Um homem do poder

Sebastião Nery

“Em 1965, participei da vitoriosa campanha de Francisco Negrão de Lima ao governo do Rio. Além de me ligar a um brasileiro notável, exemplar, aprendi a conviver com pessoas de pensamento diferente do meu, a respeitar e fazer de muitos deles amigos para toda a vida, como Yara Vargas, Fabiano Vilanova, Carlos Chagas, Sérgio Guimarães, Hércules Correa”.

“Negrão foi apoiado pelas forças janguistas e por toda a esquerda, mas era homem de centro, do PSD, que manteve as melhores relações com os presidentes militares Castelo Branco, Costa e Silva e Médici, ao longo de seu mandato. Com grandes ganhos para o Rio de Janeiro. Ele e Lacerda, seu adversário, foram os dois melhores gestores do Estado da Guanabara”.

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BRIZOLA

“Curioso é que a carta de apoio de Leonel Brizola a Negrão foi a ele levada por mim, numa noite, na semana da disputada eleição. É que eu era muito amigo, numa relação de intenso carinho, da doce Nelma Correa Quadros, que veio a ser a famosa “Nelminha do Pasquim”, que tinha uma amizade especial, digamos, com o caudilho”.

“Ela foi a portadora e eu fui ao velho Galeão buscá-la de sua viagem a Montevideu. De lá, fomos direto à casa de Negrão. Ele abriu, leu e nos disse:

– “Pelo horário, não vamos telefonar para ninguém e seremos os únicos a dormir sabendo que a vitória agora está garantida. Boa noite, obrigado”.

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ARISTOTELES

Essa surpreendente, autentica e primorosa historia é contada por um homem do poder, pelo poder, para o poder, o jornalista Aristoteles Drummond, que escreveu um livro imperdivel – “Um Conservador Integral” (Editora Armazem de Ideias, Belo Horizonte), que poderia chamar-se “Um Conservador e Conversador Integral – 1964, Antes, Durante e Depois”.

A bela noite, com inexaurivel fila de amigos e fãs, que esperamos horas por um autografo nas centenas de exemplares, foi em local muito apropriado: o belo, bem cuidado, secular, outrora ameaçador e agora inofensivo Forte de Copacabana, cercado de aposentados canhões e do mar azul do Rio.

Brizola, perseguido, cassado e caçado, exilado, apenas um ano depois do golpe militar decidiu a eleição no Rio, derrotando o guru, mentor e autor intelectual do golpe, Carlos Lacerda, e seu candidato Flexa Ribeiro.

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ITAMAR

E há muitas outras memoraveis historias, muito interessantes.

– “Em fevereiro de 1993, quando eu era diretor da Light (desde Figueiredo, com breve interrupção no início do governo Sarney), Itamar Franco, então presidente da República, resolveu colocar na presidência da empresa o general Ângelo Barata, que estava passando para a reserva”.

“Naquela semana, segui para Lisboa, onde ficaria até o aniversário de José Aparecido, que era embaixador em Portugal, mas estava no Brasil. Meu dedicado assessor, Alberto Muller, telefonou e me informou que a Assembleia Geral (da Light) estava em aberto e circulavam rumores de que eu poderia deixar de ser diretor da Light. Telefonei a PCO (o experiente e competente jornalista mineiro Paulo Cesar de Oliveira) que soube por José de Castro que, realmente, havia tido problemas, mas que estava resolvido”.

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O GENERAL

“Na verdade, uma bem urdida intriga havia levado o general – que, teoricamente, deveria me prestigiar por toda uma vida de exaltação aos militares – a vetar minha permanência na diretoria, “pois estava lá havia muito tempo e ele não teria o controle com minha presença ali”. Uma bobagem! Depois, alegou que precisava do cargo para um coronel amigo”.

“Eliseu Rezende , que presidia a Eletrobrás, contemporizou, sugerindo que eu passasse para a Diretoria Financeira, que era, normalmente, de um indicado pela holding. O general, então, explicitou o veto. José de Castro (Consultor Geral da Republina no governo Itamar Franco) e José Aparecido deram a reunião, na sala de Itamar (no palacio do Planalto), por encerrada”.

“Retiraram o general do gabinete presidencial e ficaram de lhe dar notícia posterior (com a publicação de sua nomeação no Diario Oficial) que, segundo sei, aguarda até hoje. Homem de outras qualidades, Joaquim MacDowell permaneceu no cargo até a privatização. Naquele 17 de fevereiro, comemoramos em Lisboa o aniversário do Zé e a nossa vitoria”

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1964

Bisneto da rua, da grande avenida de Belo Horizonte Augusto de Lima, presidente de Minas em 1891 e da Academia Brasileira de Letras, neto do historiador Augusto de Lima Junior, Aristoteles carrega a historia no sangue. A historia e o gosto, o sabor do poder. Não conheço ninguem que mais ardorosamente defenda e cultive o golpe militar de 1964 e seus ditadores.

Em 1962, com 18 anos, já presidia o GAP (Grupo de Ação Patriotica), um CCC (Comando de Caça aos Comunistas), para os pirralhos estudantes secundários. Em março de 64 conseguiu dois onibus para levar um comboio de ginasianos para a passeata das malamadas do padre Peyton, a Marcha da Família, em São Paulo. Onibus de Paulo Suplicy, pai do senador Suplicy.

Leiam o livro do Aristoteles. É ele inteiro, grafitado.

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