Um ditador a menos

Sebastião Nery

SALVADOR –  No começo do século passado, Eça de Queiróz foi aos Estados Unidos, ficou impressionado com o desenvolvimento mas também com o provincianismo norte-americano. Voltou e escreveu:

– “Muda-se um país, não se muda um povo”.

Em 1989, em Trípoli, na Líbia, o restaurante era lindo, em um parque, perto do mar, à luz de velas. O carneiro assado desfilou cheiroso sobre as mesas. Jarras enormes, cheias, vermelhas. Não era vinho. Era groselha. Os homens chegavam de mãos dadas, segurando nos dedinhos. Na saída trocavam beijos no rosto.

Mulher nenhuma, só as estrangeiras, convidadas para o “Congresso  do Mundo Árabe”, como a nossa delegação brasileira  A mulher líbia sai de casa raramente. Enrolada em véus negros, sobre vestidos também negros até os pés, mal deixando ver seus belos, fortes olhos negros.

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LIBIA                                              

Os homens podem ter até quatro mulheres, desde que sejam justos, isto é: não protejam uma só. Na Líbia é assim. O Corão, o Islamismo, Kadafi, são assim. A modernização da Líbia é de cimento armado. No centro da praça, o bar. Seis da tarde. Mais de cem pessoas. Mulher nenhuma. Só homens.

Jogam damas, xadrez, dominó. E tomam groselha. E pepsi-cola, que tem fábrica lá mas com nome árabe na garrafa. Vestem-se mal. Ou as batas grandes, encardidas, ou roupas comuns, calça e camisa, de muito mau gosto. Nos pés, chinelões e dedos sujos pela poeira permanente. Raramente sapatos. É roupa demais, pano demais para tanto calor, tão pouca água.

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KADAFI

TV, há uma só. Rádio uma só. Jornal só um, grande, com 16 fotos de Kadafi. Sempre ele, ele, ele, que não era presidente da República, não era primeiro ministro, não tinha um só cargo oficial. Era “o líder”, que exercia o poder em nome do “Congresso Geral do Povo”, do qual não fazia parte.

Em novembro de 1971, Kadafi foi à mesquita de Trípoli, assumiu a direção dos ritos religiosos, a liderança religiosa, retomando antigo costume dos califas. A Constituição diz: – “O Corão é a lei da sociedade”. Logo, Kadafi é a lei e a sociedade.

– Então ele é tudo, disse eu a um líbio. – Não, tudo é o povo.

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GROSELHA

Você descia no aeroporto de Trípoli, grande, quente, suado, feio. E um retrato enorme de Kadafi: quepe de militar, farda de militar, óculos rayban escuros, como os de Waldik Soriano. Você saia do aeroporto,à beira da larga avenida de duas pistas, outro retrato enorme de Kadafi: bata branca comprida e uma fita larga amarrada na cabeça, como Cazuza. mNos edifícios, esquinas, lojas, sempre Kadafi. Não era Trípoli, era “Kadapoli”.Não era Líbia, era “Kadabia”. Não era um país, era um homem, um califa de Alá.

Em Roma, nos tempos de Cristo, bebia-se vinho da Líbia,dos melhores do império. Alcool virou palavrão. Uma garrafa na sua mala era caso de policia ou direto para o aeroporto. Depois de uma semana na base da groselha,os convidados do congresso começaram a ficar sedentos.

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UISQUE

E sempre as mulheres nos salvando. Conheci uma bonita jovem americana, filha de um turista americano hospedado no mesmo hotel. Tinha uma garrafa de uísque “Johnnie Walker” rótulo preto escondida no fundo da mala. E me deu de presente. Como levar para o apartamento do saudoso Albérico Cordeiro, deputado federal de Alagoas, que assumiu o risco?

Uma companheira nossa de delegação pegou a garrafa no apartamento da americana, amarrou com um cinto debaixo da saia e saiu andando pelo elevador e corredores, até o apartamento do Cordeiro.Éramos seis sedentos por aquela preciosidade. Pedimos no restaurante uma jarra de groselha com muito gelo. Derramamos a groselha na pia, tomamos uísque com gelo. Mais uma jarra, mais gelo, groselha na pia e ainda sobrava uísque. No terceiro pedido de groselha com gelo, o garçom desconfiou: 

– Os senhores gostam muito de groselha!

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O EMBAIXADOR

 Mais ainda de vinho. Doze dias depois, comendo carneiro todo dia, já estávamos loucos de saudade da civilização ocidental cristã. Voamos direto para Paris. No bar do hotel, na mesa próxima, sozinho, um senhor elegante, negro, terno, gravata e colete, bebia uma cerveja. Suspendi a taça do champanhe numa saudação a ele. Respondeu com um “muito obrigado”.

– Fala português? Então, for favor, não fique aí sozinho.         

Ele foi à nossa mesa, aceitou o champanhe e perguntou: – Como o senhor sabe  meu nome? Puxou o cartão do bolso e me entregou:

– “Dr. Brito Sozinho, Embaixador de Angola na Nigéria”.

20 anos depois, Kadafi é um ditador a menos. Assassino de seu povo.

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