Um festival de mentiras

Carlos Chagas

Tem um problema ético solto por aí. Aliás, presente desde que o mundo é mundo, mas agora à vista de todos. A obrigação do advogado é defender o cliente. Jamais negar ajuda aos aflitos que o procuram. Mas pode mentir? Enganar a sociedade, e enganar-se, por conta do princípio fundamental que rege a profissão?

Fala-se do julgamento do mensalão. O país assiste a maior sucessão explícita de mentiras de que temos notícia desde a proclamação da República. “Foi tudo caixa dois de campanhas eleitorais.” “Não houve dinheiro público na operação.” “O Lula não sabia de nada.” “José Dirceu jamais cuidou do PT, depois de empossado na Casa Civil.” “Delúbio Soares não distribuía recursos a deputados em troca de apoio ao governo.” “Marcos Valério nada tinha a ver com o Banco Rural.” E quantas outras barbaridades tem sido perpetradas no plenário da mais alta corte nacional de justiça?

Calcula-se que 150 advogados empenham-se na defesa dos mensaleiros, com 38 mais expostos porque comparecem à tribuna do Supremo Tribunal Federal. Haverá um só deles capaz de acreditar nos argumentos que sustentam? Em sã consciência, conseguem olhar-se no espelho, mesmo embaçado pelos vultosos honorários recebidos? Encena-se um dos maiores festivais de mentira verificados no país.

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ME ENGANA QUE EU GOSTO

Melhor esperar a confirmação, porque um fio de esperança sempre haverá. Tudo indica, porém, que quarta-feira a presidente Dilma anunciará nova rodada de privatizações. Mais rodovias, ferrovias, hidrelétricas, portos e aeroportos, dos que sobraram em poder do Estado, passarão às mãos da iniciativa privada. Não que os cofres públicos venham a receber um centavo sequer pela doação. Apenas, vão livrar-se do encargo de gerir patrimônio público. As empresas aquinhoadas é que aumentarão seu faturamento através de pedágios e similares, felizes também porque se forem investir na melhoria dos serviços, saberão buscar o investimento no BNDES, nos bancos oficiais, na isenção de impostos e em outros benefícios fiscais.

É o governo do PT em marcha, seguindo os passos do sociólogo, que o torneiro-mecânico copiou. Como a crise econômica se amplia, logo surgirão propostas para novas privatizações. A Petrobrás dá prejuízo? Que se entregue a metade que sobrou da alienação promovida por Fernando Henrique. Por que não privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e os Correios? Mesmo assim, não vai dar. Mas existirão o sistema penitenciário, a segurança pública, as polícias, o Poder Judiciário e, enfim, as Forças Armadas. Ou elas também não dão prejuízo?

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QUANDO CHEGAR A NOSSA VEZ

Cresce a onda de greves, sem sinal de interromper-se. Seus efeitos já se fazem sentir. Rodovias engarrafadas, aeroportos paralisados, portos sem funcionar, segurança pública exangue e abastecimento precário.

Se os horizontes são esses, por que diabo o cidadão comum não reage? Adianta pouco esperar o poder público, já que ele mesmo vem dando o exemplo.

Qualquer dia surgirá um tresloucado pregando a nossa vez. Que tal parar de pagar impostos?

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ODE AO VAZIO

Crises e impasses não faltam. Julgamento do mensalão, CPI do Cachoeira, greves, paralisação do serviço público, aumento da gasolina, derrota da seleção olímpica de futebol e quanta coisa a mais?

No meio do temporal, no entanto, nota-se um vazio para ninguém botar defeito: onde anda a oposição? Em que céu voam os tucanos, que ninguém vê? Nem soluções, nem projetos, sequer críticas e protestos. Pelo jeito, o Brasil não é com eles. Nem voltará a ser deles.

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