Um país infantilizado rumo ao abismo

Fernando Canzian
Folha

A irresponsabilidade dos atores com poder no Brasil, da presidente da República aos líderes no Congresso, da oposição ao PT a parte do empresariado, nos arrasta a um abismo desconhecido entre os mais jovens. E que os mais velhos, essas lideranças, conhecem bem.

O Brasil caminha para um choque contra um muro sem que a maioria tenha cintos de segurança. O país é pobre. Mas os condutores do processo, suficientemente informados, ricos ou corruptos, querem que se danem uns aos outros. E para o muro vamos.

Dilma demorou dez meses desde que (segundo disse) tomou conhecimento da crise para agir mais incisivamente. Não fosse a perda do grau de investimento há uma semana, é certo que o país continuaria em banho-maria, adiando.

IMPROVISO PUERIL

O pacote apresentado agora para economizar R$ 65 bilhões a fim de pagar juros da dívida pública e conter seu aumento é de um improviso pueril. É algo assustador para o nono mês de um governo em xeque-mate desde o seu início.

A reação do líder do Congresso Eduardo Cunha não é menos infantil. Se o novo imposto sobre transações financeiras não passa, o que passaria? Uma reforma ampla da Previdência e das regras do funcionalismo? Isso demandaria meses. Mas nem isso o governo apresentou.

Já os empresários, que se imiscuíram com a “nova matriz econômica” e seus privilégios, lavam as mãos e dizem não a impostos. Querem cortes antes, que dependem do Congresso, que depende de um projeto crível do Executivo, que depende de apoio político.

UM NOVO BANANAL

O Brasil emergente volta ao Terceiro Mundo e vai se tornando irrelevante e um bananal para quem nos vê de fora. Se vier o impeachment, passaremos a algo pitoresco.

O natimorto “plano de ajuste” de Dilma e a infantilidade de nosso comando político vai deixando poucas opções.

 

Se não puder aumentar impostos ou mudar pontos sensíveis da Constituição, restará ao governo cortar mais fundo programas sociais como Fies, Pronatec, ProUni, Minha Casa Minha Vida e outros benefícios não-constitucionais (Bolsa Família? R$ 25 bi/ano) e os investimentos em infraestrutura/PAC.

Seria uma tragédia, com grande rebuliço social. No caso dos investimentos, adiaria ainda mais a recuperação.

Mas resolveria parte do problema fiscal no curto prazo, até que as crianças briguentas se entendam e aprovem medidas constitucionais para o médio e longo prazos. É isso o que queremos?

INFLAÇÃO À SOLTA

Sem uma trajetória de aumento de receitas (via impostos) ou corte de gastos (via aprovação no Congresso), o grande risco é a inflação correr solta mais à frente.

Segundo projeções do FMI, nosso deficit nominal neste ano (8% do PIB) só será menor do que o de países como Iraque, Eritreia e República do Djibuti. A história mostra que há uma relação inexorável entre o aumento do deficit e o descontrole inflacionário.

8 thoughts on “Um país infantilizado rumo ao abismo

  1. Caro CN … Boa noite!

    Alguns ainda encontram dificuldades no entender o PMDB; principalmente o que está acontecendo na Câmara dos Deputados, que elegeu Eduardo Cunha, PMDB-RJ (267 votos) em vez de Arlindo Chinaglia, PT-SP (136 votos) … sendo que Júlio Delgado (PSB-MG), candidato da oposição, teve 100 votos e Chico Alencar (PSOL-RJ), 8 votos. Houve dois votos em branco.

    Procuremos entender a infantilidade de Eduardo Cunha kkk KKK kkk
    1 – http://portaleduardocunha.com.br/governo-n%C3%A3o-est%C3%A1-promovendo-cortes-necess%C3%A1rios-para-ajustar-contas-p%C3%BAblicas-alerta-eduardo-cunha com: “IMPRENSA — Presidente, o senhor tem feito críticas ao pacote do governo… como o senhor avalia que será essa solução?

