TV por assinatura e economia de mercado à brasileira

Percival Puggina

Outro dia, querendo confrontar-me, um interlocutor exclamou: “Ah, já vi que o senhor defende o Estado mínimo!”. Retruquei: “Não sei de que você está falando. Eu só conheço Estado grande, enorme, mastodôntico. E, cá entre nós, ele não precisa que você o defenda porque faz isso muito bem com sua força, leis, regulações, monopólios e mais uma lista inesgotável de meios através dos quais intervém na nossa liberdade e toma nosso dinheiro. Não se aborreça comigo por tentar defendê-lo desse Estado espremedor”.

Diferentemente do que possa estar supondo o leitor destas linhas, não me conto entre os que esperam do mercado todas as soluções e as soluções para tudo. Não, não é isso que penso. Há tarefas que são típicas de Estado e a definição sobre quais sejam é polêmica.

NA CONTRAMÃO

Independentemente desse debate necessário, tenho como certo que nós, brasileiros, somos tolerantes com o fato de que o Estado vai à contramão da modernidade, ampliando suas atribuições, seu poder e seus custos. Ele, que deveria estar se retraindo a meia dúzia de funções, se expande sem cessar. Para isso, nos trata como se fôssemos limões a espremer e descartar. Não satisfeito, quando os limões acabam,  passa a espremer a safra futura, e a outra, e a outra, garantindo que os limões do porvir já cheguem devidamente amassados.

Tal compreensão da realidade não implica considerar o livre mercado como símbolo da perfeição. Não, o mercado não é perfeito. Frequentemente surgem nele distorções cuja correção, pelo próprio mercado, demanda tempo. Mas afirmo, sem qualquer dúvida, que intromissões reguladoras do Estado sobre o mercado nunca são mais eficientes do que as decisões dos consumidores.

SEM NEGOCIAÇÃO

Por exemplo: 90% do serviço de TV por assinatura, no Brasil, está em mãos de duas empresas e ambas adotam, além de preços excessivamente elevados, a respeito dos quais é impossível negociar (o que convenhamos, é uma prática antimercadológica, pois não há motivo pelo qual eu possa negociar na loja o preço de um sofá e não possa negociar o preço dos programas de TV que irei assistir sentado nele). Recentemente, não tendo interesse no “pacote HBO” da NET, solicitei cancelamento. Enquanto conversava com o atendente, tentei compor um menú contendo apenas aquilo que eu realmente gostaria de ter à disposição. Impossível. No cardápio do restaurante da TV por assinatura o consumidor não pode dar palpite.

Não é permitido, sequer, trocar arroz à grega por batata suíça. A consequência é que todos, sem exceção, pagamos pelos serviços de TV por assinatura muito mais do que consumimos. Pagamos pelo muito que não vemos e o preço final resulta extorsivo.

ALTERNATIVA

Felizmente, a tecnologia que associa TV à internet proporcionou o surgimento da Netflix, serviço no qual, por menos de 20 reais/mês, se dispõe de vasto elenco de filmes e séries à livre escolha do cliente. Viva! O mercado está encontrando uma saída para os abusos das gigantes do setor, que passa a lutar contra esse inesperado intruso em mesa onde davam as cartas e jogavam de mão. A quem apelam, para conservar seus anéis nos dedos? Apelam ao Estado, meu amigo! Querem a ajuda do Estado para coibir a Netflix, forçando-a, por via tributária, a elevar seus custos e preços. Alguém tem dúvidas sobre o que fará a respeito o Estado máximo?

9 thoughts on “TV por assinatura e economia de mercado à brasileira

  1. Como tenho a experiência de morar em outro país, vejo a grande diferença. O Estado, para servir ao povo, não pode terceirizar transporte, saúde, educação e segurança. Seja federal, estadual ou municipal. São serviços essenciais. De resto, num país como o Brasil, cada órgão controlador, significa mais corrupção!

    • No caso descrito as empresas neoliberais espernearam e foram pedir ajuda ao mastodonte estadosociocapitalista que, em troca de alguns trocados, vai baixar uma lei beneficiando estas empresas neoliberais e onerando mais um pouquinho os escravos.
      Tudo dentro da mais perfeita ordem mafiosa, item que os russos são mestres, superando os antigos corleones italianos. Aprenderam com o regime exemplo do comunismo durante décadas do ditador stalin. Seguido até hoje em terras brazuquinhas por alguns australopithecus políticos.

      • A briga da TV paga com o NETFLIX é a mesma briga dos taxistas contra o UBER, onde os cartorários de um serviço ineficiente querem a ajuda do estado para barrar um serviço mais moderno e eficiente, em vez de conviverem com a concorrência que os forçaria a melhorar o serviço. E o estado, até agora, os está ajudando.
        Quando foi implantada a banda larga no Brasil, o estado também tentou reservar mercado para os “provedores de conteúdo”, forçando os usuários, que já pagavam pela banda larga, a pagar estes provedores para autenticarem sua conexão. Outra idiotice.

  2. As assinaturas de pay-per-view também deveriam ser feitas por clube e não por campeonatos, caso fosse de interesse do assinante adquirir apenas o direito de assistir a todos os jogos do seu clube no Campeonato Regional e no Campeonato Brasileiro, ao contrário do que acontece, atualmente. Esta assinatura poderia ser vendida por R$ 15,00 ou R$20,00. Garanto que a venda seria maior.

  3. A verdade é que a iniciativa privada não tem compromisso com o social, seu
    compromisso é o lucro. As decisões dos consumidores contra as decisões do
    mercado é uma luta desigual, é luta do pescoço contra a força. Se Getúlio Vargas
    não fizesse As industria de base: CSN, Petrobrás, Eletrobrás etc, qual qual iniciativa
    privada o faria? Empresas estratégicas e de utilidade pública, devem estar nas mãos
    do governo, desde que não seja um governo corrupto. Só para argumentar: quando os trens da Central do
    Brasil pertencia ao governo, a passagem era 1/3 da passagem dos ônibus, hoje nas mão da iniciativa privada é mais cara que as passagens de ônibus. Trem é transporte de massa, pode-se considerar de utilidade pública. No governo do João Goulart, os atacadistas, na época na Rua do Acre estavam segurando
    algumas mercadorias, principalmente o arroz para forçar a alta dos preços, então o governo mandou prender esses atacadistas, que logo depois do golpe foram libertados pelo Carlos Lacerda com grande festividade. Quanto a televisão de canal fechado é um verdadeiro roubo para um péssimo serviço: os filmes
    são repetidos durante meses, uma quantidade enorme de enlatados americanos e quem quiser ver futebol tem que pagar a parte, espremem o consumidor de toda forma. O Brasil, hoje é um país do poder econômico e financeiro. A iniciativa privada tem um vasto mercado, então as empresas estratégicas e de utilidade pública devem ficar nas mãos do governo. Se o governo é corrupto, aí é outra história.

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