Triste constatar que o Brasil fez uma opção clara pelo atraso e pelas cavernas

Charge do Ique (ique.com.br)

Ronaldo Conde
Blog de Penedo

Estive no Rio de Janeiro, onde passei quinze dias. Como faço sempre, andei muito pelo Centro, pelo Flamengo, Botafogo, Copacabana e Catete. Não gosto de Ipanema, nem do Leblon. A sofisticação esnobe e jeca dos dois bairros me é insuportável.

No Centro, andei mais pelo Centro histórico, ou seja, pelas ruas da Carioca, Senhor dos Passos, praças Tiradentes e da República e Largos da Carioca e do São Francisco, Cinelândia e adjacências. Não estive na Praça Mauá, nem no Museu do Amanhã, nem passeei de VLT, um dos tantos investimentos discutíveis da cidade.

Vi muita coisa no Rio: sujeira, mendicância, carências. O Rio é lindo: suas matas, o mar, a baía da Guanabara, o arco de montanhas que cerca a cidade (Pão de Açúcar, Corcovado, Dois Irmãos, para citar algumas apenas). Mas há um contraste imenso entre a cidade “real” e o cenário natural e harmonioso da cidade.

A Baía da Guanabara, por exemplo. O Velhote do Penedo, rapaz e adolescente, morava na Rua Senador Vergueiro e com os amigos (como dizíamos, “a turma”) tomávamos banho na Curva da Amendoeira, um espaço entre a Avenida Ruy Barbosa e a pista da praia do Flamengo. Com mais precisão: à direita da Praça Cuahtamoque. Naquele tempo, não havia aterro.

PRAIA DE BOTAFOGO – A Baía da Guanabara não era tão poluída. Tanto que quando nadávamos em direção à Praia da Urca, víamos golfinhos passeando pela Enseada de Botafogo, onde havia uma praia, que era frequentada. Hoje, é uma praia deserta, apenas frequentada por urubus, que se alimentam da sujeira que chega à areia.

Moro em Brasília, mas hoje não me disponho a residir no Rio. Digo logo: não sou apaixonado por Brasília, que considero uma cidade sem alma e atrasada culturalmente. Uma cidade que, com 50 anos, se mostra todos os defeitos das cidades brasileiras. Mas, o que fazer? Tenho amigos – amigos queridos – no Rio, com os quais me comunico. Quando penso em sair de Brasília, penso em ir morar no Penedo. Tenho um primo que possui uma pousada, onde pretendo me instalar um dia e ficar lendo, escrevendo e ouvindo música. Sou um sujeito que me contento com muito pouco.

VULGARIDADE – Como disse antes, o Rio é uma cidade coroada de contradições, onde a vulgaridade campeia, onde a cultura do “patotismo” é maior que tudo, onde se vive de falsos ideais e de equivocadas visões do mundo. O carioca – nato ou não – é, sem dúvida, um tipo simpático, risonho, enfrenta tormentos cotidianos com surpreendente disposição e certa alegria, mas, no fundo, o carioca é um misto de complacência, resignação e autocomiseração. Criou-se em torno do carioca o folclore do malandro esperto, no qual ele acredita piamente.

Não se pense que não gosto do Rio, que não me sinto bem nas suas ruas e praças. Como vou ao Rio, no máximo, duas vezes por ano, é fácil eu observar a decadência da cidade que os moradores da cidade talvez não percebam. Cada vez que vou ao Rio, concluo que o Rio de hoje não é o meu Rio.

Nessa última viagem, andei pela Rua da Carioca: lojas fechadas, sobrados em franca deterioração. Todos os sebos que havia na Carioca (eram três) foram fechados, como o foram também dois outros na Praça Tiradentes. Está certo, estamos em recessão, mas na Rua da Carioca – me parece – o que está ocorrendo é uma ação planejada: como todos os sobrados da rua foram tombados, o melhor é deixá-los se acabar – e, no seu lugar, edificar prédios de escritórios. Bem, mas isto é outra história.

