Um liquidante para a massa falida brasileira

Vittorio Medioli

As manifestações de rua cresceram e crescem à medida que engrossa o contingente de incomodados com a decadência moral, e de consequências institucionais e econômicas, do país. Assustaram-se os governantes, cresceu o medo de ser arrancados à força ou deixados sem outra saída que não seja a renúncia.

No disposto da Constituição de 1988, é prevista a cassação de mandato presidencial, como aconteceu em 1992 com Fernando Collor, determinada pela maioria qualificada da Câmara dos Deputados e do Senado. Não é prevista outra fórmula. Cabe eventualmente ao governante unilateralmente renunciar, caso não tenha mais condições, como renunciou Fernando Collor antecipando-se à votação do Senado, depois de ter perdido amplamente na Câmara.

Uma revolta popular, uma desobediência civil que quebre a governabilidade, poderia ser outra hipótese não prevista. Pode-se imaginar um movimento de “legítima defesa” do interesse maior da nação quando o Parlamento não respondesse ao clamor das ruas. No caso Collor, o Parlamento se moveu pressionado pelas manifestações. Em seguida, emparedado, optou pela cabeça do presidente antes que rolassem aquelas dos parlamentares.

Diferentemente de Collor, Dilma tem um partido que ainda está fechado com ela. É admissível, entretanto, que o constrangimento insurgente de uma prolongada e extenuante paralisação da normalidade nacional, provavelmente dos principais aeroportos, vias, portos etc., associada a uma clássica gota d’água – como foi a compra de um carro Fiat Elba por Collor, pago com cheque irregular –, leve Dilma ao desespero. Caso a hipótese Lula faça vislumbrar ao PT a permanência no poder, realmente Dilma seria fritada. Resta ver como, sem fritar o próprio PT e qualquer candidatura que ele possa vir a lançar. O pragmatismo ainda poderia levar o PT a apoiar um “cristão-novo”, que lhe garantisse seu quinhão, não tão amplo mas expressivo.

RENÚNCIA

No presidencialismo, a população, revoltada com a atuação do governo e dos Poderes, poderia forçar a renúncia usando a força da desobediência e da quebra da normalidade. Nesse caso, o presidente, abandonado e esvaziado, de fato, de sua autoridade, poderia se sentir instado à renúncia, deixando, em linha sucessória, suas funções ao vice-presidente, nesse caso, Michel Temer. Em seguida e por ordem, se apresentariam habilitados o presidente da Câmara, Henrique Alves, o presidente do Senado, Renan Calheiros, e, se nenhum desses atendesse o clamor das ruas, em último lugar, a Constituição reserva o cargo ao presidente do STF, Joaquim Barbosa.

Ninguém ousa dizer isso, mas a constante lembrança do relator do processo do mensalão como candidato à Presidência da República, em 2014, se apresenta agora como uma remota brecha constitucional, nada convencional, para ir adiante em caso de impasse total. Para tanto, bastaria que quem o precede abdicasse de seu direito sucessório, obviamente forçado pelo clamor das ruas, por movimento com ímpeto “revolucionário”.

Essa hipótese faz gelar o sangue nas veias da quase totalidade dos políticos, entretanto é uma hipótese que um caos emergente deixará na mesa de discussão.

“Golpe”? Quem está no poder certamente dará a essa saída a conotação de subversiva, mas uma eventual decisão, em agosto do STF, favorável ao abrandamento de pena dos condenados do mensalão pode ser a gota a transbordar a paciência da nação, que começou e ainda terá que pesar a inutilidade de 39 ministérios, centenas de embaixadas em paraísos tropicais, aparelhamento de estatais, inchaço da máquina pública, aumento acintoso e descabido de despesas e custeios, super e hipersalários, privilégios e mordomias, burocracia corrosiva, num conjunto de irritantes situações que se chocam com a extrema pobreza, a indecente qualidade dos serviços públicos e da estrutura viária do país. E quem, em dez anos, não se incomodou de conviver com tantos absurdos passa a ser visto como desabilitado a fornecer alternativas.

