Um relato de Luiz Ernesto Kawall, sobre o dia 24 de agosto de 1954

José Carlos Werneck

No site da União Brasileira de Escritores, “Espaço do Autor-Crônicas”, o jornalista Gabriel Kawak reproduz texto de Luiz Ernesto Kawall, sobre os acontecimentos do dia 24 de agosto de 1954, dia do suicídio do presidente Getúlio Vargas.

É um relato de quem presenciou aqueles acontecimentos e viveu intensamente os fatos daquela conturbada fase de nossa História. 

***
UM RECADO DE LACERDA

Luiz Ernesto Kawall 

Cinco e meia da manhã…acordo com um telefonema do Rio…era Ruth Alverga, secretária do jornal e do jornalista/diretor Carlos Lacerda:

– O dr. Carlos mandou avisá-lo que o dr. Getúlio se suicidou… Pede que você vá imediatamente à Sucursal da “Tribuna da Imprensa”, aíem São Paulo, retire fotos e documentos que julgar importantes. Haverá reação popular e quebra-quebra em todo país. E mais: hoje é sexta-feira, saia da cidade, esconda-se, pois os lacerdistas serão perseguidos.

Desligo, visto-me num átimo, aviso a Zilda, minha mulher, tomo um táxi, vou à cidade, Praça Ramos de Azevedo, 209, subo ao sétimo andar, retiro um quadro de Lacerda, uns bilhetes, cartas – não me lembro bem -, fecho a Sucursal à chave e volto à Praça, onde já se vê agitação popular, caminhões com populares circulam, alguns policiais fardados, algo no ar, rodinhas.

Vou à Faculdade de Direito, Largo S. Francisco, onde os estudantes de Direito tinham se arregimentado para fazer nesse dia passeata até o Rio para engrossar a campanha, liderada pela UDN, Lacerda etc. pela “renúncia” de Getúlio. A situação social, política, militar estava exacerbada, desde o atentado a Carlos Lacerda, cujo jornal provara que o crime fora encomendado de dentro do Catete, por Gregório Fortunato.

(Tenho todas as “Tribunas da Imprensa” desse mês, do dia do atentado, à crise de renúncia, suicídio de Getúlio, posse de Café Filho).

Bem, nas Arcadas, o ambiente se agitava, oradores acadêmicos falavam defronte à Faculdade, no Pátio, e se ajuntavam maiormente na Sala do Centro Acadêmico XI de Agosto, foco da maior agitação. Encontro o líder Victor Augusto Fasano, presidente do Centro.

– E a passeata ao Rio!? – pergunto.

– Está suspensa, claro!

– E o que é isso em sua maleta, aparecendo? Um calção de banho?

– É… Depois de depor o Getúlio, uma praia ia bem – ri, irônico.

Burburinho na sala, uns 100 estudantes debatem, ouvem rádio, gritos, vivas, apreensão. As janelas estão abertas para a ladeira do fundo da Faculdade de Direito. São três ou quatro. Passam caminhões lotados de trabalhadores. Ouvem-se tiros. Os estudantes se abaixam, se escondem, atônitos. “É guerra!”, gritam.

Abaixo-me junto ao Fasano, Rocha Botelho, Paulo Azevedo Marques e outros. Os tiros, uns cinco ou seis se tanto, estouram nas paredes. Palavras de ordem, corre-corre. O presidente Fasano convoca para comício, à frente da Faculdade.

Até hoje, marcas das balas podem ser vistas nas paredes do Salão do XI de Agosto. 

Dou uma volta pela cidade, vejo e sinto a agitação popular, retorno à minha casa. Ligo para meu irmão Guilherme. Vai passar o fim de semana na granja do sogro,em Jacareí. Voupra lá também, com mulher e filhas, onde escuto pelo rádio as notícias da crise de agosto. Reassumo a sucursal segunda-feira, dia 28. Recoloco os quadros e aguardo o que vai pela frente. Café Filho vai cair. Lott… 

Tempos depois, a UDN, Lacerda e Juracy Magalhães à frente, fazem a Caravana da Liberdade, correndo o país, pregando democracia, combatendo JK… Em Franca, no Sindicato dos Trabalhadores de Calçados, fala Lacerda, junto e abaixo de um grande retrato de Getúlio! Ele fala que o culpado do suicídio de GV não foi o presidente, mas, sim, a caterva, os Gregórios que o levaram ao sacrifício! É muito aplaudido. Lacerda sai cercado dos trabalhadores. Onde está essa foto?”

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One thought on “Um relato de Luiz Ernesto Kawall, sobre o dia 24 de agosto de 1954

  1. Estamos aguardando ansiosamente a publicação das memórias de Luiz Ernesto Kawall.Material não falta:Getúlio, Lacerda, Jânio Quadros, Sodré, MIS, Tribuna da Imprensa,Artes Visuais, Museus, Assessoria de Imprensa. Há muito para ser relatado. E muitos são os que esperam esses relatos.
    Quem se habilita. De minha parte, fico com a digitalização.

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