Um jardim zoolgico s avessas

Carlos Chagas

Com o Congresso e os tribunais superiores em recesso, mais do presidente Lula empenhado em recompor diversas obras do PAC que no saram do papel, abre-se excepcional oportunidade para anlise das questes ligadas ao Brasil real, estando de frias o Brasil formal.

O que mais atormenta a populao, hoje, conforme as pesquisas? No o castelo do deputado, nem as lambanas acontecidas no Senado, muito menos a CPI da Potrobrs, sequer as agruras da famlia Sarney. Tudo isso pode esperar por agosto, como at para mais tarde saber se Dilma Rousseff vai decolar, se Jos Serra bater Acio Neves, ou se o ministrio ser reformado este ano ou no prximo.

Muito mais agudo verificar que Executivo, Legislativo e Judicirio no desataram nem vo desatar o n da segurana pblica. A cada dia que passa aumentam a violncia, a criminalidade, os assaltos, latrocnios, seqestros, a pedofilia, o trfico de drogas e a transformao do cidado comum em prisioneiro de sua prpria casa, quando consegue mant-la intocada.

Algo precisa ser feito, mas ningum faz. Sequer as chamadas entidades da sociedade civil animam-se a encarar a questo. Nas grandes cidades e no interior contam-se nos dedos de uma s mo aqueles que ainda no sofreram ou no tiveram parentes, vizinhos e amigos expostos sanha da bandidagem. Sucedem-se os horrores,os assassinatos, as balas perdidas e as tragdias como se fossem pandemias incontrolveis.

Fica para outro dia discutir se essas prticas devem-se m distribuio de renda, ao desemprego crescente, carncia de prises ou precariedade das escolas. Como, tambm, falta de uma legislao apropriada, morosidade da Justia ou impotncia do aparelho policial. A verdade que o pas virou um jardim zoolgico s avessas, onde os animais esto solta e ns, na jaula. Sair rua tornou-se perigosa aventura. Fazer o qu?

Primeiro teste internacional

Viajou para os Estados Unidos, sbado, a ministra Dilma Rousseff. o seu primeiro teste isolado, sem estar acompanhando o presidente Lula. Saber como est[a sendo recebida pela autoridades locais e pela imprensa equivale quelas expedies de sculos atrs, que saiam do litoral para desbravar o interior. claro que a candidata no enfrentar tribos indgenas, muito pelo contrrio,mas seria bom que se fosse acostumando s surpresas geradas pelo desconhecido. Iro entrevist-la como a nova governante do Brasil? Daro de ombros, jornalistas e funcionrios americanos esperando para ver confirmadas mais tarde as previses que nem aqui parecem unnimes? Dona Dilma precisa de pacincia, caso desta primeira vez sua presena no tenha empolgado a matriz. Talvez tivesse sido melhor esperar um pouco.

Todo cuidado pouco

Em plenas frias parlamentares, quantos deputados e senadores tero ou estaro viajando para o exterior? Vale a ressalva de que no crime visitar a Europa, os Estados Unidos e alhures, muito pelo contrrio. Dificilmente a gente deixa de alimentar a cultura, os conhecimentos e a experincia. O problema saber se muitos viajantes esto arcando com as prprias despesas, e de seus familiares, ou desembarcam no estrangeiro com passagens e estadia paga por outros. No caso, entidades e governos que convidam ou, mais perigoso ainda, com recursos da Cmara e do Senado.

Ao parece fcil a tarefa de pesquisar as vilegiaturas, valendo incluir nelas, tambm, os vos de ministros dos tribunais superiores. Todo mundo tem o direito de usufruir de suas frias como bem, entende, desde que, claro, exista dinheiro. Mas no seria nada bom se os resultados indicassem boa parte de Suas Excelncias flanando pelo mundo. A situao atpica, no Congresso, desde o comeo do ano. Melhor fariam os parlamentares se, enfurnados em seus estados, estivessem fazendo exames de conscincia, retiros espirituais ou meditando a respeito de que iniciativas tomaro em agosto para recompor a imagem de suas instituies. Bem faz o senador Jos Sarney enclausurado na Ilha do Curup, prxima de So Lus, onde s se chega de canoa e s se come peixe.

Prevalece o bom-senso

O presidente Lula e o presidente Fernando Lugo, do Paraguai, tem encontro marcado para o fim de semana. Anunciam auxiliares palacianos que o Brasil cedeu e vai autorizar nossos vizinhos a venderem o excedente de energia que recebem de Itaipu, alis, de graa. Apenas com a ressalva de s poderem vencer seus quilowates extras para empresas brasileiras, o que j acontecia, apenas com a presena da Eletrobrs no balco, gerenciando a compra e venda e fixando preos. Agora, empresas privadas nacionais podero candidatar-se a adquirir a energia que nem vai e volta, porque fica aqui mesmo, do nosso lado. Foi uma concesso do presidente Lula a seu camarada, gesto de boa vontade capaz de carrear alguns dlares a mais para nossos vizinhos. E garantir para que fique em nossas fronteiras a mais barata e limpa fora geradora do desenvolvimento. Vamos reconhecer, ponto para o Brasil. E para o Paraguai.

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