INTOLERÂNCIA

Pesa, ainda, severamente no prato da intolerância de um contingente que cresce entre a população a inversão de prioridades de um governo perdulário convicto, preocupado com obras faraônicas e sem qualquer utilidade: trem-bala, transposição, estádios para Copa. Exatamente o que começa a ser enxergado como fator de abandono de metrôs, rodovias, ferrovias, redes hospitalar e educacional.

Enquanto se ergueram 12 estádios bilionários, o programa de 6.000 creches, cada uma de R$ 1,4 milhão, não alcançou uma dezena de realizações em 30 meses.

A rejeição a Dilma pode piorar ainda, entendendo-se a proposta de plebiscito como uma tentativa de sair pela tangente, de repautar, num campo insosso e frívolo, a resposta ao clamor por justiça, diminuição de gastos e adequação de prioridades. Dilma, refém de seus erros passados, da falta de autonomia em relação aos caprichos de quem a rodeia, arrisca ser entendida como surda ao clamor da sociedade, que já não é mais minoritária e impotente.

Daqui para frente, o processo de digestão dos eventos poderá deixar mais claros os problemas, que não dependem tanto do sistema político, nem de leis ou de regras em vigor, mas da péssima qualidade dos agentes políticos que ocupam o poder e ainda se esbaldam de impunidade e irresponsabilidade. Talvez pela primeira vez nos últimos dez anos estejam convergindo a sensação de inconformismo do cidadão intelectualizado e a do não intelectualizado, ambos ameaçados por um sistema desequilibrado e, em muitos aspectos, injusto.

Caso a governabilidade de Dilma seja colocada em xeque, apresenta-se a hipótese, ainda remota, de se convocar um liquidante judicial da massa falida brasileira, durante um hiato necessário à recuperação.

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11 thoughts on “Um liquidante para a massa falida brasileira

  1. Só aparece suspeitas de desvios na adminitração Ségio Cabral. Assim não tem povo que aguente!

    “As suspeitas sobre licitações de R$ 1,2 bilhão no Rio
    Um vencedor antecipado por ÉPOCA, em anúncio de jornal, e indícios de sobrepreço lançam suspeitas sobre licitações de R$ 1,2 bilhão no Rio”

    http://epoca.globo.com/?ver=http://epoca.globo.com//tempo/noticia/2013/07/suspeitas-sobre-licitacoes-de-br-12-bilhaob-no-rio.html

  2. O mínimo que se pode dizer do autor do artigo é que é um idiota, mas acho que na verdade é um mal intencionado mesmo, traidor da pátria podre e vil, aventando hipóteses absurdas como essa. A cada dia dói mais ler a TI, não sei mais o que ela é, o Sr. Carlos Newton simplesmente acabou com ela.

  3. Sr César:
    Enaltece só se for de golpismo, más intenções e traição à pátria. Hj somos uma democracia consolidada, não venha com idiotices. Respeite as urnas, a presidente foi eleita democraticamente!

  4. Ótimo artigo!

    Carregado de polêmicas suposições. Mas o nosso país realmente está precisando de “boas sacudidas”. Afinal estamos nos afundando cada vez mais em problemas de infraestrutura, corrupção, violência urbana generalizada, imoralidades nas administrações públicas e na política, dentre muitos outros.

    E quanto mais para dentro do buraco, maiores serão as crises na governabilidade.

  5. Somos uma democracia consolidada?Com este governo do PT, que flerta com os países ditatoriais, que anistia dividas com os africanos da mesma laia, que foi desmoralizado quando se curvou ao ditador da Bolívia e tantos outros.
    Será que o cartão vermelho dado ao Collor foi golpe?Não meu amigo, não me faça ri.

    PS:. Vamos debater os temas, mas, sem ofensa,ok?

  6. César, deixe de ser amestrado dos jornalecos brasileiros, Evo Morales, Rafael Correa e Maduro foram eleitos pelo seu povo, não tomaram o poder a força, assim, a última coisa que são é ditadores. E Maduro quase perdeu a eleição, o que tb seria normal. Existe alguma lei internacional que proíba algum país de ser de esquerda, de ter uma visão diferente da conjuntura internacional? Todos os países tem de agir de forma igual? Todos tem de ser Pró-EUA?
    E não, claro que a deposição de Collor foi legítima, pq observada a Constituição. Agora o que o articulista (?) coloca é que deve-se forçar uma situação, ou seja, não conseguimos ganhar nas urnas, então vamos embolar tudo para ver se dá para tirar ela de lá. É isso. Para mim está tão claro que não dá nem para discutir…