TEMA DE ESTUDO – Já registrei aqui no Facebook uma cena surrealista: na Cinelândia, um grupo de mendigos estava no chão, coberto de panos e cobertores (estava muito frio). Os transeuntes passavam – indiferentes e preocupados com os “trombadinhas”, que os espreitavam. Na Avenida Rio Branco, o VLT estava passando e nas escadarias da Câmara dos Vereadores, alguns professores (em greve) portavam cartazes que denunciavam o golpe, exigiam “Fora Temer”. Ali estava, a meu ver, um belo tema de estudo: a miséria absoluta (os mendigos), a modernização conservadora (o VLT) e a gritaria da chamada e equivocada esquerda brasileira (os professores, cujos alunos estão em casa, sem aulas).

Agora pensem no seguinte: enquanto os mendigos se estiravam nas pedras portuguesas sujas de coco de pombos, procurando se proteger do frio; enquanto o VLT ligava Praça Mauá ao Aeroporto Santos Dumont; enquanto professores deixavam as salas de aula para berrar “Temer golpista”, a “Forbes.com” noticiava que os chineses (sempre eles!) instalaram, nos últimos seis meses, 20 GW de energia solar – energia solar! – em seu território, o que equivale a 25% de uma Itaipu. Isto significa que em dois anos eles terão uma Itaipu “solar” na China.

Triste constatar que o Brasil fez uma opção clara pelo atraso e pelas cavernas, onde faremos fogo por fricção.

(artigo enviado pelo comentarista Mário Assis Causanilhas)

10 thoughts on “Triste constatar que o Brasil fez uma opção clara pelo atraso e pelas cavernas

  1. Só faltou dizer que os professores estavam em greve pois estavam sem receber os seus salários há tempos. A Dilma pedalou e por isso deve ser responsabilizada, porém a cabralina quadrilha do guardanapo está fazendo algo muito pior, além de pedalar está até cometendo apropriação indébita dos empréstimos consignados, que são descontados e não pagos, para a alegria do Bradesco, que está fazendo consignado em 84 meses…..

  2. A divulgação da cena, pelo UOL, teve uma repercussão muito negativa. Para muita gente, a situação sugere preconceito, por ser um menino de rua.

    Gisele entra no palco desfilando ao som de “Garota de Ipanema”. A certa altura, é abordada por um rapaz com roupas simples. Ao se aproximar da modelo, ele é perseguido por policiais. Gisele o protege e esclarece a situação.

    O ensaio serviu para testar esta e outras cenas. O Comitê 2016 diz que haverá outras mudanças em relação ao que foi visto no domingo, mas não especificou quais.

  3. DESDE QUE TOMOU POSSE, O MONTE PARA O FUTURO JÁ LIBEROU R$ 3,7 BILHÕES PARA ESSE CIRCO CABRALINO. COMO SE VÊ A INDÚSTRIA DAS OBRAS DE EMERGÊNCIA, SEM LICITAÇÃO, ESTÁ INDO MUITO BEM AO CONTRÁRIO DA CIDADE…
    —-
    Pai de líder do PMDB ganha obras dos Jogos Olímpicos sem licitação
    —–
    MARCO ANTÔNIO MARTINS
    ITALO NOGUEIRA
    DO RIO
    08/07/2016 02h00
    A Prefeitura do Rio contratou sem licitação duas empreiteiras da família do deputado André Lazaroni, líder do PMDB na Assembleia Legislativa do Rio, para concluir obras olímpicas em atraso.
    Os contratos somam mais de R$ 100 milhões.
    As construtoras Zadar e a Engetécnica, responsáveis respectivamente pela finalização do Centro Olímpico de Hipismo e do Velódromo, pertencem a Paulo Roberto Moraes, pai do deputado.
    Os dois contratos sem licitação foram feitos após o município rescindir o acordo com as empreiteiras responsáveis pelas arenas.
    Elas haviam vencido concorrências para a obra, mas não conseguiram cumprir os prazos. O Velódromo e o Centro Olímpico ainda estão em obras e são as instalações que mais preocupam a organização dos Jogos.
    O vínculo entre Lazaroni e a Engetécnica foi revelado nesta quinta (7) pelo telejornal “SBT Rio”. A Folha apurou que a Zadar também faz parte do patrimônio da família do deputado. As duas integram o grupo Riwa.
    A Empresa Olímpica Municipal disse, em nota, que as empresas apresentaram as melhores propostas. As empresas e Lazaroni não comentaram o caso.
    VALORES
    A Zadar foi contratada por R$ 66 milhões após a prefeitura romper o contrato com a Ibeg Engenharia para a reforma do Centro de Hipismo.
    O administração do município alegou em janeiro que a empresa não conseguia cumprir os prazos contratuais. A Ibeg afirmou, contudo, que constantes alterações e atrasos na entrega dos projetos da obra resultaram no atraso da reforma.
    A Engetécnica substituiu em maio a Tecnosolo na construção do Velódromo. Foi firmado contrato de R$ 55,5 milhões para conclusão da obra.
    Ela já havia sido subcontratada pela titular do contrato. A Tecnosolo está em recuperação judicial e enfrentou dificuldades para realizar pagamentos antes dos repasses da prefeitura.
    As duas empresas de Moraes também foram as responsáveis pela construção do Estádio Olímpico de Esportes Aquáticos. Elas formaram o consórcio Onda Azul e venceram licitação da obra da arena, orçada atualmente em R$ 235 milhões.

  4. Sou uma carioca postiça. Ah que saudades me deu quando você menciona as ruas co Centro, por onde andei. Verdade, não havia tanta violência como nos dias de hoje. A gente podia sair dos cursos noturnos, depois de uma jornada de trabalho e caminhar até a Av. Rio Branco para apanhar uma condução, rumo ao Grajaú e Botafogo, bairros onde morei, altas horas da noite. Tenho saudades e voltaria para lá. O Rio continuará sendo, por toda a vida, a Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil. O carioca nato e não nato é dono de um bom humor incrivel.

  5. Como carioca nato, me envergonho profundamente da dura realidade retratada pelo Ronaldo Conde, de quem nunca ouvi falar também.
    Mas esse artigo merece reflexão.
    Em cada palavra há uma aura de verdade que nos petrifica diante do passar do tempo.
    E olha que ele não falou das Zonas Norte e Oeste, talvez porque nem tenha pisado por lá.

    Tirando a Miami carioca, o filé da Barra e parte do Recreio, e mais algumas ilhas de paz ainda existentes na Zona Norte, o resto é um imenso favelal que se espraia e se aperta entre os trilhos da Central e as águas pútridas dos eflúvios que dividem a cidade da Baixada Fluminense, outra fonte interminável de produção de baixarias dos mais diversos níveis.

    Não é mau humor; é constatação: o que melhorou de sério nesta cidade nos últimos 30 anos? Quem acha que o VLT, o Túnel Marcello Alencar e outros monumentos materializadores da corrupção generalizada amenizam o nosso sofrimento do dia a dia está apenas colaborando para apertar a corda dos nossos pescoços e ajudando a engolir essa gororoba diária, goela abaixo.

    O retrato do Ronaldo Conde é triste, muito triste, mas absolutamente verdadeiro – o que é mais triste ainda.

    • O retrato é muito triste e absolutamente verdadeiro com relação ao Rio de Janeiro, conforme as opiniões; mas quem informa errado contribui com o atraso. Entretanto para que não se pense errado como o Ronaldo Conde pensou e mandou pensar:
      Em 2014 a capacidade global instalada acumulada, segundo a EPIA (European Photovoltaic Industry Association), foi de 178 GW, sendo que só a Alemanha acumulou impressionantes 38 GW instalados em sua matriz, seguida pela China (28 GW) e Japão (23 GW). Vale lembrar aqui, como comparação, que Itaipú ainda é a maior usina hidrelétrica do mundo em geração de energia, com capacidade instalada de 14 GW.
      Em 2015 estima-se que a capacidade global FV instalada tenha atingido 233 GW, com acréscimo de 55 GW (30,9%) em relação a 2014.
      Segundo a consultoria IHS, a China disparada com 14,4GW; foi quem mais investiu na fonte solar em 2015, seguida do Japão (9,0GW), EUA (8,4GW), Reino Unido (3,2GW) e Alemanha(2,5GW).
      LUTEM PARA NÃO FAZER FOGO POR FRICÇÃO!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *