Um enigma humano: a violência pela violência do Estado Islâmico

A violência absoluta é demonstrada pelas decapitações em série

Leonardo Boff
O Tempo

O Estado Islâmico é uma das emergências políticas mais misteriosas e sinistras dos últimos séculos. Tivemos na história do Brasil, como nos relata o pesquisador Evaristo E. de Miranda (“Quando o Amazonas Corria para o Pacífico”, Vozes, 2007), genocídios inomináveis, como uma tribo antropófaga que devorou todos os sambaquieiros que viviam nas costas atlânticas do Brasil.

Com o Estado Islâmico está ocorrendo algo semelhante. É um movimento fundamentalista, surgido de várias tendências terroristas. Proclamou, em 29 de junho de 2014, um califado, tentando remontar aos primórdios do surgimento do islã. O Estado Islâmico reivindica autoridade religiosa sobre muçulmanos do mundo inteiro, a fim de criar um mundo islâmico unificado que siga à risca a xariá (leis islâmicas).

Aqui não é o lugar de detalhar a complexa formação do califado, mas apenas nos restringir ao que mais nos torna escandalizados: a violência pela violência como marca identitária. Entre os muitos estudos sobre o fenômeno cabe destacar dois italianos que viveram de perto essa violência: Domenico Quirico e Mauricio Molinari.

JOVENS RADICAIS

Quirico narra que se trata de uma organização exclusivamente masculina, composta por gente, em geral, entre 15 e 30 anos. Ao aderir ao califado, a pessoa apaga todo o passado e assume nova identidade: de levar a causa islâmica até a morte dada ou recebida. A vida pessoal e a dos outros não têm nenhum valor. Traçam uma linha rígida entre os puros e os impuros. Torturam, mutilam e matam sem qualquer escrúpulo. Ou se convertem, ou morrem. Mulheres são sequestradas e usadas como escravas sexuais pelos combatentes. O assassinato é louvado como um “ato dirigido para a purificação do mundo”.

Parte dos jovens são recrutados nas periferias das cidades europeias. Não apenas pobres, mas até um laureado de Londres com boa situação financeira e outros do próprio mundo árabe.

O Estado Islâmico recusa qualquer diálogo e negociação. O caminho só possui uma via: a violência de matar ou de morrer. Esse fato é perturbador, pois coloca a questão do que é o ser humano e do que ele é capaz. Parece que todos os nossos sonhos e utopias de bondade se anulam.

AGRESSIVIDADE

Para Freud, a agressividade é expressão da dramaticidade da vida humana, cujo motor é a luta renhida entre o princípio de vida e o princípio de morte. Descarrega-se a tensão para fins de autorrealização ou proteção. Para ele, é impossível aos humanos controlar totalmente o princípio de morte. Por isso, sempre haverá violência na sociedade. Mas por leis, pela educação, pela religião e, de modo geral, pela cultura pode-se diminuir sua virulência e controlar seus efeitos perversos.

Para Konrad Lorenz (1903-1989), a agressividade é um instinto como outros e destina-se a proteger a vida. Mas ela ganhou autonomia, porque a razão construiu a arma mediante a qual a pessoa ou o grupo potencializam sua força e assim podem se impor aos demais. Criou-se uma lógica própria da violência. No entanto, Lorenz reconhece que a violência mortífera somente desaparecerá quando se der aos homens, por outro modo, aquilo que era conquistado mediante a força bruta.

Para René Girard, a violência na história é tão predominante que significa para ela um mistério insondável que não sabe como decifrar. E nós também não. Na história há tragédias, e nem tudo é compreensível pela razão. Quando o mistério é grande demais, é melhor calar e olhar para o Alto, de onde, talvez, nos venha alguma luz.

