Um busto para Maluf

Sebastião Nery

Três coronéis mandavam em Patos, na Paraíba: Miguel Satiro (pai do ex-deputado e governador Ernani Satiro), que era do governo; capitão Roldão Meira de Vasconcelos, que comandava a oposição. E João Olinto de Melo e Silva (pai dos irmãos Melo e Silva: o banqueiro Drault Ernani, o deputado Bivar Olinto e o empresário Adelgilson).

Acordavam cedo, muito cedo, e a força deles vinha sobretudo daí. Todas as manhãs, bem cedo, antes de a cidade despertar, os três se encontravam para um papo a três, onde punham em dia os fatos e boatos, segredos e intrigas da cidade. E nada vazava da conversa dos três.

Se a história era inconveniente, nem eles mesmos contavam um para o outro. Um dia, um filho do capitão Roldão, o Manduquinha, violentou a negra Sebastiana, menina levada, que toda a cidade conhecia. Naquela manhã, era só no que Patos falava. De manhã cedo, os três já tinham se encontrado:

– Bom dia, compadre.

– Bom dia. O que é que há de novo?

– E há alguma coisa de novo?

– Que eu saiba, não.

– Os compadres sabem?

– Eu também não sei.

– Nem eu.

E os três velhos, prudentes e convenientes, saíram, cada um para sua casa.

***
MARANHÃO

O parágrafo 3 do art. 14 da Constituição de 88 diz:

“São condições de elegibilidade: VI – a idade mínima de a) 35 anos para presidente e vice-presidente da República e senador; b) 30 anos para governador e vice-governador; c) 21 anos para deputado federal, deputado estadual, prefeito e vice-prefeito; d) 18 anos para vereador”.

As Constituições anteriores diziam a mesma coisa. Mas no Brasil sempre se consegue uma exceção, sabe-se lá como. Na Paraíba, em 3 de outubro de 1954, o estudante de Direito José Maranhão, nascido em 6 de setembro de 1936, elegeu-se deputado estadual pelo PTB, com apenas 18 anos.

Ao que se sabe, o único no País, até hoje. Um deputado inconstitucional? Problema da Assembléia da Paraíba.

Justiça se lhe faça: reeleito em 58 e 62, sempre pelo PTB, e em 66 pelo MDB, fez excelentes mandatos, tanto que, em 69, o golpe militar, com o AI-5, lhe cassou o mandato e os direitos políticos.

O povo deu a resposta. Com a anistia, em 79, Maranhão voltou à ação política e em 82, 86 e 90 se elegeu deputado federal pelo PMDB, sempre entre as maiores votações do Estado. Em 94, tornou-se vice-governador na chapa de Antonio Mariz, que morreu em 95 e ele assumiu definitivamente o governo, sendo reeleito em 98. Depois, foi, eleito senador em 2002, voltou ao governo com a cassação de Cassio Cunha Lima em 2009. Fez uma extensa carreira. 

***
MALUF

A lei do Monopólio Estatal do Petróleo era clara: só a Petrobras podia explorar petróleo. Mas Maluf assumiu o governo de São Paulo em março de 79 (mesmo dia de Figueiredo), era candidato a presidente da República e resolveu criar seu paraíso petrolífero: fundou uma empresa estadual de petróleo, a Paulipetro, contratou um punhado de geólogos de talento e ousadia e investiu na empreitada muitos milhões do governo de São Paulo.

A tese deles era óbvia: se a Petrobras estava encontrando oleo e gás, perfurando a 2 mil, 3 mil metros de profundidade, na bacia de Santos, bastava furar mais fundo, além dos 3 mil metros, chegando a 5 ou 7 mil, e o petróleo tambem apareceria. Mas havia dois obstáculos instransponíveis: só a Petrobras podia perfurar, e buscar petróleo a 5 mil metros ou mais era inviável, na época.

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BUSTO

Maluf teimou, insistiu e a Petrobras foi à Justiça, que o obrigou a desativar e fechar a Paulipetro, por ilegal e aventureira, e pagar uma alta multa por dar prejuízos ao Estado. A Paulipetro entrou no folclore nacional. Mas a história é sempre ela. Quando menos se espera, ela volta.

Em 2008, na mesma bacia de Santos, a Petrobras descobriu o fantástico campo de óleo e gás Tupi, o maior já achado no País, com 8 bilhões de barris de petroleo, entre 5 mil e 7 mil metros de profundidade, e hoje viável economicamente, diante do preço internacional do petróleo, a US$ 100 por barril.

Logo, os talentosos e ousados geólogos paulistas arrebanhados por Maluf tinham razão. Só não tinham a lei nem o tempo a favor deles.

O perigo, agora, é Maluf entrar na Justiça reivindicando uma indenização petrolífera e uma reparação histórica: por exemplo, que o campo Tupi se chame “campo Maluf” ou, quem sabe, um busto na sede da Petrobras.

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