Três momentos especialmente importantes, na vida de Jorge Béja

Carlos Newton

Em resposta ao comentarista Francisco Bendl, aqui na Tribuna da Internet, o advogado e pianista clássico Jorge Béja recentemente relatou três episódios ocorridos em sua atuação comunitária que muito o comoveram. Devido à importância desse depoimento pessoal, que significa uma lição de vida e serve como extraordinário exemplo às novas gerações, resolvi tomar a liberdade de publicar o texto como artigo neste blog, para abrir de forma altamente positiva mais uma semana que se inicia.

###
TOCANDO AO PIANO, PARA DESCONHECIDOS

Jorge Béja

Muito me comove tocar nos presídios e nos hospitais. Nessas apresentações humanas e modestíssimas, três momentos muito especiais me marcaram e realmente me fizeram chorar muito. Um deles foi numa penitenciária. O segundo, num hospital. E o outro, na meio da rua, aqui no Rio.

No presídio. após tocar para os presidiários, um deles subiu ao palco, me agradeceu e perguntou se poderia me prestar uma homenagem. “Claro que sim”, respondi, sob o olhar severo e quase reprovatório do diretor da penitenciária. E qual a surpresa! O detento sentou-se ao piano e tocou, com perfeição técnica e uma interpretação sublime, a peça de Bach “Jesus Alegria dos Homens”.

No café que se seguiu no refeitório, pedi que se sentasse junto de mim à mesa. Não costumo perguntar a presidiário o que ele fez para estar ali. Mas para este, delicadamente, perguntei. Eis a resposta: “Estou apenas descansando de tanto esquentar carro roubado e depois revender. Vou sair mês que vem e vou tocar o meu negócio pra frente. Dá muito dinheiro”.

No hospital. Também sempre aos domingos, entre 9 e 11 da manhã. Ao lado do piano trouxeram uma paciente deitada numa maca. Não falava, não se mexia, nada respondia. De súbito, ao ser levada de volta à enfermaria, a maca passou rente ao teclado no piano. E ela me olhou e lentamente, moveu o braço direito para o teclado.

Com minha ajuda, olhando para o teto do refeitório, dedilhou sozinha o Noturno nº 2 de Chopin. Era uma pianista. E ninguém sabia. Ninguém a visitava. Estava internada há 4 meses. Como chorei.

Na rua. Quando completou 20 anos da queda do Elevado Paulo de Frontin, no Rio (200 metros do elevado ruíram, matando 29 pessoas, 20 dentro do ônibus da linha 415 da Auto Viação Tijuca que no momento da queda passava sob o elevado pela Rua Haddock Lobo, e 9 transeuntes), mandei levar meu piano de cauda para debaixo do viaduto e toquei em memória das 29 vítimas. Interpretei a “Marcha Fúnebre”, de Chopin.

Todas as emissoras de televisão vieram gravar a apresentação, até o correspondente da CNN. O piano ficou na calçada. Junto à multidão, que não entendia o motivo daquele gesto, estava minha esposa Clarinda, segurando 29 rosas que depois depositamos ao longo da calçada, em memória das vítimas.

Tudo terminado, as TVs já tinham se retirado, apareceu uma mendiga. Empurrava um carrinho de madeira. E ela veio até mim e perguntou: “Moço, posso pegar aquelas flores pra mim?”.

“Não”, respondi. “Elas são para os mortos”, expliquei. E a mendiga me fez chorar muito quando imediatamente respondeu: “Então são minhas, porque eu estou mais morta do que viva, se é que já não morri e penso que ainda estou viva”.

Chorando muito, peguei-a pelo braço, levei até as flores e disse: “Pegue uma só e deixe as outras aí”.

