Tucanos sem plano de voo

Carlos Chagas

Deixando por alguns momentos para trás o deboche da CPI do Cachoeira, a expectativa da Comissão da Verdade e a certeza de que os mensaleiros serão julgados, vale estender a vista para mais longe. Parece óbvio que a presidente Dilma se candidatará a um novo mandato, em 2014. Mesmo antes dos problemas de saúde que o acometeram, o Lula já sustentava o direito de a sucessora valer-se do direito constitucional da reeleição. Apesar de não haver avançado uma só palavra a respeito, é a natureza das coisas que leva à conclusão das pretensões da presidente. Sua evidente popularidade e o grande número de projetos e propostas a médio prazo conduzem a essa evidência.

A pergunta que se faz vem do lado oposto: quem se animará a disputar com ela? Os tucanos encontram-se moralmente obrigados a apresentar um candidato, mesmo sabendo que será para perder. Aqui as coisas enrolam. Geraldo Alckmin aferra-se à perspectiva de continuar no palácio dos Bandeirantes, sendo claras suas possibilidades de conquistar mais um período de governo. Já disputou o palácio do Planalto em condições adversas, não cairá outra vez na armadilha. José Serra, vai ficando cada dia mais claro, permanecerá no abrigo da prefeitura paulistana, claro que se for eleito agora em outubro. Mas se não for, pior ainda.

Sobra mesmo Aécio Neves, preparado para a eleição presidencial, mas de algum tempo para cá, meio desiludido. Entrou em cone de sombra, propositadamente não assumiu o centro do palco. Mineiro, ainda mais neto de Tancredo Neves, não entra em fria. Conhecendo uma possível inclinação nacional pela reeleição de Dilma, torna-se difícil vê-lo marchar para o sacrifício. Muito mais natural seria candidatar-se ao palácio da Liberdade, até pelo impedimento do atual governador Anastásia. Aécio ganharia fácil e se posicionaria para depois. Tem idade bastante para esperar.

Nessa hora, a quem o PSDB recorreria para fazer figuração? Realistas, os tucanos são. Marconi Perilo perdeu as condições, Beto Richa tem sólida âncora assentada no Paraná. Outros governadores do partido carecem de espírito aventureiro. Nas bancadas no Congresso, nem Álvaro Dias nem Aloísio Nunes Ferreira se arriscariam.

Eis aí uma esquadrilha sem plano de vôo, infensa até mesmo a taxiar pela pista.

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TIRAR O QUE NÃO PODE DAR?

Depois de brilhante e milionário advogado em Atenas, Diógenes rompeu com as aparências, doou sua fortuna aos pobre e passou, vestido de andrajos, a morar num barril. Lá produziu suas melhores lições, tornando-se venerado pela população.

Alexandre venceu os gregos e antes de lançar-se na conquista do mundo, impressionado com a fama do filósofo, foi procurá-lo. Diógenes tomava sol, sentado à porta de sua singular residência. Postado diante dele, Alexandre ofereceu-lhe riqueza, palácios, territórios e poder. Resposta: “majestade, não me tireis aquilo que não me podeis dar…” Tratava-se da luz do sol, que o visitante obscurecia com sua sombra.

Por que se conta essa historinha? Porque a CPI do Cachoeira impede que se investigue a impunidade.

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A POSSIBILIDADE DE UM SONHO IMPOSSÍVEL

Mantendo a tradição, ontem pela manhã o Senado viveu outro de seus grandes momentos. Sexta-feira é o dia da semana em que se encontram ausentes os dirigentes da casa e os líderes do governo e da oposição. Fica o plenário quase vazio, mas à disposição dos poucos senadores que se dispõem a rasgar o véu da fantasia em que se transformaram os trabalhos rotineiros e ordinários (sem ironia). Aproveita-se as manhãs de sexta-feira para pronunciamentos que desnudam a verdadeira realidade nacional, nossas mazelas, a corrupção e a impunidade. Sempre com os mesmos que se revezam entre a presidência, a tribuna e os microfones de apartes. Quase sempre são os mesmos: Pedro Simon, Roberto Requião, Paulo Paim, Cristóvam Buarque, Álvaro Dias e mais uns poucos.

Ontem, sob a presidência de Roberto Requião, foi Pedro Simon que denunciou o Poder Judiciário, para ele feito para proteger os ricos, ao tempo em que, dos pobres, cuida a polícia. Falou da impunidade gozada especialmente pelos corruptores, que jamais são punidos, os mesmos financiadores das campanhas eleitorais, aqueles que dispõem de recursos para pagar regiamente grandes advogados, ficando à margem das punições.

Simon sugeriu ampla campanha nacional pela formação de governantes através da educação, capaz de aprimorar o processo eleitoral. Denunciou os que não querem mudar para melhorar, mas manter para usufruir. Conclamou os jovens a ocupar as instalações do Senado, na próxima terça-feira, quando a CPI do Cachoeira decidirá se levanta o sigilo fiscal e bancário de toda a empresa Delta e se convoca os governadores de Goiás, Rio de Janeiro e Distrito Federal.

O senador Roberto Requião acrescentou ter a impressão de que a CPI do Cachoeira não quer tomar conhecimento do que envolve a empreiteira e os governadores. Álvaro Dias fez votos para que os críticos da CPI venham a frustrar-se, pois acredita na consciência e na eficácia de seus integrantes. Mas denunciou que a empresa Friboi, que obteve 16 bilhões do BNDES, acaba de comprar a Delta, operação ainda contestada pelo Ministério Público, para ele algo inusitado, uma negociata a mais.

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