Um homem da vida, que embelezou a humanidade

Ivo Pitanguy conseguiu embelezar a humanidade

Sebastião Nery

Quase tudo se disse sobre Ivo Pitanguy, sobretudo como um homem da beleza. Lembro-me dele principalmente como um homem da vida, o cirurgião da vida. É o que ele foi:

“A experiência que marcou mais fortemente a minha vida foi o tratamento das vítimas do incêndio do Gran Circo Norte-Americano, ocorrido no dia 17 de dezembro de 1961, em Niterói”.

O que presenciei naquele dia superou os mais terríveis pesadelos. Uma multidão de 2.500 pessoas – na sua maioria crianças – sucumbiu ao fogo e à falta de atendimento adequado às gigantescas proporções do desastre. O dramático saldo registrou cerca de quinhentos mortos e outras tantas vítimas irremediavelmente desfiguradas.

Lembro-me como se fosse hoje. Estava indo para a Santa Casa quando ouvi no rádio do carro a notícia da tragédia. Desviei meu roteiro, tomei a barca e, junto com Odir Aldeia, Adolfo, Ronaldo, Ramil e outros colegas que já se encontravam em Niterói, comecei a organizar um pequeno time que pudesse nos ajudar, naquele ambiente de desespero que se apossou da cidade. Era preciso controlar a multidão, dar ordem ao caos, reabrir o Hospital Antonio Pedro, fechado por uma greve de funcionários, e criar um sistema de atendimento a todos aqueles queimados.

Fiquei impressionado com o caso de um menino de 11 anos. Havia surgido subitamente da espessa fumaça que formava uma muralha em torno do capitel em chamas. Estava gravemente queimado em 80% do corpo, mas parecia indiferente a seus ferimentos. Com as roupas em farrapos, sua única preocupação era olhar todos os outros feridos como se procurasse alguém.

– Meu amigo…

Seus lábios tremem tamanho o pavor que havia sentido antes de poder escapar da fornalha. Com o olhar alucinado, ele procura seu amigo:          

– Ele continua lá no fogo!

Sem que ninguém possa interferir, tão fulminante é sua decisão, o menino se arremete na direção do inferno.

Os apelos são inúteis. A pequena silhueta é novamente tragada pela armadilha de fumaça. Petrificados, estamos convencidos de que ele não escapará mais. De repente, as pessoas começam a gritar e correr. Urrando de terror, um elefante que arrasta em seu dorso panos incandescentes do circo, rasga uma passagem entre as chamas. Aproveitando-se do buraco, espectadores conseguem escapar:

– Olhem! O menino está ali…ali!

Uma enfermeira é a primeira a vê-lo e se precipita em sua direção para socorrê-lo. Ele caminha penosamente. Está no fim de suas forças. Mas carrega seu amigo quase desmaiado. Em seu rosto fino, inchado pelas queimaduras, seus olhos brilham loucamente com um indizível orgulho. Seu amigo está salvo.

A intrepidez e a abnegação desse menino marcaram-me para sempre. Arriscar a vida pelo outro é o mais nobre ato de um ser humano. O jovem herói chama-se Pablo. Livre de seu fardo vivo, ele cai a nossos pés. Lembro-me também desse momento exato. Enquanto eu e um assistente o instalamos cuidadosamente sobre uma maca, olho o céu que o incêndio avermelha E juro que vamos salvá-lo.

Pablo está moribundo. As chances de mantê-lo vivo são quase inexistentes. Durante mais de seis meses nós nos revezamos à sua cabeceira, prodigalizando-lhe os cuidados que nos são possíveis.

Entre todos os nossos pacientes, Pablo conserva uma dignidade que chama nossa atenção, e seguimos a lenta evolução de seu estado como se fôssemos seus parentes. Muitos de nossos queimados morrem. Um lençol branco recobre corpos martirizados.

Pablo sobreviverá? Nós o alimentamos com produtos dietéticos destinados a substituir os sais minerais que seu organismo perdeu. E no terceiro mês, tendo seu estado geral progredido, podemos praticar naquele corpo frágil e supliciado, os enxertos autógenos, utilizando as zonas onde a pele ainda está intacta.

Terra de crendices, de superstições e de fé, o Brasil é sensível aos signos e aos presságios. Certa manhã, uma religiosa vem ao meu encontro com seus passos miúdos, toda exaltada. Mãos juntas como para uma prece:

– Pablo vai sobreviver, doutor.

– De onde vem essa sua certeza, irmã?

Suavemente a religiosa entreabre a porta. Sobre o parapeito da janela, como a contemplar Pablo adormecido, uma pomba branca permanece imóvel.

– Deus a enviou para anunciar a sua cura! – murmura a religiosa.

Deus ou nossos cuidados? Ou Deus e nossos cuidados? Pablo se cura. Cresce. Seu corpo guarda cicatrizes do passado”.

O cirurgião Ivo Pitanguy embelezou a humanidade.

One thought on “Um homem da vida, que embelezou a humanidade

  1. Conheci Dr. Ivo Pitanguy em 1990. Ele tinha 62 anos e era candidato a uma cadeira na ABL. Aceitou me receber para uma entrevista em sua clínica na Rua Dona Mariana, em Botafogo, decorada com as cores de sua preferência: pastel, musgo, tonalidades do vermelho discreto.

    Comecei meu texto assim: “A palavra doutor costuma ser encarada como uma qualidade, digamos, social. “Fulano é doutor”. No mineiro de Diamantina (há controvérsias), Ivo Pitanguy, esse nome se despe da conotação mundana para assumir, antes de tudo, o sentido de douto, o sábio, aquele que aprendeu muito, sobretudo com a vida”. Era o que ele era, foi todo o tempo.

    Gostava de curtir a vida. Tanto que não subestimou, não pensou em recusar a indicação à vaga do Senador Luís Viana Filho na ABL.

    Como provocação, argumentei que não era fácil imaginá-lo tomando chá com bolinhos. Dr. Pitanguy disse que os acadêmicos da ABL apreciavam reunir entre seus pares pessoas que exercessem uma atividade criadora intensa e não apenas os literatos puros. Chamou de muito estimulante o convívio intenso com pessoas cultas, de outros campos de trabalho que não o dele. “Depois, pode-se chegar lá e tomar uísque”, divertiu-se o médico, que acreditava em Deus tal como o pai, o também cirurgião-geral Antonio de Campos Pitanguy, que acalmaria a ânsia de felicidade futura do filho com um pensamento extraído da teoria do pintor Fernand Léger: “Só há felicidade no trabalho”.

    Cultuava a tranquilidade, a filosofia zen e enfatizou que, embora não fosse fácil provar, a emoção atua no campo imunológico do indivíduo. “Pessoas criativas, com pensamento positivo, construtivas são mais capazes de auxiliar um resultado”, afirmou o médico e professor. Que ressaltou: “Isso, em todos os aspectos da atividade humana”.

    Ganhei um livro autografado – Direito à Beleza – fui à Santa Casa no dia seguinte conhecer sua menina dos olhos, a 38ª Enfermaria. Retornei a Botafogo com o médico, no carro dele, dirigido por seu motorista. E nosso contato terminou ali. Mas não a minha boa impressão sobre o Dr. Pitanguy.

    Não revelei na ocasião, mas Dr. Ivo operou um parente meu, também mineiro, que havia feito uma desastrada cirurgia nos rins, em Belo Horizonte.
    O candidato á cirurgia estava no primeiro ano de medicina. Pediu ao Dr. Ivo para disfarçar a feia cicatriz. O renomado cirurgião o encaminhou para a Santa Casa. Mas, como bom mineiro, meu jovem parente, hoje um grande cirurgião, reclamou, queria ser operado na clínica da Rua Dona Mariana. Tudo bem, Dr. Ivo concordou. E não cobrou um tostão. Sequer as ligações telefônicas do Rio para Minas.

    Que Deus tenha Dr. Pitanguy em bom lugar.

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