9 thoughts on “Três momentos especialmente importantes, na vida de Jorge Béja

  1. Caro Newton, as lágrimas me vieram aos olhos, ao ler o “exemplo de um seguidor de JESUS, nesses três momentos, de AMOR AO PRÓXIMO e ao PAI CELESTIAL. Minha admiração pelo Dr. Béja, que conheço pelos seus ARTIGOS aqui na TI, vejo um Espírito do BEM, que procura aliviar as dores e dar Esperança, pelo seu AMOR Á JUSTIÇA DOS HOMENS< IMPERFEITA< MAS CUMPRINDO A DE DEUS, QUE È JUSTA E MISERICORDIOSA..
    Que DEUS nos abençoe, ao POVO BRASILEIRO E A HUMANIDADE,
    Parabens ao BLOG, pelo trabalho de AMOR FRATERNO ESCLARECEDOR.

    • Vera, Theo Fernandes e Carlos Newton, que me presta esta homenagem, sem esperá-la e sem merecê-la. Não pensei nem muito menos imaginei que o agradecimento que dirigi a Francisco Bendl fosse se transformar em artigo. Artigo que muito me comove.

      Quisera eu poder continuar com essas apresentações relâmpagos. Anos atrás não encontrava barreira. Um contato com a direção de hospitais e presídios era o suficiente. E logo o simplório “recital” era marcado e cumprido. Mas de uns anos para cá tudo ficou diferente. Diferente para pior. Já não conheço nem tenho alguém que conhece a direção de presídios aqui no Rio. O último que tentei me respondeu que precisava obter autorização do Secretário, não sei se de segurança, do Desipe…ou do próprio secretário que auxilia o diretor!

      Tocar agora em praça pública ficou difícil e perigoso. A guarda municipal logo aparece para impedir e exigir um tal papel autorizativo da prefeitura. Caso não o tenha, o piano é levado não sei pra onde e eu recebo uma multa. Nas capitais dos países da Europa, mesmo em Buenos Aires, músicos tocando seus instrumentos em praças públicas é o que mais se vê. Eu mesmo toquei uma peça musicial em Amsterdam. Fiquei próximo ao pianista e quando ele parou, bastou um gesto dele concordando que me sentasse ao piano. Dias após o ataque ao Bataclan, em Paris, um pianista francês levou seu piano elétrico para a porta do estabelecimento e tocou divinamente bem. Se não me engano, ele tocou uma das músicas dos Beatles. “Jorge, quando vi aquele pianista tocando na porta do Bataclan, cercado de flores e de uma multidão em silêncio me lembrei de você tocando debaixo do Elevado Paulo de Frontin”. Eis uma passagem da mensagem e-mail que a doce, meiga, bela e talentosa filha de Carlos Newton me passou lá da Europa.

      A famosa frase de Augusto dos Anjos ( “a mão que afaga é a mesma que apedreja”) é própria para retratar o que vou contar. Ano passo a empresa que me fornece o sinal de tv a cabo esta custando a me atender. Os dias iam passando e nada! Ninguém vinha até aqui em casa. Então consegui o e-mail do presidente da empresa. E escrevi que se os técnicos não viessem resolver o problema em 24 horas, no dia seguinte eu colocaria um piano de cauda na Cinelândia, centro do Rio, e vestindo fraque e casaca iria tocar o memo número musical que a propaganda da empresa na tv divulgava para angariar consumidores e clientes. Mas com um aviso, afixado numa placa próximo, nada, nada, lisonjeiro à tal empresa.

      Passei o e-mail às 10 da manhã, a resposta veio às 10:30h e os 3 técnicos ( não-terceirizados) chegaram aqui em casa no início da tarde do mesmo dia. E de lá pra cá passaram a ligar perguntando se eu estava precisando de alguma coisa e se o sinal da tv estava 100%…Até hoje ligam. Se minha mensagem ao presidente da empresa não fosse atendida, eu faria o prometido. Seria um protesto sem violência, inteligente, musical e surtiria efeito.

      A todos, muito agradeço

  2. Não contive a emoção que se transformou em lágrimas. Todos conhecemos Dr. Béja como um incrivel jurista! Agora, conhecendo sua alma sensivel, ficamos conhecendo o ser humano que é! Parabéns à TI por tê-lo aqui. Parabéns, ao Dr. Béja., um jovem senhor,. Que tenha muitos anos de amor às criaturas de Deus.

  3. Não acredito em religiões onde a caridade não faça parte.

    O nosso Dr.Béja é um homem caridoso, que tem pela espécie humana consideração e respeito, amor e compaixão, e sabe usar o maior poder que Jesus deixou para seus seguidores e, a meu ver, o símbolo do Cristianismo:
    O PERDÃO!

    Ao encantar os presidiários com a sua arte, levando consolação, esperança e perdão pelos atos cometidos, o nobre advogado age conforma fala para seus admiradores, sendo coerente, legítimo, um ser humano ímpar, exemplo a ser seguido.

    Inegavelmente tais atributos têm relação com a sua fé, com a sua crença, com aquilo que acredita e que transcende este plano material e espiritual que vivemos, baseado nas palavras de Cristo.

    Poder compartilhar este espaço democrático com uma pessoa deste porte moral e ético, nos obriga a refletir sobre nosso comportamento, e exigir de nós mesmos que sejamos melhores a cada dia, que tenhamos essa caridade demonstrada pelo Dr.Béja, e que saibamos perdoar e compreender o próximo.

    O nosso querido articulista, me lembra Provérbios, 31:26, que diz o seguinte:

    Fala com sabedoria
    e ensina com amor.

    Um forte e fraternal abraço, Dr.Béja.
    Muita Saúde e paz, de modo que fique conosco por muito, muito tempo, pois precisamos da sua presença e exemplos que nos tem dado diariamente através deste blog incomparável!

  4. Amigo Bendl.
    O artigo que o nosso Carlos Newton preparou e publicou foi por causa de mensagem minha para você através da nossa Ti. Dom Bosco deixou escrito que um aluno seu, de seus colégios, seria um “salesiano para sempre, sempre um de meus filhos” ( “Memórias Biográficas” ).
    Estudei no Colégio São Bento e depois no Colégio Salesiano de Niterói, a primeira casa salesiana no Brasil, erguida em 1885, três anos antes da morte de Dom Bosco (31.1.1888). Foi Nossa Senhora Auxiliadora que inspirou Dom Bosco a fundar sua congregação religiosa e desta, Ela passou ser a padroreira. Amanhã, 24 de Maio,é Dia de Nossa Senhora Auxiliadora. Os salesianos do mundo inteiro amanhã estarão em festa. Estarei orando à Auxiliadora pela sua saúde, pela saúde de Francisco Bendl, também ex-aluno salesiano do colégio de Brasília. Também um Salesiano.

    • Caro Dr.Béja,

      E tenho muito orgulho de ter sido aluno salesiano, do Colégio Dom Bosco, em Brasília, na longínqua década de sessenta!

      Lembro-me dos padres Elíseo, Raimundo, Renato, João, o Diretor, um outro padre baixinho, moreno, magro, que fundou o META (um grande amigo meu, que também estudou no colégio, na mesma sala de aula, José Carlos Cantanhede, irmão da jornalista da Globo News, deve se lembrar), padre Newton, que lecionava latim(!), era um educandário magnífico!

      Tenho muita saudade daquela época, naturalmente.

      No entanto, como diz o ditado do para-choque do caminhão,
      “Na estrada da vida não tem retorno”,
      resta-me seguir em frente e volta e meia me recordar de uma juventude que se vai longe foi estupenda, brilhante, emocionante, inesquecível, lá, no Plano Piloto, DF, quando ajudei a construir a capital do Brasil, Brasília, e rasgar estradas para que os Estados da Federação se conhecessem!

      E também onde tive a minha PRIMEIRA NAMORADA, de Goiânia, uma linda loirinha.

      Meu Deus, quanto tempo! Falo de 50/55 anos atrás!

      Outro grande abraço, Dr.Béja.

      Muito obrigado pela sua preocupação para comigo, e sei que as suas preces serão atendidas, pois retorno a Porto Alegre amanhã para mais exames, que não aguento mais, confesso!

      Saúde e Paz, meu caro.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *