Um artigo para Hélio Fernandes, pai de Rodolfo

Pedro do Coutto

Pensei primeiro na palavra certa, mas a substitui por artigo. Afinal de contas, artigo é mais jornalístico do que carta e Hélio Fernandes sempre viveu no jornalismo, da mesma forma que seu filho Rodolfo, que viajou cedo demais para o sempre  depois de brilhante carreira que o levou à direção de O Globo. E a uma absoluta consagração no momento de sua morte. Cartas há muitas na história brasileira e universal. Em nosso país, as do presidente Artur Bernardes aos generais, publicadas pelo Correio da Manhã e que detonaram uma crise militar.A carta Brandi, falsa, publicada por Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa, na véspera das eleições de 55. A de Juraci Magalhães a Paulo Bitencourt, desafiando-o para um duelo de sangue no Uruguai, pois no Brasil a lei não permitia há 50 anos e não permite hoje. Há as cartas chilenas dos inconfidentes mineiros. A carta de João Passos ao jornalista João Dantas (não o que foi proprietário do Diário de Notícias), mas ao que residia em Recife. Todas elas, entretanto, da mesma forma que tantas outras, só ganharam repercussão e dimensão pública porque saíram em jornais. As cartas são emocionantes como as despedidas.

Escrevo este artigo e o endereço a Hélio Fernandes porque senti de perto sua emoção, domingo, no velório de Rodolfo também Fernandes. Dolorosa despedida. Um pai ou mãe levar seu filho a um velório, tenho certeza, é a dor mais forte que alguém possa suportar. Principalmente porque inverte a ordem natural e lógica das coisas. Os filhos ou filhas é que têm a missão de sepultar ou levar os pais ao túmulo ou a cremação. Não o contrário.

Tenho a impressão que nesse momento a sensação proustiana do passado passou por sua mente como uma refilmagem ou uma nova edição do que já aconteceu. E a ideia do absurdo. Um pai quando estiver morrendo, que Deus conserve sua lucidez, e tenha ao lado a mulher, seus filhos. Terá então chegada a hora da passagem para o mistério e a indagação.Vem à mente, por certo, o dia do nascimento do filho com a emoção que leva às lágrimas, os primeiros passos, as primeiras palavras, o sorriso nos olhos da criança que nos são compensadores de tudo. Nesse momento está começando uma nova etapa de nossa vida, de nossa aventura humana. Tem início o processo de transcendência que nos leva a crer que, de alguma forma, viveremos através de nossa própria geração. Não importa que os descendentes lembrem-se muito ou pouco de nós. Temos a certeza que, de uma forma ou outra, nossos nomes virão à cena. Seja, quais forem as palavras e os pensamentos.

Com Hélio Fernandes, infelizmente, aconteceu o contrário. A eterna lembrança de seu filho Rodolfo fica com ele que a levará para sempre como um dos momentos mais dramáticos, e também mais belos, de sua vida. Uma vida intensa marcada por combates sem fim, por prisões, confinamentos, brutal censura a seu jornal, processos dos quais sempre emergiu. E tanto assim que para ele a luta continua. Estou certo disso. Milhares de pessoas esperam por suas palavras. Seus duelos. Eu disse um dos momentos mais belos de sua vida. Sim. De poesia trágica que eternizou a arte de Shakespeare. Da poesia terrível que marcou as tragédias gregas.

Hélio Fernandes, como se a dor imensa para ele fosse um destino, viveu tal momento domingo. Mas tenho certeza de que saberá responder ao golpe da fatalidade como sempre respondeu aos desafios em seu caminho. Era isso que eu queria dizer ao amigo, jornalista acima de tudo. No velório não poderia fazê-lo em sua dor. Escolhi o caminho das teclas e do texto. Creio ter sido o melhor para que eu chegasse ao contexto e dissesse a ele: no sofrimento nos fica a esperança de que, um dia, nos reencontraremos todos, como no filme de Bergman, num tempo marcado apenas por um relógio sem ponteiros.

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