Um contador de histrias

Sebastio Nery

ROMA – Na manh de sbado da semana passada, 24 de setembro, eu ia entre Florena e Siena, lembrando de uma viagem inesquecvel, naquela mesma estrada, entre o natal e o rveillon de 1990, quando eu era Adido Cultural em Roma. amos passar o rveillon no sul da Frana.

Uma turma de amigos brasileiros: Cristina e Cleto Falo, Tereza e Luiz Carlos Barreto, Monica e Braz Nery, amos para o rveillon em Cannes, no sul da Frana. O Cleto passou uma manh, a tarde inteira e um pedao da noite contando histrias, uma a uma, sem parar um instante.

Agora, exatamente na mesma estrada, e em um sbado como aquele, de repente, toca o celular. Era meu permanente amigo Maurcio Moreira avisando que meu irmo Cleto Falo havia acabado de morrer,em Macei. Naltima vez em que nos encontramos em Alagoas, no vero passado, em longa conversa, ele tinha conscincia de que a doena lhe estava tirando a vida. Viveu apenas 58 anos. Um desperdcio do destino.

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CLETO FALCO

Cleto veio de trs brilhantes e turbulentas famlias polticas nordestinas: os Falo de Pernambuco e Alagoas, os Alencar e os Arraes do Cear. Em 1976, formado em Direito, aos 23 anos, j era presidente da Ala Jovem do MDB, na ditadura militar. E assessor do senador Teotnio Vilela.

Em 1987, elegeu-se deputado Assemblia Legislativa de Alagoas e logo tornou-se lder do governador Fernando Collor, de cujo comit dirigente da campanha foi um dos mais ativos e competentes articuladores.

Eleito deputado federal em 1990 no turbilho da vitria de Collor, assumiu a liderana do PRN, partido do governo, na Cmara Federal. Quando veio a quartelada parlamentar do impeachment, Cleto implodiu junto sua vida pblica. Em 1994, apesar de um dos responsveis pela candidatura de Itamar Franco Vice-Presidncia, no se reelegeu.

Fazia poltica e campanha com alegria, fraternidade e bom humor.

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HISTORIAS

Cleto contava histrias e as escrevia com o mesmo talento e graa: Poltica Isso Mesmo, seu primeiro livro, uma coleo primorosa de histrias da poltica de Alagoas e do Nordeste.

Depois publicou Misso Secreta em Igacy, O Homem da Globo e afinal, em 2004, Dez Anos de Silncio, um depoimento pungente, doloroso e corajoso sobre a batalha do impeachment.

Cleto era assim. Queria ver o Papa, beijar a mo do Papa. Ia ver o Papa. Sabia que eu conhecia um dos diretores do LOssservatore Romano, o jornal do Vaticano. Fomos l e ele disse que no podia voltar para o Brasil sem ver o Papa e assistir pessoalmente, dentro da Catedral de So Pedro, missa de Natal, a que s poucos tinham acesso. E lanou o argumento definitivo:

– Sou o lder do maior partido catlico do Brasil. No posso voltar para l desmoralizado.

Assistiu missa, viu o Papa, beijou a mo do Papa, conversou com o Papa. Esse pecado ele no teve dificuldade nenhuma de explicar l no cu.

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BERLUSCONI

Quando Lula negou a entrega do guerrilheiro italiano Cesare Battisti, condenado priso perptua na Itlia pelo governo e a justia italianas e nosso Supremo Tribunal manteve o direito soberano do governo brasileiro de negar a extradio, como o da Frana tambm negou, certa imprensa nossa, servil e submissa, alegou que era uma desfeita ao nobre presidente da Itlia e uma agresso impoluta justia italiana.

Ontem, aqui em Roma, em manchetes gritantes, a Conferncia Episcopal Italiana, a CNBB deles, lanou um manifesto violento , assinado pelo seu presidente, o cardeal Angelo Bagnasco, denunciando o primeiro-ministro (chefe do governo) Silvio Berlusconi, de estar empesteando a atmosfera do pas:

– Precisamos purificar o ar da Itlia, viciado por comportamentos licenciosos e degradantes, que prejudicam a sociedade e desmoralizam a imagem do pas no exterior. Cada um de ns convocado a se comportar de maneira responsvel e nobre. A histria no nos perdoar.

Quero ver agora os editoriais da imprensa brasileira defendendo o degenerado Berlusconi.

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