Tulipas e papoulas

Sebastião Nery

BERLIM – Acordei cedo para ver o sol, a primavera e a liberdade. Um sol frio de 15 graus, sem cigarras, avisa que a primavera está chegando com seus brotos verdes, suas tulipas brancas e suas papoulas vermelhas.

Há 55 anos tenho um caso de amor com esta cidade que sempre me ensinou o mal e o bem, a ditadura e a liberdade, o muro e as praças. Em 1957 estive aqui pela primeira vez e fiquei do outro lado do muro. A guerra mal tinha acabado, o mundo era dividido em dois, do lado de cá e do lado de lá da Cortina de Ferro e mal se respirava numa tensão permanente.

Ainda não havia o muro, mas um estudante convidado e hospede do governo comunista sentia e via, o dia inteiro, que a ditadura, qualquer que ela seja, é inviável e invivível. Para sair da Berlim Oriental, entristecida e sem musica, para ver a noite e ouvir o rock da Berlim Ocidental, era preciso uma autorização tão especial como para entrar na Casa Branca.

Mas as tulipas e papoulas da Friedrichstrasse não pediam licença a ninguém. Elas iluminavam as manhãs por cima da loucura dos homens.

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A LAGARTA

Em 1963 voltei aqui, deputado eleito pela Bahia e convidado já pelo outro lado da cidade, o ocidental. As tulipas e papoulas eram as mesmas. Mas a liberdade era outra. A historia provou que ela morava mais do lado ocidental do que do oriental. A RDA perdeu a história e perdeu o mundo.

A comunista RDA (Republica Democrática Alemã) não era nem república nem democrática nem alemã. Os soviéticos que mandavam no seu pedaço me negaram atravessar o muro, que como uma lagarta infame, tinha nascido na patética noite de 13 de agosto de 1961 para dividir a cidade em dois pedaços até o retumbante 9 de novembro de 1989.

Em 1973, como jornalista, insisti, negaram-me de novo o muro. Tanto insisti que autorizaram. Jamais esquecerei o olhar duro e fuzilante do jovem guarda, mais jovem do que eu, revirando para um lado e para o outro o papelucho cheio de fotos e carimbos que me autorizava a travessia, como contei em meu livro “Socialismo com Liberdade” (editora Paz e Terra), onde dei 30 anos para a lagarta morrer e acertei.

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A LIBERDADE

Jurei que só voltava para ver as tulipas e papoulas da Friedrichstrasse quando tivessem matado a lagarta infame. Mas em 1979, numa reunião da Internacional Socialista comandada pelo saudoso e heroico Willy Brandt, de repente me vi no alto da tribuna do parlamento de Berlim, dez anos antes que a liberdade matasse a lagarta.

Afinal, em 1991, Adido Cultural em Paris, a primeira viagem foi para rever Berlim sem o muro. Como mais uma vez revejo agora. O muro como diria o poeta Drummond, é apenas um retrato no muro. Toda vez que os homens apelaram para a barbárie, a historia não lhes perdoou. Ficou uma cusparada no muro e na historia.

Hoje daqui da janela do hotel Hilton, vejo, lá em baixo, centenas de jovens ao sol nos bares, cafés, restaurantes e escadarias da Catedral Alemã e da Francesa, do museu do Parlamento e do Teatro Concert Hall, todas reunidas na belíssima Gendarmenmarkt/Friedrichstrasse, que os alemães, e não só eles, consideram a mais bela praça do mundo.

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BERLIM

O homem é um animal urbano. A historia da humanidade é a historia de suas cidades, à beira de seus rios. Berlim, a terceira cidade da Europa, não seria diferente: em 1237 aparece pela primeira vez como um povoado de comerciantes na beirada do rio Spree. Chamaram-na de Berlim pela mistura das palavras eslavas BAR (bosque) e ROLINA (roça).

Até hoje com mais de 60% de bosques, Berlim desde a segunda metade do século XIX foi escolhida como residência da dinastia dos Hohenzollern até a queda da monarquia em 1918. E as guerras ameaçaram destrui-la: a de 1914-1918 quase com a metade e os brutais bombardeios de 1939 a 1945 arrasaram-na em mais de 70%.

Mesmo assim, desfeita em escombros como a vi em 1957 e apesar dos 30 anos do muro, ela ressurgiu das cinzas, levantou suas centenas de monumentos, museus, edifícios históricos, e é hoje uma das cidades maiores e mais lindas da Europa. Aqui o homem mostra o que é o homem.

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