Um risco para o Senado inteiro

Carlos Chagas

Vcio ou virtude? Indignao ou descontrole? Quem quiser que decida, mas o fenmeno merece imediata anlise e conseqente diagnstico por parte de socilogos, mdicos, e cientistas polticos. Porque em boa coisa no vai dar quando senadores perdem totalmente a tranqilidade devida a todo ser humano. Dois deles, nos ltimos dias, brindaram a tribuna da casa com palavras e expresses dignas de um consultrio de psicanalista. Ou de uma arquibancada de estdio de futebol em tarde de deciso de campeonato.

Fernando Collor e Eduardo Suplicy estariam apenas puxando a fila de uma nova e perigosa forma de atuao parlamentar. Destemperaram-se diante dos microfones e de seus pares, faltando pouco para usarem os punhos contra adversrios. Essas manifestaes costumam pegar feito sarampo nos tempos em que no havia vacina. Falta pouco para contagiarem bancadas inteiras.

O senador pelo PT lembrou os tempos em que foi campeo universitrio de boxe no estado de So Paulo. O ex-presidente da Repblica deu a impresso de haver voltado ao tatame de carat onde conquistou faixa preta, ltimo dam. Olhos esbugalhados, palavras desconexas, gestos desesperados.

Algo est acontecendo no Senado, importando menos saber se por conta da permanncia de Jos Sarney em sua presidncia ou pela nsia de cada senador livrar-se dos efeitos da longa pantomima encenada num dos maiores palcos da atividade poltica nacional.

Era de constrangimento o clima no plenrio, ontem, dia seguinte ao vexame dado por Suplicy. Como foi duas semanas atrs quando o senador Pedro Simon chegou a confessar haver sentido medo fsico de Collor. Se a moda agora essa, no se livraro dela sequer as senadoras, muito menos os idosos pais da ptria em final de carreira.

Eduardo Suplicy sempre poder alegar haver sido provocado pelo colega Herclito Fortes, que o acusava de falta de coerncia por deixar de apresentar o ridculo carto vermelho para o presidente Lula, depois de hav-lo mostrado para Jos Sarney.

Fernando Collor dir haver feito em desabalada carreira, em segundos, o percurso que separa seu gabinete do plenrio, perdendo o flego e a tmpera em funo da informao errada de um auxiliar, sobre estar Pedro Simon atingindo-o em sua honra.

Tanto faz. Acima e alm desses episdios grotescos, entremeados pelos dedos em riste e os palavres trocados entre Renan Calheiros e Tasso Jereissati, registre-se a temperatura em que se trava o debate poltico. Agredir-se sem limitaes parece a sada para quantos imaginam receber pela violncia uma carta de alforria dos telespectadores da TV-Senado, capaz de limp-los das lambanas verificadas na casa desde o comeo do ano. Um risco dos diabos a ameaar o Senado inteiro, onde o dia seguinte sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a vspera.

Nem tudo vlido

Nem tudo vlido para garantir a governabilidade. A concluso da senadora Marina Silva, explicando sua sada do PT para o PV. Ela no nega sentir, com freqncia, pontadas no peito por haver deixado o partido que ajudou a fundar e ao qual dedicou toda sua vida pblica. Mas no dava para assistir os companheiros, e o governo Lula, desligando-se cada vez mais das propostas que iriam mudar o Brasil, a comear pela luta em favor do meio ambiente. Defendeu na antiga bancada o afastamento do presidente Jos Sarney da presidncia do Senado, para a investigao das acusaes feitas contra ele. Quando percebeu que o PT seria o fator principal da permanncia do ex-presidente da Repblica, tomou a deciso, motivada pelos dois fatores.

Marina nega estar rompida com o presidente Lula, a quem elogia por uma srie de realizaes, mas parece no perdo-lo por conta de se haver sobreposto ao PT. Sustenta que cada passo deve ser dado a seu tempo e no nega a perspectiva de tornar-se candidata ao palcio do Planalto, pelos verdes.

Cuidado com as precipitaes

No meio de um tiroteio, no se pode esperar que os contendores mantenham a calma, a tranquilidade e o bom senso. bala para todo lado, levando muitas vezes os mocinhos ao fogo amigo, alvejando aliados em vez de adversrios.

Assim deve ser vista no apenas a retirada dos membros do DEM e do PSDB do Conselho de tica do Senado, mas, tambm, a proposta oposicionista da extino desse colegiado. Por fora da aritmtica, o governo dobra e humilha as decises do Conselho, j que possui maioria. Mesmo assim, um perigo, alm de uma bobagem, tentar transferir para o Poder Judicirio a prerrogativa de julgar parlamentares por quebra de decoro, ensejando ao Supremo Tribunal Federal at mesmo decidir sobre cassao de mandatos. Seria uma renncia inexplicvel das atribuies do Legislativo, com o perigo de o Judicirio transformar-se num super-poder. Os tribunais superiores j fazem leis partidrias e eleitorais, alm de afastar governadores e prefeitos de seus mandatos. Enfeixando mais essa regalia, e agora por deciso do Congresso, logo ecoaria pelo pas aquele grito que em 1945 tornou-se soluo para acabar com a ditadura: Todo o Poder ao Judicirio!. S que agora no vivemos mais uma ditadura, quer dizer, se aprovada a proposta de extino do Conselho de tica, viveremos uma distoro.

O desconhecido Plano B

Apenas como exerccio especulativo, imaginemos que a ministra Dilma Rousseff perca condies eleitorais ou de sade para continuar candidata ao palcio do Planalto. O que far o presidente Lula, que se no consultou o PT para indicar a candidata, menos far para substitu-la. Seria confessar um erro anterior, coisa muito difcil de o primeiro-companheiro reconhecer.

Qual o Plano B do chefe do governo, montado numa das maiores popularidades jamais registradas na crnica da Repblica? Buscar outro candidato nos quadros do PT? Qual, se j no existia antes? Aceitar uma indicao de outro partido equivaleria em humilhar ainda mais seus companheiros, que sem dvida reagiriam como at agora no reagiram. Nem Acio, nem Ciro, nem Marina nem Helosa se enquadrariam na equao oficial.

Ento… Ento repousa sob a cinzas a brasa da continuidade do Lula no poder. A frio, no d mais, seja atravs de emenda constitucional permitindo o terceiro mandato, seja pela prorrogao de todos os mandatos por dois anos. Apenas no bojo de uma crise, real ou artificial, o Congresso referendaria a permanncia. Ou algum imagina que o Lula apoiar Jos Serra?

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