6 thoughts on “Um enigma humano: a violência pela violência do Estado Islâmico

  1. Engana-se redondamente neste artigo o Prof. Teólogo LEONARDO BOFF, quando diz que a emergência do Estado Islâmico ( ISIS ) é : uma das mais misteriosas e sinistras dos últimos séculos. Sinistra, sim, misteriosa, não.
    Também não há por parte do ISIS “violência pela violência”, mas violência com objetivo de aterrorizar os inimigos e evitar penetração de espiões que sabem que se pegos, terão o terrível destino de serem friamente degolados a faca. Também as Tribos que se comprometem e traem, quando vencidos, sabem que todos seus Membros masculinos serão degolados.
    Os Assírios, que aliás são +- da mesma Região, já praticavam isso lá pelos anos 1.000 AC.
    Em Política, mais especificamente geo-Política, nada acontece misteriosamente e por acaso. Isso tudo está inserido na terrível luta de Sunitas X Xiitas Muçulmanos.
    O Iran Xiita, o Iraque de Governo Xiita, e a Síria de Governo Alawita/Xiita formaram um Eixo. Através principalmente desses três Países que abastecem o Hezbollah ( Partido de Deus ) no Sul do Líbano, região de População Xiita. O Hezbollah artilhou as Colinas do Sul do Líbano com Mísseis escondidos em casamatas de concreto armado camuflados, de onde podem atingir o Norte de Israel. Em 2006, Israel fez uma guerra contra o Hezbollah no Sul do Líbano, e depois de mais de um mês usando sua poderosa e bem treinadas, Força Aérea e Divisões Blindadas, etc, não conseguiu desalojar do Terreno o Hezbollah, que cantou vitória.
    Então Israel/EUA/NATO resolveram “mudar o Regime da Síria, derrubando o Governo BASHAR AL ASSAD” e assim interromper o fluxo de sofisticados Mísseis que vem do Iran para o Hezbollah no Sul do Líbano Xiita, em rota terrestre, passando por Sul do Iraque Xiita e Norte da Síria.
    Ora, o Norte do Iraque e também da Síria é habitado por Sunitas, que estavam abandonados/maltratados por esses Governos, e foi fácil a Israel/EUA/NATO e Potências Financeiras Sunitas como Arábia Saudita, Países do Golfo Pérsico, Kweit, etc, financiá-los e induzi-los a “derrubar o Governo da Síria”. Daí nasceu o EI ( ISIS ).
    Nada de misterioso. Abrs.

  2. Estimado Sr. Flávio José Bortolotto … Saudações!

    Em certos momentos vamos de CABOTagem e costeamos a Teoria da Conspiração … Parabéns pela análise geopolítica!

    Os Descobrimentos foram decorrentes da ação ismaelita no Mediterrâneo Central e Oriental … No Ocidental a Espanha e o próximo Portugal abriram novas portas para a Civilização, que nos legaram as Revoluções Americana, Francesa e Russa.

    Lutero com a Reforma não atingiu a Ortodoxia … Também o Concílio Vaticano II deixou a Ortodoxia intacta … Estão os Ortodoxos com tentativa de Concílio após mais de 1.000 anos.

    Os islâmicos estão sem grandes ou nenhuma mudança desde que se firmaram em cumprimento das promessas do Senhor a Hagar.

  3. Prezado Sr. LIONÇO RAMOS FERREIRA, Saudações.
    Muito Obrigado por ter feito referência elogiosa a minha modesta análise da criação do EI ( ISIS).
    Desculpem-me pelos erros de concordância cometidos. É que minha “Secretária” as vezes digita mal. Abrs.

  4. Nenhuma luz virá, pois vocês apagam todas com os seus “conhecimentos teológicos’. Vocês desvirtuam tudo! Um sacerdote, meu conhecido, ficou 5 anos em Roma estudando. Estudanto o quê?
    Será possível que para amar, compadecer e servir é preciso estudar tanto? Por último veio uma luz, São João Maria Vianney, patrono dos sacerdotes, um modelo de vida que faz os outros fugirem. Pouco inteligente, não conseguia aprender o latim e tudo o mais, apenas as coisas simples. A sua luz brilhou na França, em Ars. Amou, compadeceu e curou. Simples assim. Mal se alimentava e quase não dormia, vivia entre o altar e o confessionário. Viveu a sua vocação, cumpriu o seu dever. Mas esse modelo de vida não serve, não é mesmo?

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