Um sistema que busca o lucro ilimitado, eis onde está o poder mundial

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Há um fato que deve preocupar a todos os cidadãos do mundo: o deslocamento do poder dos Estados-nações para o lado do poder de uns poucos conglomerados financeiros que atuam em nível planetário, cujo poder é maior que o de qualquer Estado tomado individualmente. Estes, de fato, detêm o poder real em todas as suas ramificações: financeira, política, tecnológica, comercial, midiática e militar.

Esse fato vem sendo estudado e acompanhado por um de nossos melhores economistas, professor da pós-graduação da PUC-SP, com larga experiência internacional: Ladislau Dowbor. É difícil resumir a mole de informações, que se apresentam assustadoras. Dowbor sintetiza: “O poder mundial realmente existente está em grande parte na mão de gigantes que ninguém elegeu e sobre os quais há cada vez menos controle”.

Além da literatura específica, Dowbor se remete aos dados de duas grandes instituições que se debruçam sistematicamente sobre os mecanismos dos gigantes corporativos: o Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica (que rivaliza com o famoso MIT, dos Estados Unidos) e o banco Crédit Suisse, exatamente aquele que administra as grandes fortunas mundiais e que, portanto, sabe das coisas.

CONCENTRAÇÃO DE RENDA – Os dados arrolados por essas fontes são espantosos: 1% mais rico controla mais da metade da riqueza mundial. Sessenta e duas famílias têm um patrimônio igual ao da metade mais pobre da população da Terra. Dezesseis grupos controlam quase a totalidade do comércio de commodities.

Dos 29 gigantes planetários, 75% são bancos, tidos como “sistemicamente importantes”, pois sua eventual falência levaria todo o sistema ao abismo ou próximo a ele, com consequências funestas para a humanidade. O mais grave é que não existe nenhuma regulação para seu funcionamento. Não existe ainda uma governança mundial que cuide não só das finanças, mas do destino social e ecológico da vida e do próprio sistema Terra.

MEGAFATURAMENTOS – Nossos conceitos se evaporam quando, recorda Dowbor, se lê na capa do “The Economist” que o faturamento da empresa Black Rock é de US$ 14 trilhões, sendo que o PIB dos EUA é de US$ 15 trilhões, enquanto o do pobre Brasil mal alcança US$ 1,6 trilhão. Esses gigantes planetários manejam cerca de US$ 50 trilhões, o equivalente à totalidade da dívida pública do planeta.

O importante é conhecer seu propósito e sua lógica: visam simplesmente ao lucro ilimitado. Uma empresa de alimentos compra uma mineradora sem qualquer expertise no ramo, apenas porque dá lucro. Não há nenhum sentido humanitário, como, por exemplo, tirar uma pequeníssima parcela dos lucros para um fundo contra a fome ou a diminuição da mortalidade infantil. Para eles, isso é tarefa do Estado, e não dos acionistas, que só querem lucros.

SANTA IRA – Por essas razões, entendemos a iracúndia sagrada do papa Francisco contra um sistema que apenas quer a acumulação de dinheiro à custa da pobreza das grandes maiorias e da degradação da natureza. Uma economia, diz ele, “que tem como centro o deus dinheiro, e não a pessoa: eis o terrorismo fundamental contra toda a humanidade”. Em sua encíclica ecológica, chama-o de um “sistema antivida” e com tendência suicida.

Esse sistema é homicida, biocida, ecocida e geocida. Como pode tanta desumanidade prosperar sobre a face da Terra? A vida é sagrada, e, quando sistematicamente agredida, chega o dia em que ela se vingará, destruindo aquele que a quer destruir. Esse sistema está buscando o próprio fim trágico. Oxalá a espécie humana sobreviva.

4 thoughts on “Um sistema que busca o lucro ilimitado, eis onde está o poder mundial

  1. Sobre o tal relatório:
    […]
    “Como aponta o economista do FMI, Carlos Góes, nesse artigo, o relatório da Oxfam não inclui:

    a riqueza informal – por exemplo: as casas nas favelas e periferias, que valem dezenas de milhares de reais e estão nas mãos dos mais pobres, apesar de não serem titularizadas pelo governo (e a conta do economista peruano Hernando de Soto é que há pelo menos $10 trilhões não contabilizados dessa forma);
    a riqueza implícita – como aquela prevista por sistemas de seguridade social;
    o relatório, de fato, inclui apenas imóveis e ativos financeiros – sendo que parte considerável da riqueza dos mais pobres são justamente bens de consumo duráveis, como aparelhos eletrônicos, carros, motos, eletrodomésticos, etc;
    e por fim, mistura a metodologia da Credit Suisse com as estimações da Forbes para a riqueza dos bilionários, sem apresentar qualquer justificativa que mostre por que ambas as metodologias são compatíveis.
    É uma verdadeira salada estatística para alcançar o resultado inicial desejado: mostrar que o mundo nunca foi tão desigual.
    Quase metade do mundo não tem patrimônio líquido formal algum – entrando, portanto, na parte mais pobre do relatório da Oxfam. Mas isso não significa que o patrimônio não está lá, na mão dos mais pobres.

    Pela lógica enviesada do relatório, se você é um atendente de telemarketing que vai ao trabalho com uma moto e não possui nenhuma dívida em seu nome, está na metade mais rica do planeta. Se você é proprietário de uma casa que vale, digamos, algo próximo dos cem mil reais, na periferia de alguma grande cidade brasileira, já tem mais riqueza que bilhões de pessoas somadas, visto que a maioria delas não possui imóveis registrados (e no Brasil, segundo Paulo Rabello de Castro, quase metade dos imóveis ainda não são titularizados). Dá pra levar a sério um relatório que coloca atendentes de telemarketing e moradores da periferia no topo entre os mais ricos do mundo, ao mesmo tempo em que ignora bilhões de pessoas que têm suas riquezas não contabilizadas pela análise?”

    Fonte:http://spotniks.com/5-ideias-de-esquerda-que-jamais-fizeram-o-menor-sentido-mas-voce-sempre-acreditou/

  2. Ao contrário da pretensão isso não é nenhuma novidade. Pelo que se sabe é mais velho do que evacuar de cócoras!
    Já em 2005, a Ed. Madras publica, de Jim Marss, “O Governo Secreto”. Em 2009, Pablo Allegritti, pela Ed. Planeta, publica “As Redes Secretas do Poder”. Em 2005, Daniel Estulin, publica “A Verdadeira História do Clube de Bilderberg”. Tem muito mais nas prateleiras, por aí. Sem exageros, até Nostradamus já deu com a língua nos dentes, sobre o tema, nas suas Centúrias de 1550. Com tudo isso, só agora o Papa foi ficar iracundo? Caraca! Será que não leu “O Apocalípse”? Tá tudo lá!

  3. Bordignon, bela, mais triste frase, por sua significação, ser uma realidade. ( no Brasil, juros de 400% ao ano) As seitas religiosas com seus falsos profetas, através dos tempos, fazem adoração ao “dinheiro” concentrado nos Bancos, através das grandes empresas, estamos nos fins de tempo, prescrito por Jesus, o apocalipse, acontecerá, pela mão do próprio homem, como está na figura da Bíblia: os primeiros homens da Terra (almas eternas) buscaram no Céu, entre as estrelas, seu mundo perdido, por egoísmo e idolatria à riqueza material, desprezando à Riqueza Espiritual, que é eterna, que nos leva a Luz, preferiram as Trevas, e repetiremos, e choraremos de novo, por enfrentar um mundo primitivo, é a história simbólica dos anjos decaídos. A Terra pertencerá aos pacíficos de coração.

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