Um ensinamento poética de Adélia Prado

Adélia Prado, no entardecer de sua beleza eterna

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

A professora, escritora e poeta mineira Adélia Luzia Prado de Freitas, no poema “Ensinamento”, fala de opiniões e sentimentos.

ENSINAMENTO
Adélia Prado

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

2 thoughts on “Um ensinamento poética de Adélia Prado

  1. Minha querida poeta Adélia Prado. Já assisti inúmeras palestras dela.
    Um dia alguém no auditório perguntou sobre velhice. E ela – Ninguém gosta de ser velho, mas quer viver muito tempo. Fazer o que? Aceitar. E discorreu sobre “aceitação” da velhice.
    “Minha mãe achava estudo
    a coisa mais fina do mundo”
    Está ai, uma reflexão irônica sobre a importância do estudo feita pela sua mãe;

  2. Com licença poética – Adélia Prado

    Quando nasci um anjo esbelto,
    desses que tocam trombeta, anunciou:
    vai carregar bandeira.
    Cargo muito pesado pra mulher,
    esta espécie ainda envergonhada.
    Aceito os subterfúgios que me cabem,
    sem precisar mentir.
    Não sou feia que não possa casar,
    acho o Rio de Janeiro uma beleza e
    ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
    Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
    Inauguro linhagens, fundo reinos
    — dor não é amargura.
    Minha tristeza não tem pedigree,
    já a minha vontade de alegria,
    sua raiz vai ao meu mil avô.
    Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
    Mulher é desdobrável. Eu sou.

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