      Mas me parece que TODOS eles foram INDEFERIDOS LIMINARMENTE, com previsão de publicação em 02/08/2018.
      A Ministra Laurita Vaz deveria não só INDEFERIR LIMINARMENTE, mas como condenar por LITIGÂNCIA DE MÁ-FÉ cada IMPETRANTE.

  5. Em 1903 estava-se construindo estradas de ferro no Brasil. Mas o país foi se fechando com a psicose de que “estão roubando nossas riquezas” e acabou por se estatizar as ferrovias, que não demorou muito viraram sucata.
    O pior é que a psicose de que “roubam nossas riquezas” não tem cura: várias empresas internacionais querem entrar na área de infra-estrutura , mas a legislação protegendo as tais “nossas riquezas” não deixa e com isso já são mais de 40 milhões de desempregados no país. Que país.

  6. -SE EXISTISSE TRANSPORTE FEITO POR TRILHOS, há muito tempo eu já teria vendido o meu carro e ficado livre de ser

    roubado pelo Detran,
    roubado pelas montadoras,
    roubado pelas seguradoras,
    roubado pelas concessionárias,
    roubado pelas autopeças,
    roubado pelas empresas de pedágio,
    roubado pelos donos de estacionamento,
    roubado pelos flanelinhas,
    roubado pelos donos dos postos,
    roubado pelo governo federais,
    roubado pelo governo estadual,
    pelo governo municipal,
    e roubado pelos amigos do PEDRO PARENTE!

    -Por isso os governantes, sabendo disso, jamais farão ferrovias nesta fazenda ou tirarão a sela das costas dos cavalos!

    • 1) Concordo Francisco Vieira – Brasília – DF

      2) Em 2010 consegui me desfazer do carro, dirigi durante 30 anos, o desapego me trouxe uma das grandes felicidades da vida.

      3) No meu caso, é aliviante não ter automóvel, mas reconheço que muitos precisam.

  7. Duas palavras, no português, oriundas da fonética de conversas, em construção de estradas férreas.
    É sabido que os ingleses foram os inventores dos trilhos de ferro: James Watt. Em homenagem ao célebre inglês, convencionou-se o Watt (W) como símbolo da unidade de potencia elétrica.
    -Em Portugal: durante a construção de uma via férrea, os nossos irmãos portugas ouviam, com frequência, os britânicos pronunciarem: sleeper, chulipa, na audição dos lusitanos. Sleeper = dormente: espaçador de madeira entre um trilho e outro, dormente. Logo, os portugueses passaram a chamar dorminhoco e mofino de chulipa.
    -No Ceará: a primeira estrada de ferro estendida naquele Estado, tinha no comando um engenheiro inglês, o qual exibia um jeitinho afeminado, e ele repetia muito o termo “baitola”, pronúncia de bitola = distância entre dois trilhos paralelos. Por isso, ainda hoje, na terra do meu Padín Pade Ciço Rumão Batista, gay é chamado de baitola.
    Ah, num Estado, lá na fronteira com o Ceará, existe uma família cujo sobrenome é Suassuna. Será se o saudoso Ariano pesquisou este significado em tupi-guarani?

  8. Construir uma ferrovia aqui é fácil, a Norte Sul só levou uns trinta anos. Parece que o difícil é fazer funcionar. Acho que estão tentando fazer a locomotiva pegar no tranco. Deve ser isso.

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