  7. O MELHOR ESTÁ POR VIR é nosso, é do Brasil. Obama, sem-vergonha, copiou essa frase da RPL. Tio Sam Espião, CIA, nazi-fascistas e mercenários luso-tupiniquins tentaram golpear o Brasil, usando como massa de manobra grande parte da nossa juventude brasileira como inocentes úteis, enganando-a como tentam enganar a todos o tempo todo, e se deram mal, quebraram a cara, a casa caiu. Aleluia. Alvíssaras. Parabéns ao Requião, pela sua fala no senado em relação à espionagem. Há vida inteligente no Planeta Brasil. Paticipei do site, OP (Observador Político), do IFHC, que me parecia um pesqueiro de idéias, tendências, opiniões e projetos, e alí me senti o tempo todo espionado por agentes da CIA e até do nazi-fascismo nacional, mascarados, que faziam tabelinha, como se estivesse tudo orquestrado, com os quais bati de frente e pelos quais fui muito ofendido e muito hostilizado face às minhas idéias, opiniões e projetos independentes para o Brasil e América do Sul, e cheguei a revelar lá mesmo isso que estou dizendo aqui e agora, onde afirmei tb que a Internet passou a ser o mais eficaz instrumento da espionagem norte-americana. E resisti às pancadarias lá no OP até o fim para ver até onde pretendiam ir, e chegaram até a época dos protestos nas ruas, mês em que congelaram o site. E tem mais, em defesa dos nossos projetos em contraponto ao continuismo da mesmice da situação, da oposisão e do golpismo, liguei ao nosso Megaprojeto, RPL-PNBC-ME, a expressão, “O MELHOR ESTÁ POR VIR”, que depois que a usamos na rede, Obama a repetiu em sua campanha à reeleição. Está tudo registrado na rede, cronologicamente, onde cansei de dizer que estávamos sendo espionados. E em junho, só os completamente alienados não perceberam que a CIA, o nazi-fascismo nacional e seus tentáculos (mascarados), inclusive midiáticos, estiveram de mãos dadas nas ruas do Brasil, promovendo o caos, a confusão, aproveitando-se do impulso do MPL, camuflados em meio ao rosto e à ingenuidade da juventude, que, em grande parte, infelizmente, entrou de gaiata no navio do golpismo, fato esse que denunciamos à exaustão simultaneamente aos acontecimentos, inclusive aqui, denúncias que fizemos à título de alerta máximo, e que ajudou a desembarcar o MPL da confusão, rapidamente, que acabou entendendo o que estava acontecendo. Em seguida, a crise do Egito, o golpe, e a ascensão do presidente do STF Egípcio à presidência daquele país. E daí, a pergunta que não conseguirão calar: será que a intenção de Obama não era fazer o mesmo no Brasil, em relação a Joaquim Barbosa, tudo orquestrado ?

  8. 14 DE JULHO DE 1789.
    O povo francês foi para as ruas e decretou a Queda da Bastilha!!!
    Liberdade, Igualdade e Fraternidade!!!
    O povo decidiu!!! Nascia a Revolução Francesa!!!
    O Iluminismo pode e vai chegar para o Brasil!!!
    Todos nas ruas em Sete de Setembro!!! Não seremos mais escravizados por ninguém!!! Está nascendo um Novo Brasil!!!!!

  9. Não se lembrou de informar aos leitores que a maioria do congresso é corrupta e não quer mudança nenhuma? Que a presidenta está refém deles? Que somente o povo nas ruas poderão pressiona-los? Que Lula cedeu,quando poderia exigir mudanças – se é que realmente queria – assinando a carta aos brasileiros?
    Dilma jogou contra os poderosos internos e externos, não gosta destes políticos como a maioria da população não gosta, deveria ir para a televisão e expor o jogo sujo e jogar a população contra o congresso de ratos, é sua única saída.

  10. Olha, não sou teleguiado pela mídia.Apenas concordei com o articulista por achar que ele externou o pensamento de milhões de brasileiros.As ruas comprovam.
    Fico por aqui, não gosto de polêmica.
    Abraço.

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