Um brasileiro em Paris

Sebastião Nery

PARIS – Um pernambucano de Paris é Patrimônio da Humanidade. Se eu fosse presidente do Brasil, Cícero Dias teria a Ordem do Cruzeiro do Sul. Presidente da França, teria a Legião de Honra. Presidente da Europa, a maior condecoração européia. Ele foi o maior dos euro-franco-brasileiros.

Era um nome gravado nos muros antigos da infância, feito de mito e emoção. Foi ele quem, em plena 2ª. Guerra, quando Hitler devastava a Europa e humilhava a França, pôs nos muros de Paris e na BBC de Londres o poema eterno de Paul Eluard (‘Liberdade, liberdade, te amo escrita nos meus cadernos de escola, nas paredes, nas areias e na neve’).

Preso na Alemanha com Guimarães Rosa, Cícero Dias pagou o preço da resistência à invasão nazista na França e na Europa.Era Brasil em Paris

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CICERO DIAS

“Quem não gosta do Brasil não me interessa”, dizia Gilberto Amado. Entre tantas graças que a vida me deu, uma foi conhecer e ficar amigo de Cícero Dias e afinal descobrir porque tantos, tão ternamente falavam sempre dele. Cícero não era uma pessoa. Era um pedaço de nação.

Foi a melhor coisa (ele e sua doce francesa, madame Raymonde)  que encontrei aqui em Paris, na minha primeira visita nos dois venturosos anos de Adido Cultural. Imagine o que é você sair de Jaguaquara, entrar na casa de um homem vestido de glória, e ele ir a estante e pegar um velho livro seu, lido, anotado, guardado. Foi assim que Cícero Dias me recebeu.

Pernambucano, nasceu em 1907. Em 1925, já estava no Rio, desenhista e pintor de gênio. Ligou-se aos grupos de vanguarda. Em 1927, fez sua primeira exposição, aos 19 anos. Em 30 recebeu o prêmio Graça Aranha. Em 35 participava das lutas políticas contra o fascismo. Em 1937 com o golpe de Getúlio, deixou o país e veio viver para sempre em Paris.

Oitenta e cinco anos, lúcido e lampeiro, ágil e vibrante, continuava desenhando, pintando, trabalhando, criando. Quase diariamente passava na embaixada do Brasil para conversar, ver nossos jornais. Ia a pé a dois quilômetros de seu apartamento. Sempre que podia, voltava com ele ouvindo as magníficas histórias de seu vasto mundo.

Aquele homem vivido e famoso, querido e glorioso, quase diariamente ia a embaixada ou a UNESCO pegar a sinopse dos jornais, para não esperar o dia seguinte quando a bendita Varig trazia os jornais.

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UMA CARTA    

O Brasil de Cícero Dias não era uma mancha no mapa nem uma voz ao telefone. Era uma paixão correndo no sangue. Morreu em 2003, aos 96.

Paris hoje não tem mais Cícero Dias. Mas guardo na parede esta carta de 1993: – “Meu querido Sebastião, não respondi logo a sua carta e os generosos termos de seu ultimo artigo, porque estava ausente de Paris. No tempo em que seu excelente e generoso artigo aquecia a minha alma, o termômetro marcava menos 10. Dentro bem quente, por fora frio danado. Eu andava pelo Mar Mediterrâneo. Espero a exposição de Matisse. Este monstro, barrigudo como uma pipa, é um dos legítimos responsáveis da pintura moderna. Bastante idoso, grimpava seis andares aquiem Paris. Grande Matisse. Um abraço de seu velho amigo, Cícero Dias”

Em1993 a ‘Galerie Debret’ da nossa embaixada promoveu  uma retrospectiva, sempre com novos trabalhos e grande sucesso, de Cícero.

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COSAC NAIF

Ainda bem que ele acaba de receber uma preciosa e irrepreensível homenagem da consagrada editora Cosac Naif, com notas e posfácio de Augusto Massi e Mário Helio Gomes: afinal a edição póstuma e primorosa de sua autobiografia: “Eu Vi O Mundo”, completada pelo carinhoso texto  de Raymond Dias, “Nós Vimos O Mundo”.

Editado com rigor e bom gosto, ilustrado com preciosas fotografias, é a homenagem que Cícero merecia do Brasil. Um documento histórico:

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GUIMARÃES ROSA

1- “Em agosto de 41, Cícero foi mandado para Baden-Baden, com um grupo de sul-amercianos trocados por prisioneiros alemães, que se encontravam na América do Sul. Uma situação penosa. Com ele se achava o grande escritor Guimarães Rosa, que na época redigia o livro Sagarana”.

2- “Oswaldo Aranha assinou, em 1938, uma circular anulando a proibição de se conceder vistos aos judeus, permitindo a entrada no país daqueles que fugiram do nazismo.A nova postura do ministro foi repudiada pelo corpo consular na Europa,liderado por Ciro de Freitas Vale, embaixador na Alemanha, mesmo tendo autorização oficial para conceder 2000 vistos.A atuação do embaixador Souza Dantas em Paris foi fundamental, seguido apenas pelo cônsul de Hamburgo, o escritor Guimarães Rosa. Concederam vistos salvando a vida de centenas de judeus”.

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