Um ponto fora da curva da criminalidade contumaz

Percival Puggina

Quer acesso a recursos públicos para si ou para seu projeto político? Esteja atento ao conselho de Eça de Queiroz em deliciosa crônica de 1871: faça-o numa associação. “Nada há para esses feitos quanto apoiar-se numa associação. A associação inocenta tudo e tudo purifica”. Quanta razão tinha o mestre! Que o digam os promotores de invasões. Numa associação, aplicam-se sobre os autores dos crimes camadas e mais camadas de teflon político e jurídico.

A decisão tomada pelo TCU na última quarta-feira foi, como diria o ministro Roberto Barroso, do STF, um ponto fora da curva. Fugiu à regra. Imediatamente, os membros da associação subiram às tribunas e microfones para defender o governo. Na Assembleia Legislativa gaúcha, um deputado afirmou que as pedaladas fiscais não eram novidade. Já eram praticadas em outros governos. Desceu triunfante da tribuna e ouviu do deputado Marcel Van Hattem que, no autoindulgente senso petista, se um crime não for original, inédito, não é crime…

TERRA SEM LEI

Foram os erros e crimes cometidos ao longo dos últimos 13 anos que, primeiro, proporcionaram a Lula seus anos de Midas e, em seguida, nos precipitaram na crise atual. Agora, em nome do caos que produziram, pedem benevolência para manterem a associação e se preservarem no poder. Ora, o Brasil não pode ser uma terra sem lei.

São as crianças que brincam dizendo que lei é o “malido da lainha”. Isso não serve para adultos, não serve para homens de Estado. Senhores, não podemos deixar o passado no cabide, por mais que convenha à associação. Aliás, não será entre pessoas condenadas pelo próprio passado que vamos encontrar estadistas para nosso futuro.

FATO SUBLIME

As instituições nacionais foram se convertendo, gradualmente, em associações para os fins que Eça ilustrou com seu fino humor. Como consequência, o povo brasileiro – fato sublime – ergueu-se vários degraus acima delas e assumiu a tarefa de pô-las a dançar segundo a música constitucional. O povo fez a bagunçada orquestra sentar e começar a arranhar cordas e resfolegar trompetes e oboés.

Por que sublime? É que essas pessoas, indiferentes aos xingamentos dos que as chamam golpistas, coxinhas, lacerdistas, reacionárias, elitistas, e outros adjetivos menos asseados, arregimentam-se para mobilizar as instituições da república. Irrita-se a associação com essa gente de verde e amarelo, rosto exposto e modos civilizados, com lenço e documentos, que não está a serviço de nenhum bandido, seja de que banda ou bando ideológico for. Aliás, como pode alguém indignar-se quando o povo clama às instituições que cumpram seu dever e elas começam a fazer isso?

One thought on “Um ponto fora da curva da criminalidade contumaz

  1. Brasil, de volta à Caverna de Platão, este comentário de um leitor no blogue Coturno Noturno:
    A vida é bela e curta; por esta razão decidi emigrar. Há 15 anos mudei-me para o primeiro mundo. Foi uma transição difícil pois levei muito tempo para me acostumar com um novo ambiente: custou-me uns….15 minutos, talvez um pouco menos. Foi vivendo num primeiro mundo que eu descobri que o brasileiro, principalmente aquele que não vai com frequencia ao exterior, mudou o seu concceito de “normalidade”. Para os brasileiros, a burocracia brasileira é normal, o trânsito brutal é normal, o arrastão é normal, escolher um restaurante em função de haver um estacionamento seguro é normal, ser achacado pelo fiscal de tributos é normal, procurar ter carro blindado é normal. O Brasil se transformou num lugar impossível de se viver para quem não aceita esse conceito distorcido da normalidade.

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