Um funcionário pé-frio

Sebastião Nery

Cabrera, sergipano, era da Varig. Funcionário exemplar. Foi mandado para Lima, no Peru, como gerente. Chegou, assumiu, na semana seguinte caiu um avião da Varig lá, morrendo tripulantes e passageiros.

Cabrera pediu transferência. Foi nomeado gerente em Monrovia, na Libéria. Chegou, assumiu, na semana seguinte caiu um avião da Varig lá, morreu a metade dos passageiros.

A bordo estava, inclusive, o jurista Victor Russomano, que se salvou.

Cabrera ficou novamente chateado, pediu transferência. Rubem Berta, presidente da Varig, mandou chamá-lo:

– Cabrera, você é um funcionário exemplar, competente, mas está havendo coincidência demais. Assim, você agora vai ser gerente onde só haja conexões e venda de passagens e não cheguem aviões nossos.

Cabrera foi para o Paraguiai.

Um dia, a Varig inaugurou uma linha para Assunção. Antes, Cabrera foi transferido para Tóquio. Mas a Varig inaugurou sua linha para Tóquio. Cabrera foi transferido. Por segurança, na véspera.

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CONSTITUIÇÃO

Noite de 13 de dezembro de 1968. Na televisão, o ministro da Justiça Gama e Silva, jornalista, advogado, promotor, professor de Direito na USP (Universidade de São Paulo), reitor da Universidade, biministro da Justiça e da Educação e Cultura, apesar de todos esses títulos e compromissos, mandava ser lido o AI-5 (Ato Institucional nº 5), o mais fascista, indecoroso e repugnante documento da história política do País.

O palácio do Congresso, em Brasília, humilhado em conchas, iluminava as angústias nacionais. O senador e ex-ministro da Justiça Mem de Sá, da Arena do Rio Grande do Sul, chegou à sala das taquígrafas do Senado, que estavam falando alto:

– Minhas filhas, falem baixo que a Constituição está morrendo.

Só faltava o Cabrera da Varig ter assumido a agência das empresas aéreas que funciona no prédio do Congresso.

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