Última crônica de Ferreira Gullar questiona o comunismo e o capitalismo

Imagem relacionadaFerreira Gullar
Folha

Frequentemente me pergunto por que certas pessoas indiscutivelmente inteligentes insistem em manter atitudes políticas indefensáveis, já que, na realidade, não existem mais. Estou evidentemente me referindo aos que adotaram a ideologia marxista, que, de uma maneira ou de outra, militaram em partidos de esquerda, fosse no Partido Comunista, fosse em organizações surgidas por inspiração da Revolução Cubana.

Não tenho dúvida alguma em afirmar que Karl Marx foi uma personalidade excepcional, tanto por sua inteligência como por sua generosidade, pois dedicou a sua vida à luta por um mundo menos injusto.

Graças a homens como ele, as relações de capital e trabalho –que, na época, eram simplesmente selvagens– mudaram, alcançado as conquistas que as caracterizam hoje. Marx contribuiu para mudar a sociedade humana, muito embora o seu sonho da sociedade proletária se tenha frustrado.

Nisso ele errou, e nós, que acreditávamos em suas ideias, erramos com ele. Isso não significa, porém, que o sonho da sociedade igualitária tenha que ser sepultado. Continua vivo e o que importa é encontrar outros meios de torná-lo realidade. Já alguns países têm avançado nessa direção.

DOGMAS ERRADOS – Mas, para que esse avanço prossiga é necessário reconhecer que o sonho marxista estava errado, ainda que bem-intencionado. Se insistirmos nos dogmas ditos revolucionários – como a luta de classes e a demonização da iniciativa privada –, não sairemos do impasse que inviabilizou o regime comunista onde ele se implantou.

Há que reconhecer que, se sem o trabalhador não se produz riqueza, sem o empreendedor também não. Entregar o destino da economia a meia dúzia de burocratas foi um dos equívocos que levaram ao fracasso os regimes comunistas onde ele se implantou.

Tampouco pode-se negar que o regime capitalista se move essencialmente pela exploração do trabalho e pela acumulação do lucro. A ambição desvairada pelo lucro é o mal do capitalismo que deve ser extirpado. E, creio eu, isso talvez possa ser feito sem violência, uma vez que, de fato, ninguém necessita de acumular fortunas fantásticas para ser feliz.

PESSOAS DESIGUAIS – A sociedade também não necessita ser irretorquivelmente igualitária, mesmo porque as pessoas não são iguais. Um perna de pau não deve ganhar o mesmo que o Neymar, nem o Bill Gates o mesmo que ganha um chofer de táxi.

E, por falar nisso, para que alguém necessita ter a sua disposição milhões e milhões de dólares? Para jantar à tripa forra? Se ele investir esse dinheiro numa empresa, criando bem e dando emprego às pessoas, tudo bem. Mas ninguém necessita ter dez automóveis de luxo, vinte casas de campo nem dezenas de amantes.

Tais fortunas devem ser divididas com outras classes sociais, investidas na formação cultural e profissional das pessoas menos favorecidas, usadas para subvencionar hospitais e instituições para atender pessoas idosas e carentes.

SEM PRECONCEITOS – Sucede que só avançaremos nessa direção se pusermos de lado os preconceitos esquerdistas e direitistas, que fomentam o ódio entre as pessoas.

Sabem por que Bill Gates deixou a presidência de sua empresa capitalista para dirigir a entidade beneficente que criou? Porque isso o faz mais feliz, dá sentido à sua vida.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Sob o título “Para que alguém necessita ter a sua disposição milhões de dólares?”, o último texto de Ferreira Gullar, que ultimamente passou a ser considerado de direita pelos petistas, é um primor de bom senso e amadurecimento político. Coloca as coisas em seus devidos lugares, mostra que o equilíbrio está no meio. É justamente a tese que defendo. Sou comunista, mas não me interesso mais por ideologias. Gostaria apenas que os governantes fizessem as coisas certas e os milionários lembrassem que a vida passa rápido, logo todos iremos morrer e seria muito mais interessante se deixássemos aqui um mundo melhor, sem o consumismo vigente que está destruindo a natureza. E tudo isso para quê? Como responderia Miguel de Cervantes, há 500 anos: “Para nada”. E lá na outra esfera, Gullar vai ser servido por Lacerda, o garçom que nos atendia no Bar Calipso, era sósia do ex-governador e bebia mais do que gente. (C.N.)

14 thoughts on “Última crônica de Ferreira Gullar questiona o comunismo e o capitalismo

  1. É por aí o novo caminho. Urge quebrarmos o queixo, o ímpeto e cabrestearmos a lucratividade psicopata, louca por lucros fabulosos, à moda investimento mínimo pela lucratividade máxima, tudo para si e o resto que se dane. É essa desgraça que encontra no partidarismo-eleitoral e no golpismo-ditatorial, velhacos, aliados diabólicos, que estão infelicitando o brasil e o mundo. Vamos que vamos.

  2. Ferreira Gullar: Dia 31 de Março de 1964 o almirante Aragão comandante do Corpo de Fuzileiros, mandou uma escolta para proteger a UNE na praia do Flamengo. Tinha uma escolta na Faculdade do Largo do São Francisco. Eu estava na praça da Bandeira ás 15h esperando condução mandada pelo CFN com um gráfico de nome Netuno. Nenhum sindicalista apareceu. Chega a caminhonete e fomos com três fuzileiros a paisana para o Largo de São Francisco. Não tinha quase ninguém na rua. A greve geral desestabilizou tudo. Ao chegarmos o Alcântara me apresentou a dois garotos que registravam os voluntários que chegavam, dizendo-lhes que eu seria o responsável pela organização. Dentro de pouco tempo Alcântara vem dizer-me que fora mudado o oficial de dia no CFN e que recebera ordem para regressar. Eu disse que não regressaria os três fuzileiros que estavam comigo também disseram que não iam regressar. Como defender a faculdade? Onde estavam às armas? Nesse momento um estudante vem dizer que o deputado Bocaiuva Cunha telefonara dizendo fechar a faculdade e que fossemos para UNE pois o Presidente Goulart renunciara. Sai um garoto e uma garota com a única arma que tinham: Uma metralhadora Hoticks ponto 30. Fomos para UNE(não todos) ao dobrarmos o Hotel Glória vimos o fumaceiro: A UNE tinha sido incendiada. Quem eu vi quando chegamos do outro lado da rua que era estreita (a aterro ainda não estava terminado)? Ferreira Gullar. Lembro de sua aflição. Nada podíamos fazer. Chuviscava, e antes de sermos identificados por alguém saímos em direção a Cinelândia. Uma coisa é verdade: Não foi o Exército que incendiou a UNE. Foi a polícia do governo Lacerda. Quando a UNE foi incendiada os fuzileiros já tinham regressado. Em 1968 vi pela TV Gullar ser preso na esquina da Treze de Maio com Almirante Barroso pelo famigerado capitão Guimarães depois expulso do Exército, tornando-se o Chefão do Jogo dos Bichos. Gullar foi uma personalidade exemplar.

  3. A última crônica de Ferreira Gullar saiu muito romântica. Desde o império romano, para dizer o mínimo, o poder e os poderosos nunca se conduziram pelo esclarecimento. Achar que isso cairá do céu nas cabeças deles é muito romantismo. Nunca foi assim e não será jamais, infelizmente. A verdade é, como dizia o outro, que a violência é a parteira da história. O que civilizou a Europa foi a segunda guerra. Nos EUA, nos anos 1960, mesmo havendo lei promovendo a igualdade racial, os negros tiveram que ir ao confronto para que essas leis fossem respeitadas. Na cabeça de uma pessoa sensata é difícil “entrar” que uns poucos filhos da puta queiram tudo pra si em detrimento dos demais, mas é de se contatar que tem sido assim há séculos. Hoje a Europa começa a regredir socialmente, o “bafo” da segunda guerra vai ficando distante e o humanismo então advindo vai ficando pra trás. E o Trump vem aí, já cutucando a China antes de tomar posse. A parteira da história mostra que vem aí…

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    A longa homenagem a jogadores, comissão técnica e dirigentes da Chapecoense contou com uma série de discursos, inclusive um pronunciamento em português do suíço Gianni Infantino, presidente da Fifa. No entanto, Temer não constou na lista de autoridades que se dirigiram ao público presente ao velório.

    No momento em que Temer foi anunciado, o público reagiu de forma quase indiferente, sem manifestações de qualquer natureza – ao contrário do entusiasmo oferecido ao técnico Tite e aos visitantes da Colômbia.

    O presidente da República acompanhou o protocolo de pé, sempre acompanhado do embaixador da Colômbia no país, Alejandro Borda. No fim do cronograma de discursos e homenagens, Temer deixou o estádio bem no momento em que o público cantava com entusiasmo um dos gritos de incentivo do time: “Vamo, Vamo, Chape”.

    O chefe da nação abandonou o gramado quase despercebido, cercado por seguranças e distribuindo acenos discretos.

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  5. Meu caro amigo Carlos Vicente,

    Inicialmente foi noticiado que Temer iria a Chapecó e não sairia do aeroporto, apenas recepcionando a chegada dos mortos trazidos pelos dois aviões da FAB, e depois retornaria para Brasília.

    No entanto, mesmo com a possibilidade de ser vaiado ou não ser bem recebido – o povo mostrou-se superior a tais temores -, o presidente se deslocou até o estádio, cumprindo com a sua obrigação naquele momento de comoção regional e nacional.

    Palmas, portanto, a Temer, que não se intimidou.

    Muito diferente dos seus dois antecessores, os bandidos Lula e Dilma, petistas, que preferiram derramar as suas lágrimas de indivíduos indecentes e desonrados sobre o caixão do déspota Fidel Castro, certamente muito mais importante que prantear os brasileiros, vítimas de uma tragédia injustificável.

    Um abraço, meu amigo.
    Saúde e Paz!

  6. Emocionante a última crônica do poeta Ferreira Gullar. Como ele, creio que a sociedade igualitária é uma meta inatingível, pois por natureza somos desiguais. No entanto, o que importa é a caminhada em direção a um mundo menos desigual. Nesse ir e vir em busca de uma menor exploração do homem pelo homem, que gera grandes fortunas em contradição com a miséria absoluta, crescendo assustadoramente nas grandes cidades.

    Podemos engrandecer o livre mercado, a globalização, o regime capitalista selvagem, enquanto nossos irmãos passam fome e dormem nas marquises das grandes cidades, sendo acordados com baldes de água gelada? Alguns já foram queimados sem chance de defesa.

    Na outra ponta, os regimes comunistas. também não responderam aos anseios das sociedades, como na Rússia, em Cuba e na China. A antiga URSS (União das Republicas Socialistas Soviéticas) ruiu em meia a Perestróica e a Glasnot envolta em corrupção e a ditadura feroz do Partido Comunista cujos integrantes viviam nababescamente em fazendas e mansões em contraste com a pobreza do cidadão comum.

    Tanto no capitalismo como no comunismo, os líderes acumularam fortunas em paraísos fiscais. Para que tanto dinheiro, os quais não conseguiriam gastar mesmo se dez vidas tivessem? Como fazia o cavaleiro de Granada, que alta madrugada brandindo sua espada, rumava em louca disparada. Para quê? Para nada.

    Por que tanta briga, tanto roubo, tanta arrogância, tantas fazendas, tantas cabeças de gado, tantas viagens à Paris ou Miami, tantas jovens amantes, se no final iremos todos morrer na praia?

    Ninguém pode ser feliz, com desemprego em massa e crianças sem as necessidades básicas. Precisamos de um sonho calcado num futuro melhor, até para podermos lutar para alcança-lo. Mas, os jovens não estão tendo esse direito.

    O poeta está com a razão, entretanto, perdemos sua reflexão. É preciso se reinventar para preencher essa lacuna.

