Um buraco no Gênesis

Mariana Rodrigues

Ela é uma menina africana. Eu diria que tem entre 12 ou 14 anos pelo tamanho dos seios. Ela olha diretamente para a câmera fotográfica, sem medo, sem pose. Talvez esteja acostumada a ser fotografada. Talvez seja todo o conhecimento do fotógrafo de tratar com seres, com os humanos, com os animais; com a Terra.

A menina está ali, e seu olhar é fixo no meu. Olhar forte mas não desafiador. Não sorri nem faz cara feia. Apenas olha. Sua testa é grande, pois parte dos seus cabelos foram raspados até o seu meio. Nas orelhas, grandes alargadores. Um simples colar ao pescoço, mas os braços exibem várias pulseiras de metal, e algumas sobem para o antebraço. Essas pulseiras mostram sua alta posição na pequena sociedade Mursi, no Omo River Valley, sul da Etiópia, África.

A menina está vestida com um tecido cujas pontas são amarradas sobre o ombro esquerdo. Um exemplo magnífico da simplicidade do vestir para a proteção do corpo. Seria só isso se o tecido não me capturasse a atenção: ele alterna faixas de listras com partes lisas. As listras são visivelmente pintadas, pois suavemente afastam-se da linha reta, como é normal numa pintura à mão, para depois retornarem ao seu caminho original. Nas laterais do tecido que descem do nó sobre o ombro, pequenos bordados de contas bordeiam e finalizam o traje.

SEBASTIÃO SALGADO

O título deste texto já pode indicar que estou escrevendo sobre a exposição do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que vem percorrendo com sucesso os quatro cantos do mundo. Uma exibição especialíssima foi feita no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde as enormes fotografias em preto e branco contrastavam com o intenso verde das cercanias. Embora o trabalho de Salgado tenha outras imagens de maior impacto, a menina Mursi se mostrou especial para mim. E explico o porquê:

Essa menina, jovem e compenetrada, vestida com trajes que simbolizam seu estatus, apresenta bem no meio da sua túnica um buraco, cuidadosamente, embora visivelmente, cerzido. E daí? A túnica não perdeu seu valor simbólico ou funcional por causa desse pequeno incidente. Ela é a mesma de sempre que, ou a acompanha há muito tempo, ou é presente de um parente por ocasião de algum rito de passage. A sua puberdade, talvez?

Esse pequeno buraco, cerzido, me trouxe de volta ao Ocidente, às filas nas lojas de departamento para a aquisição de alguma peça de uma coleção cápsula de algum designer famoso. Recordou-me o último filme de Sophia Coppola, “Bling Ring”, e o relato da gang de jovens wannabes que roubavam roupas, sapatos, joias de celebridades.

INDÚSTRIA DA MODA

Me fez lamentar o exagero no qual se lançou o mundo – ou melhor, a indústria – da moda, que não se contenta mais com as coleções tradicionais de outono-inverno e primavera-verão, que lança coleções intermediárias, resorts, cápsulas, ou seja lá o nome inventado para outras tantas novidades. Chegaremos brevemente ao tempo de uma nova coleção a cada mês, ao non-stop fashion comentado por Constanza Pascolato.

E aquele buraco cerzido da fotografia de Sebastião Salgado me deixou triste e feliz. Triste porque não precisaria existir motivo humano ou social que necessite do constante troca-troca de peles que a moda oferece. E o buraco me deixou feliz, em seu rasgo, em seu cerzido, por pensar que exemplos e modelos de maior integridade pessoal, maior segurança na essência da existência do ser ainda estão espalhados pelo mundo à fora, sobrevivendo à realidade costumeiramente rasa da internet e das redes sociais. Feliz por saber que volta e meia esses exemplos hão de surgir para nos mostrar que há mais alegria e sucesso na vida ao exibirmos, orgulhosos e displicentes, nossos buracos cerzidos. (transcrito de O Tempo)

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