Um poeta vai à escola nos tempos da palmatória

Ascenso, no Recife antigo

O poeta pernambucano Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira (1895-1965), no poema “Minha Escola”, relembra a escola e a sua infância de sua época, quando o ensino era ministrado na base da palmatória.

MINHA ESCOLA
Ascenso Ferreira

A escola que eu frequentava era cheia de grades como as prisões.
E o meu Mestre, carrancudo como um dicionário;
Complicado como as Matemáticas;
Inacessível como Os Lusíadas de Camões!
À sua porta eu estacava sempre hesitante…
De um lado a vida… – A minha adorável vida de criança:
Pinhões… Papagaios… Carreiras ao sol…
Vôos de trapézio à sombra da mangueira!
Saltos da ingazeira pra dentro do rio…
Jogos de castanhas…
– O meu engenho de barro de fazer mel!
Do outro lado, aquela tortura:
“As armas e os barões assinalados!”
– Quantas orações?
– Qual é o maior rio da China?
– A 2 + 2 A B = quanto?
– Que é curvilíneo, convexo?
– Menino, venha dar sua lição de retórica!
– “Eu começo, atenienses, invocando
a proteção dos deuses do Olimpo
para os destinos da Grécia!”
– Muito bem! Isto é do grande Demóstenes!
– Agora, a de francês:
– “Quand le christianisme avait apparu sur la terre…”
– Basta.
– Hoje temos sabatina…
– O argumento é a bolo!
– Qual é a distância da Terra ao Sol?
– ? !!
– Não sabe? Passe a mão à palmatória!
– Bem, amanhã quero isso de cor…
Felizmente, à boca da noite,
Eu tinha uma velha que me contava histórias…
Lindas histórias do reino da Mãe-d’Água…
E me ensinava a tomar a benção à lua nova.

(Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

2 thoughts on “Um poeta vai à escola nos tempos da palmatória

  1. Acreditem, tenho 63 anos e me lembro que uma vez a professora me contemplou com uma palmatória, não me recordo se um ou dois ou três bolos (isto é, como chamávamos as pancadas na mão) …

    tentando postar por outras vias … tem hacker no pedaço …

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *