Um espetáculo lamentável

Carlos Chagas

Juízos de valor à parte, com relação à greve dos servidores públicos federais, a verdade é que permanece valendo a máxima oriunda desde Ramsés II: greve se faz contra patrão.

Mais de 100 mil funcionários do Executivo estão paralisados e cumprem a determinação milenar. O patrão é o governo e contra ele cruzam os braços.

O problema está nos desdobramentos. Ainda agora 5 mil grevistas resolveram acampar no gramado da Esplanada dos Ministérios. Montaram barracas, além de um circo, onde fazem comida, lavam roupa, sujam o chão e só não se dedicam ostensivamente a outras atividades fisiológicas porque o governo, mais do que depressa, montou no local dezenas de banheiros químicos. Melhor assim do que quando certas tribos de índios reivindicam a ocupação e não aceitam a oferta.

Não dá para aceitar, porém, que um dos cartões postais mais eloqüentes da capital federal se veja transformado num pátio dos milagres, uma favela erigida pelo descaso diante de nossa imagem de sociedade civilizada. Não se trata de novidade, pois há décadas que o principal gramado de Brasília se vê invadido por toda sorte de abusos e absurdos. Já se erigiram por lá mafuás, parques-de-diversão, mini-estádios para a disputa de campeonatos de tênis e natação, montanhas de lama para corrida de motocicletas, palcos para espetáculos de música popular e até de orquestras sinfônicas.

A população tem direito a diversões, mas há lugar para tudo. Jamais diante da Praça dos Três Poderes e das fileiras de ministérios que acabam se prestando ao papel de linha auxiliar do caos. Assiste-se a um jogo-de-empurra digno da burrice humana: o governo federal sustenta não deter o domínio do gramado, cuja preservação pertence ao governo local. Este, por sua vez, resolveu a questão terceirizando a Esplanada, entregue a uma empresa de turismo que aluga cada metro quadrado para quem quiser, desde que pague bem. Os grevistas, é claro, não pagam, mas o prejuízo corre por conta do faturamento.

Já imaginaram se no jardim fronteiriço à Casa Branca fosse permitido um horror igual? Se no Campo de Marte, em Paris, pudessem estabelecer-se os franceses irritados com a presença de árabes e africanos? Ou vice-versa?

O espetáculo agora montado no centro de Brasília desonra os poderes constituídos tanto quanto a categoria dos funcionários federais. Tira do movimento grevista boa parte de sua legitimidade, para não falar da segurança do cidadão obrigado a transitar por ali. Retrata uma das faces da falência do poder público.

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NUNCA ANTES, NA HISTÓRIA…

Demonstra nem tudo estar perdido, no Brasil, a expectativa do julgamento do mensalão, no Supremo Tribunal Federal. Pela primeira vez na História do país 38 réus de crimes de colarinho branco responderão pelas acusações de corrupção. Todo mundo é inocente até que se lhe prove a culpa, mas diante de monumentais denúncias como as que integram o processo, haverá pelo menos que submeter os acusados ao crivo da lei. Tem gente apavorada com a perspectiva de condenação, ainda que o ceticismo natural do brasileiro desperte a previsão de muitas absolvições. De qualquer forma, a palavra foi transferida para a mais alta corte nacional de justiça.

Abre-se a hipótese de alguns mensaleiros saírem diretamente do plenário do Supremo para uma cela na Polícia Federal. Fica evidente que o mensalão não se resumiu a simples operação de ressarcimento do caixa dois em eleições passadas. Pelo jeito foi roubalheira mesmo, coordenada e orquestrada por altos funcionários públicos, por parlamentares e pelo partido oficial, como forma de garantia de maioria para o governo, no Congresso. Há que ser otimista.

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REFLEXOS

As eleições para as prefeituras das capitais centralizam as atenções para outubro. Trata-se de uma espécie de ensaio-geral para 2014. O partido que eleger maior número de prefeitos estará melhor posicionado para eleger governadores, sendo que estes subordinarão os espaços para quem vier a ocupar a presidência da República.

Passando da teoria à prática: caso Dilma Rousseff venha a ser reeleita, como indicam as pesquisas, poderá ela governar a vontade caso os principais estados venham a ser governados pelo PSDB? Hoje, o eixo Rio-São Paulo pertence aos tucanos, mas se eles ampliarem sua presença nas demais regiões? Jamais declarariam guerra a Brasília, mas poderiam condicionar o poder central aos interesses estaduais.

Na hipótese de o PMDB ocupar essa pole-position, mesmo permanecendo aliado ao PT no plano federal, voltaria aquele período de domínio quase exclusivo da legenda? José Sarney que o diga, nos tempos em que foi presidente da República e tinha sobre ele a sombra do dr. Ulysses.

Por isso o PT jogará todas as suas forças na conquista de governos estaduais de importância. Como tudo isso começa nas próximas eleições de prefeito de capital, explica-se o esforço geral já iniciado.

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