Um poema que lembra a saga do bandeirante Fernão Dias

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Henriqueta, poeta e catedrática

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

A professora universitária de Literatura e poeta mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985) é considerada pela crítica um dos grandes nomes da lírica modernista. Além da poesia, dedicou-se a ensaios e traduções. Um de seus poemas mais conhecidos é sobre a saga do bandeirante Fernão Dias, conhecido como o “Caçador das Esmeraldas”.

LENDA DAS PEDRAS VERDES
Henriqueta Lisboa

– Fernão Dias, Fernão Dias,
deixa a Uiara dormir!

Tem um sabor secular
ressoando dentro da noite,
a voz monótona do índio.

A Serra Resplandecente
fulge ao luar junto à lagoa.
Pela escada de Jacó
sobem e descem estrelas.

– Ai, Serra Resplandecente,
Lagoa Vupabuçu!
Tantos anos de procura
como é que os hei de perder!

– Fernão Dias, Fernão Dias,
deixa a Uiara dormir!
A vida da tribo está
no grande sono da Uiara.
O grande sono da Uiara
reside nos seus cabelos.
Seus cabelos eram de água,
tornaram-se em pedras verdes.

Voz de raça moribunda
Fernão Dias não escuta.

– Sete anos há que deixei
minha terra e meu sossego
em troca de uma esperança
que é meu respiro e bordão.
Da Serra da Mantiqueira
até o Rio Uaimi,
quantos montes, quantos vales
para descer e subir,
que de sombras e emboscadas
antes do raiar do dia!

Vem de mais longe, profunda,
a voz do índio recordando:

– Nas noites de lua cheia
quando a Uiara cantava
branca e linda, emoldurada
pelas ondas dos cabelos,
mais de um valente guerreiro
por ela se suicidava.
Foi então que Macachera
com prudência soube agir,
mandando Uiara dormisse
velada por sentinelas
um sono igual ao da pedra.

– Vós que velais o seu sono,
desembaraçai as armas!
Ah! esse canto escondido,
essa beleza roubada,
esses cabelos que brilham
com viva luz de esmeraldas!
Ser guerreiro, ser valente,
depois dormir para sempre
nos verdes braços da Uiara!

– Fernão Dias, Fernão Dias!
deixa a Uiara dormir!

2 thoughts on “Um poema que lembra a saga do bandeirante Fernão Dias

  1. Vem, doce morte – Henriqueta Lisboa

    Vem, doce morte. Quando queiras.
    Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
    desfilam pálidos casulos
    e o suspiro das árvores – secreto –
    não é senão prenúncio
    de um delicado acontecimento.

    Quanto queiras. Ao meio-dia, súbito
    espetáculo deslumbrante e inédito
    de rubros panoramas abertos
    ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
    com celeiros refertos e intocados.

    Quando queiras. Presentes as estrelas
    ou já esquivas, na madrugada
    com pássaros despertos, à hora
    em que os campos recolhem as sementes
    e os cristais endurecem de frio.

    Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
    que a teu primeiro sopro cederei distraída
    como um pensamento cortado
    pela visão da lua
    em que acaso – mais alto – refloresça.

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