    EDUARDO CUNHA — É um conjunto. Primeiro passo do conjunto era o governo equilibrar suas contas com cortes de gastos e não com criação de impostos, não com transferência de despesas. O governo começa a ganhar credibilidade na hora em que ele corta efetivamente os seus gastos e nesse pacote de 66 bilhões de reais tem apenas 2 bilhões de reais de corte. E desses 2 bilhões, 200 milhões estão sendo anunciados pela redução de 10 ministérios. Ora, se aqui, na Câmara, num universo muito menos condizente de mão de obra, cortando apenas hora extra, consegui ter uma economia de 80 milhões por ano, como que cortar dez ministérios e todas as suas assessorias vai economizar apenas 200 milhões por ano?! Então, não estão cortando nada. O governo precisa fazer a sua parte e ele vai começar a ganhar por recuperar a confiança dos agentes econômicos quando mostrar que realmente tem o controle das suas contas. Ter a sua ação e não com o aumento de carga tributária ou com artifício de transferir despesa para terceiros.”

  2. 2 – http://portaleduardocunha.com.br/eduardo-cunha-prop%C3%B5e-que-recursos-repatriados-sejam-distribu%C3%ADdos-estados-e-munic%C3%ADpios com: “Eduardo Cunha propõe que recursos repatriados sejam distribuídos a estados e municípios
    ‘Esse é um caminho de ajudá-los em 2016’, diz presidente da Câmara para quem a União simula cortes com verbas que deveriam ser destinadas a estados e municípios. ‘75% dos R$ 36 bi que anunciam de cortes, é dinheiro de terceiros’, avalia
    BRASÍLIA — Se a situação econômica está feia para a União, o que dizer então sobre estados e municípios. Para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que hoje, 16, recebeu vários governadores, se a União perde arrecadação, os estados perdem ainda mais intensamente, e com um agravante: “Os estados não podem se endividar, não podem emitir títulos, não podem nada”, disse Cunha.
    Caso vingue no Congresso proposta que prevê repatriação de recursos no exterior não declarados à Receita Federal, o presidente da Câmara propôs que todo o recurso da repatriação fique para estados e municípios. “Esse é um caminho de ajudá-los em 2016.”
    O Planalto — frisou Cunha — transfere para terceiros, no caso estados e municípios, o que não consegue cortar na estrutura governamental. Ou seja, cortam-se verbas que deveria atender governadores e prefeitos e o tais “cortes“ caem na conta de um esforço disfarçado do governo. “Foi o que eu disse aquele dia, 75% dos R$ 36 bilhões que eles anunciam de cortes, é dinheiro de terceiros. Mesmo o Minha Casa Minha Vida, que está tirando do Tesouro e botando no FGTS, ele [o governo] está tirando de todos os trabalhadores que contribuem com o FGTS. Não é dinheiro que ele está economizando, nem tirando de lugar nenhum.”
    Para o presidente da Câmara, o governo precisa resolver o impasse sobre seu déficit independente do Congresso, apenas com sua parte da discricionariedade do seu orçamento. “Ele [governo] pode propor aqui [na Câmara] aumento de arrecadação, mas não somos nós [da Câmara] que devemos resolver o déficit do governo. Se a União coloca apenas R$ 2 bilhões de despesa discricionária, dizendo que R$ 200 milhões são pela redução de ministérios, só a redução de horas extras feita por nós, aqui na Câmara, vai dar R$ 80 milhões ano. Quarenta por cento do corte de ministérios em seu custeio equivale ao corte de horas extras da Câmara? É uma situação que a gente tem que ver. Que o governo não está fazendo o seu sacrifício. O governo não está cortando suas despesas.”
    Quanto à CPMF ser votada ainda esta ano, Cunha foi enfático:  “Acho que está fadada a derrota fragorosa, porém, se chegar a ponto de votar, não vou obstruir”.”

