Um Homem de Verdade

Sebastião Nery

O Conselho Permanente da Auditoria da 6ª Região Militar da Bahia, em Salvador, estava reunido para julgá-lo, depois do golpe de 64. Alguns oficiais e dois civis: o auditor, doutor Amílcar, e o promotor, dr. Antonio Brandão. Sentado no banco de réu, ele não quis ser defendido por advogado. Seu advogado seria ele mesmo, também advogado.

O promotor, já conhecido como exaltado, começou a denúncia:

– Sei que ele não é comunista. Sei que foi um bom administrador. Mas sei que se cercou de muitos comunistas. Sei que foi um inocente útil dos comunistas.

Ele foi se irritando, mas ficou calado. O promotor continuou:

– Na verdade, ele era mesmo um oportunista político.

Não aguentou. Levantou-se, apontou o dedo para o promotor e gritou:

– Oportunista político é a puta que lhe pariu.

Foi a maior confusão. O promotor quis sair no braço. No final, depois de um longo discurso dele, defendendo-se, foi absolvido. O promotor recorreu e o Superior Tribunal Militar confirmou a absolvição.

Ele era assim. Ele foi assim a vida inteira. Um homem de verdade.

***
FRANCISCO PINTO

Esta história, nos mínimos detalhes, está no livro “Autênticos do MDB – Semeadores da democracia”, da pesquisadora e historiadora Ana Beatriz Nader (Editora Paz e Terra, 1998, páginas 139 a 193).

Em 2008, a Bahia enterrou Francisco Pinto em Feira de Santana, sua cidade. Se uma cidade tem o direito de guardar o corpo de um filho, que foi um homem de verdade, não terá mais do que Feira de Santana.

Em 1964, pelo País inteiro, de norte a sul, o Congresso Nacional, as Assembléias Legislativas, as Câmaras de Vereadores, encurraladas, cercadas e coagidas pelo golpe e pelas tropas militares, cederam, cassaram, derrubaram governadores, senadores, deputados, prefeitos, vereadores.

Só uma, exclusivamente uma, a Câmara de Vereadores de Feira de Santana, resistiu, não se entregou e se negou até o fim a cassar seu prefeito, Francisco Pinto. O Exército e a Polícia Militar invadiram a prefeitura, prenderam-no e o levaram para o Forte do Barbalho, em Salvador, uma masmorra construída entre os séculos 16 e 17, onde já estávamos presos os deputados Mario Lima e eu, o prefeito Pedral Sampaio, de Vitória da Conquista, e outros, professores, jornalistas e líderes sindicais e estudantis.

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FEIRA DE SANTANA

Ele mesmo contou:

1 – “As tropas do Exército, sob o comando do major Helvio Moreira, chegaram em Feira e se alojaram em um armazém de fumo e me prenderam. Enquanto encontrava-me preso no porão do quartel da Polícia Militar de Feira, o major convocou a Câmara de Vereadores para votar meu impeachment. Os vereadores foram conduzidos por soldados e a Câmara cercada. No seu próprio plenário, os vereadores tiveram as metralhadoras apontadas contra eles, a fim de aterrorizá-los”.

2 – “Em determinado momento, as luzes se apagaram no plenário, os vereadores aliados atiraram-se ao chão, protegendo-se de um possível atentado. A votação, que deveria ser secreta, foi aberta e, apesar de tudo, não conseguiram os dois terços necessários para me destituir. Encerrada a sessão, prenderam o vereador-sargento Aranha por desobediência à ordem do seu superior, pois votou contra o impeachment. Conduziram-no para Salvador, onde ficou preso por 30 dias”.

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A RESISTÊNCIA

3 – “Convocaram nova reunião da Câmara, com o suplente do vereador preso. As mulheres dos vereadores deram uma lição extraordinária de coragem, dizendo aos maridos que preferiam vê-los presos a votarem pela minha destituição. O aparato militar aumentou. O resultado da votação porém não mudou. Ao contrário, ganhamos mais um voto de um companheiro que fraquejou na primeira votação. Diante do impasse, os oficiais decidiram decretar por sua conta o impeachment”.

4 – “Não conheço no Brasil um caso idêntico de bravura e lealdade como o da Câmara de Vereadores de Feira de Santana. Em Salvador, por exemplo, o seu prefeito Virgildásio Sena só tinha dois vereadores na oposição. Na hora de votar seu impedimento, porém, apenas dois votaram contra”. (Um deles até hoje aí para contar a história, o bravo Luiz Leal.

Na Assembléia Legislativa, os deputados agiram da mesma forma: acovardados diante do cerco militar, cassaram imediatamente os mandatos dos deputados Enio Mendes, Diógenes Ferroviário e o meu).

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PINOCHET

Quando Francisco Pinto morreu, a imprensa relembrou seu histórico discurso, na Câmara, no dia 14 de março de 74, denunciando a presença do ditador Pinochet, do Chile, que veio para a posse de Geisel. O Supremo Tribunal o condenou à perda do mandato e a seis meses de prisão, por “ofensa a chefe de Estado”.

Poucos dias antes de morrer, no hospital de Salvador, onde já se sabia desenganado, recebendo a visita dos ex-deputados Mario Lima, Helio Duque e eu,  ele relembrava sua vida política e insistia na necesssidade de todos, sempre, continuarmos a luta por um país melhor, mais soberano e mais justo.

Começou cedo. Nascido em abril de 30, aos 20 anos, em 50, já participava das lutas estudantis na Faculdade de Direito e era vereador de Feira de Santana. Prefeito em 62, fez uma administração revolucionária. Em 70, chegou deputado à Câmara e foi o principal criador e líder do Grupo dos Autênticos, que levou o MDB a fazer oposição de verdade. Francisco Pinto era um Homem de Verdade.

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