Um enigma dentro de um mistério


Carlos Chagas

Vale começar com ela:  a reforma política sumiu? Pode ser que esta semana o Senado aprove a proibição do voto secreto no Congresso, mas apenas para processos de cassação de mandatos. Nos demais casos, continuaria, quer dizer, na apreciação dos vetos presidenciais a projetos aprovados e na seleção de autoridades judiciais e diplomáticas indicadas pela presidência da Republica.

As demais propostas discutidas semanas atrás foram para o espaço: financiamento público das campanhas, votação em listas partidárias nas eleições para deputado federal, extinção da figura dos suplentes de senador, redução do número de partidos através da cláusula de barreira, fim   das coligações partidárias, eleição dos candidatos que receberem mais votos, revogação da reeleição, com a extensão dos mandatos de presidente da República, governador e prefeito para cinco anos, criação do voto voluntário em vez do obrigatório, perda automática do mandato para parlamentares condenados na Justiça  a certas penas por determinados crimes, voto distrital misto ou integral e quantas outras?

Na verdade, poucos  queriam, no Congresso, uma reforma ampla das instituições. Quem sustentava uma, opunha-se a outras, conforme seus interesses. As parcelas não completaram a equação e o resultado ai está: zero para a reforma política, apenas o começo de um elenco de mudanças essenciais a que o país não se desintegre.

Houve tempo, felizmente deixado para trás, em que a ditadura militar ousou mudar parte das instituições através de atos institucionais e complementares. Fizeram uma lambança de  vastas proporções, em nome da supressão de certos privilégios e da conservação de muitas benesses. Começaram mal e terminaram pior. Só que com a volta à democracia e a Constituição de 1988, voltou tudo atrás.

Seria necessária outra ditadura para se limitar os excessos e as impropriedades hoje vigentes? Nem pensar. Os militares, como corporação, podem estrilar, mas encontram-se vacinados contra o germe do arbítrio e da prepotência, já que no poder nem resolveram os impasses político-institucionais, quanto mais os econômicos e sociais.

Fazer o quê, então? Traduzir em leis a indignação das ruas, só com a aprovação dos representantes do povo. Como eles representam cada vez menos, transformados em casta situada acima e além do pensamento e das necessidades  nacionais, não se espera que do Congresso venha a emergir solução alguma.  Muito  menos confia-se em messias e salvadores da pátria apenas capazes de sensibilizar maiorias   em fugazes espaços de tempo.

Lá atrás, no passado, adotou-se fórmula salvadora para evitar o caos determinado pela ausência de saídas para o impasse nacional: “todo o poder ao Judiciário!”

Também não dá, apesar de todo o respeito que nos merecem os tribunais.  Seus ministros  caíram na armadilha, seja tornando a Justiça cada vez mais cara e lerda, seja pleiteando, como acaba de fazer o presidente do Supremo Tribunal Federal, vencimentos de 40 mil reais para seus ministros. Imaginam-se tão acima assim da população que recebe o salário-mínimo ou o bolsa-família?

Há os que defendem a prevalência das leis do mercado, que nem é mercado e nem dispõe de leis. São os mesmos a clamar por reformas para acabar com o que sobrou das leis trabalhistas e apostam na livre competição entre quantidades desiguais para   locupletar-se e dividir ainda mais a sociedade. Também não dá.

Recorrer à Igreja, ou às igrejas, seria transferir para o  Além questões prementes de um país necessitado de encontrar-se consigo mesmo antes de desintegrar-se. Fica, assim, um enigma dentro de um mistério: o Brasil necessita  encontrar uma saída,  mas onde? Com quem?

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6 thoughts on “Um enigma dentro de um mistério

  1. Sr. Chagas, tá brabo, creio que Deus renunciou de ser brasileiro por ver tanta corrupção, nos deu tudo para sermos um “Povo feliz”, mas, com nossa insanidade, colocamos no Poderes, isso que aí está, corrupção total, irrestrita, portanto merecemos, e não temos o direito de reclamar, enquanto não banirmos e moralizarmos pelo instrumento pacifico do VOTO, apesar de ser obrigatório, quando deveria ser LIVRE,Consciente e Digno, e aí sim, vestirmos a “camisa da DEMOCRACIA”, POIS, SOBREVIVEMOS EM UMA “DEMOCRADURA”.
    SÓ NOS RESTA PEDIR À DEUS sua Justiça Misericordiosa, mas…temos que deixar de ser omissos,a omissão nos faz solidário com o “bem ou o mal”, para fazermos do BRASIL uma Pátria JUSTA PARA SEU POVO.

  2. O BRASIL AINDA NÃO ESTÁ PREPARADO PARA A DEMOCRACIA. O ELEITORADO, ANALFABETO E DESINFORMADO, SEM CAPACIDADE DE JULGAR COM SERIEDADE, SÓ FAZ BOBAGEM. O IDEAL SERIA ALGO QUE NÃO EXISTE: UM DITADOR HONESTO. ASSIM, SERIA MELHOR QUE AS FORÇAS ARMADAS TOMASSEM CONTA DO PAÍS POR UM BREVE TEMPO, FIZESSEM UMA NOVA CONSTITUIÇÃO E NOVOS CÓDIGOS PENAIS, SEM INFINITOS RECURSOS E SEM TANTAS OPORTUNIDADES PARA BANDIDOS (POLÍTICOS OU NÃO).

  3. Não gostaria de ser mal interpretado, mas, infelizmente, devido a heranças resultantes de um país colônia e escravagista que moldaram a cultura popular vira-latas, o Brasil, como muitos países com mesmo DNA de ex-colônia, precisa de um avatar para chamar de seu. A grande parte de sua população não pode se dar ao luxo de desejar, viver e interpretar a democracia abstrata, pois a maior parte dos irmãos brasileiros são lutadores pelo pão escasso de cada dia e não tem tempo para colocar a cabeça fora d’água e pensar o Brasil como os que deveriam, por obrigação de ofício, os nossos medíocres políticos e gestores. A própria imprensa reconhece e alimenta esta situação messiânica fazendo a exposição de vários políticos e personalidades medíocres da hora, na tentativa de torná-los expoentes em suas penetrações midiáticas. Entretanto, peneirando, filtrando, selecionando e classificando os atos destes “políticos da hora” encontramos até aqui quase sempre resultado nulo ou negativo. Alguns exemplos de avatares políticos no Brasil, forjados pela propaganda, foram Getúlio Vargas, Jânio Quadros, Collor e Lula. Hoje, muitos brasileiros procuram desesperadamente um novo avatar que pode ser Marina Silva ou Joaquim Barbosa. O maior problema é que os avatares de mentirinha são seres humanos limitados como todos nós e com objetivos e ideias pequenas como todos nós também. Assim, caso não surja um genuíno avatar, arrebatador de massas, que mobilize o povo a fazer as reformas profundas neste país seremos o país do futuro que nunca chega e o do péssimo presente que nos preocupa. Qual a diferença entre um avatar e uma ditadura do bem? Nenhuma. Qual a semelhança? Não existem. Portanto, nós brasileiros devemos comer o mingau pelas beiras, ou em uma espiral de aprendizado sofrido, defenestrar os medíocres políticos que nos roubam até as parcas esperanças, nos oferecendo pão e circo de baixa qualidade.

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