  3. Caro CN … vejamos agora o que diz o Vice Temer em http://pmdb.org.br/noticias/temer-diz-que-vai-ouvir-pmdb-parlamentares-e-dilma-rousseff-sobre-cpmf/: “Temer diz que vai ouvir PMDB, parlamentares e Dilma Rousseff sobre CPMF … Agência Brasil … 18 de setembro de 2015
    Brasília (DF) – O vice-presidente Michel Temer (SP) disse nesta quinta-feira (17) que vai ouvir a posição do seu partido, o PMDB, e a posição do Congresso, além de conversar com a presidenta Dilma Rousseff, a respeito da proposta de uma nova Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), com alíquota de 0,2%, anunciada como uma das medidas para reequilibrar as contas públicas.
    No último dia 31, Temer afirmou, durante palestra no Fórum Exame, na capital paulista, que o governo tinha abandonado a ideia de implantação da CPMF. Segundo Temer, a ideia foi discutida “de última hora”, e “muitas vozes” se levantaram contra. “Precisamos preparar o ambiente, ou teremos derrotas fragorosas no Congresso. O que a sociedade não aplaude é o retorno repentino da CPMF”, declarou, na ocasião.
    Para ele, é importante haver “boa vontade” para a aprovação do pacote de medidas econômicas anunciado pelo governo no início da semana.
    As medidas propostas para o ajuste de R$ 64,9 bilhões no Orçamento de 2016 dependem, em sua maioria, de aprovação do Congresso Nacional. Entre as medidas para elevar a arrecadação e ajudar a fazer superávit primário (economia para pagar os juros da dívida) em 2016, o governo anunciou um corte adicional no valor de R$ 26 bilhões no Orçamento do próximo ano.
    Em seu último dia de viagem, Temer reuniu-se com o presidente polonês, Andrzej Duda, com a primeira-ministra, Ewa Kopacz e com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Grzegorz Schetyna. O vice-presidente também participou da abertura do Foro Empresarial Brasil-Polônia. Temer e ministros iniciaram a viagem oficial à Rússia e à Polônia na segunda-feira (14) e cumpriram agenda política e empresarial.
    0 COMENTÁRIOS”

  4. “Se vier o impeachment, passaremos a algo pitoresco.”

    E o impeachment está vindo, sim senhor … vejamos:
    1 – em abril 9, 2015 http://tribunadainternet.com.br/constituicao-obriga-temer-a-atender-ao-convite-de-dilma/#comments termino assim – “A chamada rebelião é porque o PMDB e base aliada estão cansados de acordos não executados. E cadê a redução da máquina pública???”

    E qual o motivo de Temer não ser mais o Articulador??? ??? ???

  5. Vi no site http://www.luizberto.com um proposta interessante para zera o déficit.

    Eis:

    Prezados governantes do nosso Brasil, eis aqui a solução para o déficit de R$ 30 bi do orçamento.
    Solução simples, que não vai aumentar alíquotas dos tributos, nem nos obrigar a ver de novo a CPMF e, o melhor, tudo isso ocorrerá com a ajuda do povo.
    Basta pegar o valor do rombo nas contas do governo e dividir pelos eleitores que votaram no PT… assim:
    R$ 30.000.000.000 / 54.501.118 de eleitores = R$ 550,45.
    Plano em 12 meses: R$ 45,87 direto no boleto
    Plano em 24 meses: R$ 22,93 direto no boleto
    Plano em 36 meses: R$ 15,29 direto no boleto
    Vamos lá, ajude quem você elegeu a sair dessa enrascada!
    Pague sua parte na gastança do governo e seja verdadeiramente um CIDADÃO PETISTA!

  6. Muito bom artigo.

    Só um detalhe, o déficit nominal já ultrapassou os 8%. Já estamos caminhando para um déficit nominal, isto é, as despesas públicas junto com os juros da dívida, estão superando as receitas públicas num volume correspondente a quase 9% do PIB.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *