Um diálogo poético entre João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond

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Acima, João Cabral, Manuel Bandeira e Drummond. No centro, Solano Trindade. Depois, Cecilia Meirelles, Haroldo de Campos e Francisco Carvalho.

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O diplomata e poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) sentiu, naquela segunda-feira, como é “Difícil Ser Funcionário” e telefonou para o amigo Carlos, o Drummond de Andrade, para pedir conselhos.

DIFÍCIL SER FUNCIONÁRIO
João Cabral de Melo Neto

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tampouco estas palavras –
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulo para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança.

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

Carlos, dessa maneira
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho

3 thoughts on “Um diálogo poético entre João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond

  1. Ser funcionário publico. O grande conterrâneo meu João Cabral de Melo Neto o fez. Ainda não tinha visto poema sobre o funcionário público de espécie alguma. Ai está a burocracia de todos os dias. Arquivos, arquivos mortos Hoje é bem diferente. Não datilografa, digita, não apaga, deleta. Os arquivos são digitais. De qualquer forma um poeta não combina com funcionário público. O próprio Drummond foi chefe de gabinete do MEC
    Machado de Assis assumiu diversos cargos no Ministerio de Agricultura.
    Poetas nascem com a poesia na alma. A poesia é o seu que-fazer.
    Cão sem plumas , alguns toureiros e a imortal Morte e Vida Severina que foi encenada no Teatro da Universidade Católica de São Paulo – TUCA, Adoro Morte e Vida Severina

  2. O poema de minha eleição – A gente não cansa de ouvir ler e falar sobre os muitos severino iguais
    em tudo na vida….”

    “MORTE E VIDA SEVERINA – João C.M. Neto
    O meu nome é Severino,
    como não tenho outro da pia.
    Como há muitos Severinos,
    que é santo de romaria,
    deram então de me chamar
    Severino de Maria.
    Como há muitos Severinos
    com mães chamadas Maria,
    fiquei sendo o da Maria
    do finado Zacarias.

    Mas isso ainda diz pouco:
    há muitos na freguesia,
    por causa de um coronel
    que se chamou Zacarias
    e que foi o mais antigo
    senhor desta sesmaria.

    Como então dizer quem falo
    ora a Vossas Senhorias?
    Vejamos:é o Severino
    da Maria do Zacarias,
    lá da Serra da Costela,
    limites da Paraíba.

    Mas isso ainda diz pouco:
    se ao menos mais cinco havia
    com nome de Severino
    filhos de tantas Marias
    mulheres de outros tantos
    já finados,Zacarias,
    vivendo na mesma serra
    magra e ossuda em que eu vivia.

    Somos muitos Severinos
    iguais em tudo na vida,
    morremos de morte igual,
    mesma morte severina:
    que é a morte de que se morre
    de velhice antes dos trinta,
    de emboscada antes dos vinte,
    de fome um pouco por dia
    (de fraqueza e de doença
    é que a morte severina
    ataca em qualquer idade,
    e até gente não nascida).

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