Um homem “chin-up”

Sebastião Nery

Janeiro de 1969. No quartel do Regimento de Artilharia Motomecanizada, em Bonsucesso, no Rio, vários jornalistas, intelectuais, presos, logo depois do AI-5. Osvaldo Peralva, editor do Correio da Manhã, foi o primeiro a ser solto.

No sábado, dia de visitas, Peralva mandou para Gerardo Mello Mourão, também preso, as Anti-Memórias de André Malraux. Lea, a mulher de Gerardo, levou o livro:

– Tem um bilhete aí dentro, que o Peralva mandou para você.

O bilhete não estava. Gerardo entendeu logo: tinha sido retido na revista da guarda, quando Lea chegou. Dias depois, Gerardo foi chamado a depor no auditório do ministério do Exército, no segundo andar. 48 horas de interrogatório, com pequenas interrupções. Na parede, uma foto enorme de Tiradentes e a legenda: “Tudo começou com ele”.

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CHINÊS

O general reformado Roberto Batista Martins chegou com ar de vitória:

– Doutor Gerardo, o senhor é amigo de Osvaldo Peralva?

– Sou. Somos amigos fraternais.

– Eu sabia. Ele saiu da linha de Moscou e entrou para a linha de Pequim.

– Disso não sei, general. Nem acredito.

– Então me diga quem é o chinês da mensagem, a mensagem do Peralva para o senhor. Ela prova quer os senhores estão articulados com a China.

Abriu a pasta e jogou sobre a mesa o bilhete de Peralva, que estava dentro do livro de Malraux:

– Gerardo amigo, você acredita em Deus. Agarre-se nele e “chin-up”!

Assinado, Peralva. O general, de pé, insistia:

– Quem é o chinês?

Gerardo ensinou ao general que “chin-up” é uma expressão inglesa, que quer dizer: “Queixo” (chin) “erguido” (up). Moral elevada.

Nunca mais se falou do “chinês” de Peralva.

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GERARDO

Gerardo Mello Mourão, morto no Rio em 2007, aos 90 anos, foi sobretudo um “chin-up”, um homem de queixo erguido. Na época, eu estava fora do País, em Buenos Aires, não escrevi sobre ele. Mas Hélio Fernandes (Tribuna da Imprensa) e Carlos Heitor Cony (Folha), disseram o que sinto, penso e gostaria que os leitores soubessem.

Depois, em Brasília, depois de dar um testemunho sobre Juscelino, no Memorial JK, com o historiador Ronaldo Costa Couto e a escritora Vera Brant, uma jovem estudante de literatura me perguntou:

– Esse Gerardo Mello Mourão foi mesmo o grande homem, poeta e escritor que os jornais falaram? Essa opinião não é só dos amigos dele?

– Não. Como homem e como intelectual, ele foi mais ainda.

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POETA

Barbaramente torturado, ele e a mulher, por ser integralista, e condenado em 1942 a 30 anos de prisão pelo medieval Tribunal de Segurança Nacional da ditadura Vargas, dos quais cumpriu seis anos, e depois absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, quando a democracia voltou, saiu da cadeia com um romance que assombrou o País, “O Valete de Espadas”, e foi saudado e logo traduzido pelo mundo a fora, como também sua forte poesia.

Deputado federal pelo PTB de Alagoas em 1962, exilado no Chile pelo golpe militar de 64, cassado pelo AI-5 em 69, continuou fazendo jornalismo e produzindo sua obra literária: “Dossiê da Destruição” (romance, 66), “O País dos Mourões” (poesia, 72), ‘Rastro de Apolo” (poesia, 77), “A Invenção do Saber” (ensaios, 83), “Invenção do Mar” (poesia, 97), e outros.

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DANTE

1. Tristão de Athayde: – “Jamais, em nossa história literária, se colocou a poesia em tão alto pódio. Gerardo Mello Mourão é um poeta planetário. O único poeta planetário na história da poesia brasileira”.

2. Carlos Drummond de Andrade: – “A poesia de Gerardo Mourão tem uma força atordoante. Declaro-me possuído de violenta admiração por esse imenso, dramático e vigoroso painel, que atestará sempre a grandeza singular e a intensidade universal de sua poesia. Está aí a poesia que eu sempre desejei fazer e nunca tive força”.

3. Octávio Paz: – “Sua poesia não só me revelou uma paisagem humana e verbal, como também me levou ao desejo de conhecer sua prosa”.

4. Ezra Pound: – “Em toda a minha obra, o que tentei foi escrever a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem conseguiu foi o poeta de “O País dos Mourões”.

5. Franklin de Oliveira: – “Este (“O Valete de Espadas”) é um dos romances mais importantes da literatura brasileira, hoje e de todos os tempos”.

6. Nelson Rodrigues: – “Um dos silêncios mais feios e mais vis da nossa vida literária é o que se faz contra o Gerardo Mello Mourão. Foi mais ou menos isso que me disse ainda ontem meu amigo Hélio Pelegrino. Fui visitá-lo e ele me disse: – Nelson, descobri um poeta gigantesco. É o nosso Dante”.

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