Um barítono desafinado

Sebastião Nery

Murilo Badaró estava saindo da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas, em 1955, quando entrei (1954). Era de longe a melhor voz da Escola e de toda a Universidade. Arranjou um pseudônimo de barítono e fazia sucesso cantando óperas. Nos bailes do DCE (Diretório Central dos Estudantes) não sobrava para ninguém.

Afinadíssimo. Mas veio o golpe de 1964 e os militares acharam que ele desafinou. Deputado estadual pelo PSD, foi à tribuna no dia 10 de junho de 1964 protestar contra o ato mesquinho, covarde e traiçoeiro do general Castelo Branco, que negociou com Juscelino o apoio do PSD para o Congresso referendar sua nomeação para a Presidência da República e dias depois, em 8 de junho, cassou mandato e direitos políticos do senador JK.

Em 1966, Murilo elegeu-se deputado federal. Veio o AI-5 de dezembro de 68 e os militares acharam que era hora de acertar as contas com o afinado barítono e o desafinado juscelinista. O ditador de plantão Costa e Silva reuniu o Conselho de Segurança Nacional para cassar dezenas de senadores, deputados e até três ministros do Supremo Tribunal Federal, ainda não cassados pelos Atos Institucionais anteriores.

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PEDRO ALEIXO

Murilo Badaró estava na lista. Mas o vice-presidente de Costa e Silva era (ainda) o mineiro Pedro Aleixo. Quando apareceu o nome de Murilo na lista para ser degolado por causa do discurso de quatro anos atrás, protestando contra a cassação de Juscelino, Pedro Aleixo o defendeu calorosamente, convenceu Costa e Silva e impediu sua cassação.

O senador gaúcho e ministro da Educação Tarso Dutra, participante da reunião, contou a Murilo, que foi visitar Pedro Aleixo:

– Professor, vim agradecer-lhe a generosa defesa que o senhor fez de mim na reunião do Conselho de Segurança e impediu minha cassação.

– Meu filho, o que é isso? Você não sabe de nada. A reunião foi secreta. Logo, não existiu. Como você agradece uma coisa que não houve?

Meses depois, o Conselho de Segurança Nacional, convocado pela Junta Militar (os “três patetas”), cassou a vice-presidência de Pedro Aleixo.
Pedro Aleixo aprendeu que, na ditadura, reunião secreta também existe.

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ACADEMIA

Quando a Academia Mineira de Letras fez 100 anos, seu presidente era ex-barítono, ex-deputado, ex-ministro, ex-senador, ex-prefeito de Minas Novas e primoroso escritor Murilo Badaró.

Fundada em Juiz de Fora, a Academia fez lá uma sessão solene pelo centenário. Murilo foi de carro com o jornalista e poeta Petrônio Gonçalves. Como bons mineiros, chegaram antes, muito cedo. Juiz de Fora mal amanhecia. Para lerem os jornais, os dois sentaram-se na praça em frente à Câmara Municipal, onde logo mais começariam as comemorações.3

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PADRE

Dois mendigos acordavam na praça e começaram a discutir. Um deles foi até o banco onde Murilo estava com o Petrônio:

– Doutor, o senhor é advogado ou é juiz?

– Sou padre. Esse aqui é meu sacristão.

– Uai, então me dê uma bênção, seu padre.

Murilo o abençoou:

– Vai em paz. Que Deus te acompanhe.

O mendigo voltou para onde estava seu companheiro:

– Hoje estou com sorte; fui abençoado pelo padre Murilo Badaró.

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AECIO

Aécio Neves é assim também. Quando a pesquisa é aqui dentro de Minas, ele é absoluto. No “Datafolha” sobre a aprovação dos governadores dos dez maiores estados dentro de seus estados, ele era o primeiro, imbatível, com nota 7,6%.

O segundo era Eduardo Campos, de Pernambuco, com 7,0. O terceiro é Cid Gomes, do Ceará, com 6,9. Ambos foram reeleitos, é claro, e Aecio fez o seus sucessor, Antonio Anastasia.

Mas, quando Aécio sai de Minas, atola. Parece carro de boi na lama, não anda. Nem virando padre adiantaria.

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