Um herói

Sebastião Nery

O deputado cassado Neiva Moreira, editor dos “Cadernos do Terceiro Mundo” (excelente revista em português, inglês e espanhol), foi a Beirute entrevistar os dirigentes dos partidos libaneses: Partido Progressista, Partido Murabitum, Partido Baath e Partido Comunista.

Depois de vencer rigoroso esquema de segurança, Neiva chegou à rua Afif At-Tibl, perto da Universidade Árabe, e entrou num pequeno escritório para conversar com o secretário do Partido Comunista do Líbano:

– Bonjour.

– Bonjour, não. Bom-dia. Falo português. Sou brasileiro.

– Brasileiro e dirigente do Partido Comunista libanês?

– Nasci no Acre.Minha mãe era acreana, casada com um libanês.Com 7 anos veio e me trouxe. Tenho uma irmã em Paris e um irmão no Brasil, o ministro da Comunicação Said Farhat. Somos amigos. Politicamente, menos.

E Albert Farhat, alto, forte, 40 e poucos anos, cabelos pretos, simpático, falou duas horas a Neiva. Quando terminou, desculpou-se:

– Estou muito preocupado hoje, porque meu filho está na frente de luta. Tínhamos até planejado que outro companheiro, o segundo secretário, também conversasse com você. Mas o Abi-Akel teve de sair.

– Quem? Abi-Akel? Irmão também do nosso ministro?

– Não. Primo.

Neiva saiu sem saber se tinha entrado no Palácio do Planalto.

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BAGDÁ

Neiva estava numa recepção no palácio de Saddam Hussein, em Bagdá, Iraque, e conversava com o coronel Melo Antunes, presidente do Conselho da Revolução de Portugal. Vai chegando um homem de óculos:

– Os senhores ai falando português?

– Sou o Melo Antunes, de Portugal. Ele, o Neiva Moreira, do Brasil.

– E eu o Camilo Pena, ministro da Indústria e Comércio do Brasil.

Aproxima-se o general Samuel Correia, embaixador do Brasil em Bagdá. Camilo Pena apresenta-os, o general surpreende-se:

– Do Maranhão? Os maranhenses são poetas, escritores. Também é?

– Infelizmente não, embaixador. Os senhores não me deram tempo.

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LIBIA

Uma delegação de onze deputados foi a Trípoli, na Líbia, conhecer a terra de Kadafi. Com eles, o deputado Neiva Moreira, o brasileiro de maiores ligações e maior prestígio em todo o Terceiro Mundo.

Da delegação fazia parte o deputado Iranildo Pereira, do PMDB do Ceará, sertanejo duro e seco lá do Cariri. Ficou escandalizado com o hábito árabe de os homens andarem na rua de mãos dadas e se beijarem no rosto:

– Seu Neiva, essa história de homens de mãos dadas nas ruas se beijando na cara, essa não. No Ceará não tem disso não.

Os líbios ofereceram um banquete à delegação brasileira. Neiva chamou o delegado da OLP (Organização pela Libertação da Palestina):

– Abu, preciso de um favor seu. Vou lhe apresentar um deputado brasileiro que está intrigado com o hábito árabe do beijo no rosto entre homens. Quando você falar com ele, dê-lhe dois beijos seguros.

Iranildo chegou, Neiva apresentou o Abu, que lhe sapecou duas beijocas estaladas nas bochechas. Iranildo quase esmurrou o árabe.

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NEIVA

Na semana passada, em Paris, a chuva despejava bolas de granizo na janela do hotel e de repente a internet informou a morte de Neiva Moreira, aos 95 anos. Logo me lembrei do saudoso Paschoal Carlos Magno :

– A partir de certa idade nossa vida é uma alameda de amigos mortos.

Neiva Moreira foi um dos meus mais fascinantes amigos no jornalismo e na política. Deputado estadual em 1950, em 1953 o levamos ao Diretório Academico da Faculdade de Filosofia de Belo Horizonte para uma conferencia sobre a campanha do Petróleo é Nosso e da Petrobrás.

No Réveillon de 2007, 55 anos depois, ele quase cego, estávamos os dois, emocionados, na posse de Jakson Lago no governo do Maranhão. Foi uma vida bonita, valente, universal, generosa, venturosa e aventurosa.

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JORNALISTA

Nascido em 1917, em Nova Iorque, no Maranhão, aos 15 anos já dirigia o jornal “A Luz”, em Floriano, no Piauí. Em Terezina, com Carlos Castelo Branco, fundou “A Mocidade”. Em 1942 já estava no Rio em “O Jornal” e “O Cruzeiro”. Em 1950, funda em São Luis o “Jornal do Povo”, elege-se deputado estadual. Em 1954, 58, 62, federal. Presidente da Comissão da Camara para Transferencia da Capital para Brasilia, Juscelino me disse que sem ele dificilmente teria inaugurado Brasília em 1960.

Um dos fundadores da Frente Parlamentar Nacionalista, o golpe militar de 1964 o cassou na primeira lista. Preso meses, asilou-se no mundo. Nenhum exilado brasileiro viveu em tantos países, fugindo de golpes. Foi para a Bolívia, golpe. Para o Uruguai, golpe. Para a Argentina, golpe. Para o Peru, golpe. Para o Chile, golpe. Afinal, México e Europa, sempre jornalista, com seus imbatíveis “Cadernos do Terceiro Mundo”.

Anistiados, ajudamos Brizola a criar o PDT. Fez varios mandatos de deputado federal pelo seu Maranhão. Um herói nacional: 80 anos de lutas.

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