Um enigma: o emprego aumentou e o consumo diminuiu

Pedro do Coutto

Tese, anttese, sntese. O princpio que o filsofo alemo Hegel eternizou na passagem do sculo 18 para o 19, ele morreu em 1831, atravessa o tempo e, acredito, ficar para sempre. Agora mesmo, pode-se reviv-lo, no na teoria, mas na prtica. Na edio de 21 de agosto, o Globo publicou duas excelentes reportagens, uma de Geralda Doca, outra de Liana Melo. Interessante fazer-se o cotejo. Ambos os dados tem o governo como fonte. A primeira matria focaliza a queda da receita federal no primeiro semestre de 2009 em relao ao mesmo perodo de 2008. A segunda revela que o desemprego recuou de 8,1 para 8% nas seis regies metropolitanas do pas, e que a renda mdia mensal do trabalho subiu 3,4 pontos no mesmo espao, alcanando 1 mil e 323 reais. Como explicar o fenmeno?

A receita desceu 7,3% j descontada a inflao que, para o IBGE foi de 4,5 no perodo. Ficou este ano na escala de 384,1 bilhes de reais. Resultado alarmante, inclusive, porque a populao cresceu 1,1% entre uma ponta e outra. Consequncia provavelmente de um Produto Interno Bruto menor, o reflexo lgico na retrao da renda per capita. J que o resultado da diviso do PIB pelo nmero de habitantes. Mas a questo no se esgota a. Constatar o fenmeno no suficiente. necessrio interpret-lo. Traduzi-lo. Todos sabemos que o impulso ao consumo, via credirio, muito forte, com a sociedade brasileira no atribuindo a importncia que deveria dar aos juros cobrados nos financiamentos. Outro aspecto: a populao est muito mais voltada para consumir do que para produzir. Da mesma forma que visa infinitamente mais a concentrao do que a distribuio. O marxismo tropeou neste plano da existncia humana.

Mas ultrapassadas a tese e a anttese, vamos para a sntese. O IPI recuou muito mais do que o Imposto de Renda. O Imposto sobre Produtos Industrializados a principal fonte identificadora do consumo. Vejam s. Nos primeiros seis meses deste ano, enquanto o IR apresenta reduo de 17,4%, a arrecadao do IPI foi 31,8% menor. Logo o consumo se retraiu. O reflexo inevitvel na receita do ICMS nos principais centros consumidores como So Paulo e Rio de Janeiro. O que pode ter causado isso, j que o sistema de crdito continua aberto inclusive com uma taxa mensal de juros igual a inflao anual?

Qual a explicao para iluminar o vrtice das duas reportagens que O Globo publicou? S pode ser uma para no se por em dvida a anunciada elevao no rendimento mdio mensal do trabalho.

O medo do desemprego. Porque o desemprego um fantasma. Ele pode no aparecer, pode no se realizar. Mas a simples perspectiva em torno da perda da colocao leva a um natural posicionamento defensivo. Claro. Pois como assumir compromissos financeiros se, de repente, a fonte do pagamento pode cessar? E vale acentuar que todas as estatsticas do prova de que no nada fcil retomar uma colocao perdida. Demora meses, s vezes anos. Como pagar as contas? A que reside o verdadeiro problema. Em perodos de recesso, portanto de retrao, todos nos sentimos ameaados. E, de maneira responsvel, passamos a agir de forma mais prudente. Este ngulo da condio humana que no costuma ser analisado, sequer levado em conta, pelos tecnocratas. Os tecnocratas acham que os nmeros frios das projees que fazem podem resolver tudo. Nada disso. O ser humano muito mais complexo do que se imagina primeira vista. O comportamento das pessoas, multiplicado pelas situaes em que se envolvem, exige pesquisas de profundidade. O temor um sentimento permanente. O nvel de consumo depende do grau da preocupao. Esta a sntese da divergncia dos textos e dos dados.

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