  7. copiado de http://www.ceticismopolitico.com/ultimo-texto-de-ferreira-gullar-e-uma-manifestacao-de-fe-cega-na-crenca-que-precisa-ser-refutada/

    Último texto de Ferreira Gullar é uma manifestação de fé cega na crença que precisa ser refutada

    5 de dezembro de 2016

    Último texto de Ferreira Gullar é uma manifestação de fé cega na crença que precisa ser refutada

    Sem querer tirar outros méritos de Ferreira Gullar, que foi de fato um grande poeta e escritor – entre outras coisas -, ao menos em seu último artigo sobre política ele vacilou. Aqui, colocarei os principais trechos de seu artigo e minha posterior análise para comparação.

    “Frequentemente me pergunto por que certas pessoas indiscutivelmente inteligentes insistem em manter atitudes políticas indefensáveis, já que, na realidade, não existem mais. Estou evidentemente me referindo aos que adotaram a ideologia marxista…”

    Sim, são políticas indefensáveis moralmente, mas são eficientes para quem quer poder.

    “Não tenho dúvida alguma em afirmar que Karl Marx foi uma personalidade excepcional, tanto por sua inteligência como por sua generosidade, pois dedicou a sua vida à luta por um mundo menos injusto.

    Graças a homens como ele, as relações de capital e trabalho –que, na época, eram simplesmente selvagens– mudaram, alcançado as conquistas que as caracterizam hoje. Marx contribuiu para mudar a sociedade humana, muito embora o seu sonho da sociedade proletária se tenha frustrado.”

    Obviamente, Gullar acreditava que Marx era um homem bem intencionado. No entanto, ele não dedicou sua vida a ajudar ninguém. Muito pelo contrário. Marx abandonou filhos. Alguns deles morreram até de fome, enquanto ele próprio foi sustentado por uma esposa e um amigo que eram muito ricos. Marx viveu como nobre enquanto sua própria prole viveu nas piores condições possíveis.

    Outra loucura é dizer que foi Marx quem ajudou a melhorar as relações trabalhistas. Muito pelo contrário, aliás. O que tornou tudo isso muito mais humano foi o próprio advento do capitalismo. Antes de as fábricas nas grandes cidades serem um “problema trabalhista”, crianças e idosos trabalhavam no campo em condições sub humanas.

    “Mas, para que esse avanço prossiga é necessário reconhecer que o sonho marxista estava errado, ainda que bem-intencionado. Se insistirmos nos dogmas ditos revolucionários – como a luta de classes e a demonização da iniciativa privada –, não sairemos do impasse que inviabilizou o regime comunista onde ele se implantou.”

    Aqui fica em evidência a fé cega na crença. Gullar crê absolutamente que os marxistas são pessoas bem intencionadas e que eles acreditam mesmo no que dizem ser o melhor para o mundo. O próprio Gullar viveu tempo suficiente para ver que não é bem assim, na prática. O que acontece em boa parte das vezes é o exato oposto. Temos pessoas espertas, cientes de que a experiência socialista soviética foi cruel e nefasta, e que ainda assim defendem a mesma coisa.

    O que ocorreu com todos – absolutamente todos – os revolucionários que chegaram ao poder? Eles se tornaram ditadores, começaram a agir de forma cruel, castigaram o povo, praticaram crimes desumanos e mataram milhares, muitas vezes milhões de pessoas. Não há sequer uma só exceção para esta regra. Em meados da década passada muitos acreditaram que a Venezuela seria diferente, mas não foi. Hugo Chávez, discípulo de gente como Marx, fez exatamente o mesmo que Stalin, Hitler, Pol Pot, etc. Sim, em proporções menores, mas de modo igualmente execrável.

    O fato é que Gullar era um homem culto e inteligente, mas evidentemente inocente quanto a política. Ele acreditava piamente na ideia de que a extrema-esquerda realmente acha estar fazendo o bem, mesmo que todas as evidências apontem o oposto. Isso é a fé cega na crença: é acreditar que o seu inimigo, aquele mesmo que te decapitaria se tivesse chance, é apenas alguém “errado”, alguém que acredita estar fazendo bem ao mundo.

    Que bem trouxeram ao mundo as milhões de mortes de Holodomor?

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