Uma bela e justa homenagem do deputado Rogério Rosso ao maestro Cláudio Santoro 

A viúva Gisèle preserva a obra do maestro Cláudio Santoro

Jorge Béja

O deputado federal Rogério Rosso e eu não nos conhecemos. Somente agora, depois de ter escrito e publicado artigo aqui na Tribuna da Internet, é que o deputado me conheceu. Mas não é de política que trata este artigo, e sim de cultura. O mundo sabe e reconhece que o Brasil é país celeiro de notáveis talentos musicais, seja da composição criativa ou da interpretação e execução de primeiríssima grandeza. Desde o padre José Maurício Nunes Garcia (22.09.1767 – 18.04.1830) até o compositor e maestro Cláudio Santoro (Cláudio Franco de Sá Santoro, 23.11.1919 – 27.03.1989)… Desde Magdalena Tagliaferro, Guiomar Novaes, Edson Elias, Antonio Guedes Barbosa, José Feghali… até Nelson Freire, que aos 70 de idade voltou a residir no Rio, são riquezas e mais riquezas que a consciência nacional nem sabe dar valor.

Esses grandes vultos nacionais que não são lembrados nem reverenciados. Já se fossem jogadores de futebol, aí seria diferente. Quando me apresentei no Concertgebaouw de Amsterdam, me emocionei ao ver e ler numa das paredes do famoso teatro holandês a foto de Villa Lobos e o resumo de sua vasta obra.

Mas 90% dos brasileiros não sabem quem foram Jacques Klein, Arnaldo Estrela, Eleazar de Carvalho, Turíbio Santos, Mário Mascarenhas, Ernesto Nazareth, Tom Jobim… Tudo isso é lamentabilíssimo.

ROGÉRIO ROSSO E EU – Mas Rogério Rosso cuida da preservação desses valores. E Rosso tem muito de mim, por sermos cariocas, advogados e pianistas. Como parlamentar, ele é  Rogério Rosso. E como compositor e músico, Rogério Schumann Rosso assina e se apresenta simplesmente R. Schumann, tal como seu homônimo alemão Robert Alexander Schumann (R. Schumann), cujo famoso Rêverie Opus 15, nº 7, desde menino, todos os dias toco no piano aqui de casa.

Ontem, Rosso me enviou  seu projeto de lei (PL) nº 3048/2015. Sem consegui abri-lo no computador, e sem jeito de pedir que me enviasse novamente, pois não tenho a menor intimidade com o deputado Rosso (que nem conheço pessoalmente), recorri ao nosso colega João Amaury Belem , que prontamente me atendeu, foi à internet, localizou e me enviou o texto do projeto de lei e o teor de suas justificativas.

QUE PRAZER!  – Trata-se de uma homenagem ao fabuloso compositor e maestro Cláudio Santoro (Cláudio Franco de Sá Santoro) que morreu em Brasília em 27.03.1989. Morreu regendo a Orquestra Nacional de Brasília (hoje, Orquestra do Teatro Nacional Cláudio Santoro) que o próprio Santoro fundou em 1979. Teve um infarto fulminante no palco e nos deixou.

Assim morreu também o mais consagrado organista do mundo, o padre salesiano Marcello Martiniano Ferreira, de quem fui aluno na década de 60. Em dezembro de 2012, diante de mais de 600 espectadores que lotavam a Basílica N. S. Auxiliadora em Niterói e no meio da execução da Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach, padre Marcello a todos deixou atônitos e perplexos quando sua cabeça caiu sobre os 5 teclados do majestoso órgão Tamburini, de 710 tubos. Teve um infarto. E ali mesmo morreu.

Santoro e padre Marcello morreram como viveram: compondo e tocando.

PROJETO QUE VALE OURO – Este projeto de lei de Rogério Rosso visa preservar a obra de Cláudio Santoro. São mais de 400 obras musicais, partituras, 14 sinfonias, correspondências, publicações e muito mais. Tudo está encaixotado na casa de sua esposa em Brasília, a coreógrafa Gisèle Santoro.

Sensibilizado e sabendo a riqueza que poderia estar sendo perdida no combate contra a destruição pelo tempo e também pela ignorância de muitos, Rosso não cruzou os braços. E elaborou este PL  3048/2015 que muito em breve será aprovado e sancionado. Eis a íntegra que dele recebi e muito lhe agradeço.

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PROJETO DE LEI Nº 3048 DE 2015

Declara as Obras do Maestro Cláudio Santoro Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º Esta lei tem como objetivo reconhecer a importância cultural da história da produção musical brasileira através das Obras do Maestro Cláudio Franco de Sá Santoro.

Art. 2º As Obras de Cláudio Franco de Sá Santoro ficam constituídas como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Art. 3º Competirá ao Poder Público Federal, por seus órgãos específicos, cooperar, estreitamente, com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, na preservação, restauração e utilização das Obras de Cláudio Franco de Sá Santoro.

Art. 4º Esta lei entra em vigor na data da sua publicação”.

JUSTIFICATIVAS – O músico Cláudio Santoro teve uma existência profundamente criativa e atuante. Nasceu no estado do Amazonas, viveu parte de sua existência no exterior, em alguns casos por perseguições políticas como ocorreram com seus dez anos de exílio na Alemanha, e se tornou brasiliense por opção a partir do ano de 1960 quando chegou na cidade para criação do Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB). De volta do exílio ajudou a fundar a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, em 1979. Em 27 de março de 1989, aos 69 anos, quando regia a orquestra, realizou seu último ensaio.

O acerco do maestro tem fotos, cartas trocadas com intelectuais do mundo todo, até mesmo pinturas produzidas por Santoro durante o exílio na Alemanha. Muitas partituras de obras nunca interpretadas. A grande quantidade desses materiais está guardada em caixas e pastas embaixo do sofá, do piano em que ele trabalhou e em armários na casa da família. O acerco é composto de mais de 400 obras musicais, como partituras de sinfonias, quadros pintados por Santoro, correspondências, publicações sobre sua carreira e prêmios. O acervo está em dificuldades porque permanece na casa da família do maestro, sem o mínimo de condições de conservação. Alguns materiais correm o risco de se perderem, como toda a produção eletroacústica, feita diretamente em fita magnética que, com o tempo, se deteriora, perdendo a informação nela gravada. Os manuscritos estão dentro dos armários e também correm o risco de se perderem, porque muitos foram feitos a lápis. Além disso, a obra fica de difícil acesso para pesquisadores e músicos.

Mesmo tendo sido tombada como patrimônio imaterial em 2009, pelo governo do Distrito Federal (DF), ela encontra-se ameaçada por estar em lugar não tanto apropriado para a sua conservação. A umidade relativa e a temperatura em índices inadequados são as principais causas de degradação do acervo, e a ação em conjunto desses fatores contribui para desencadear o processo de degradação do material. No Brasil, a memória tem muito pouco valor, é muito pouco preservada.

O patrimônio material ainda é preservado, mas o patrimônio imaterial cai no esquecimento de todos. O patrimônio imaterial representa um povo, o grau de civilização e cultura que atingiu. Com o intuito de eternizar a obra desse renomado artista é que apresento essa preposição, para assim propiciar condições adequadas para a conservação de sua obra. 

Pelo exposto, conto o apoio de meus nobres pares nessa Casa do Povo para que a presente proposição de importante relevância cultural e social seja aprovada.

Deputado Rogério Rosso (PSD/DF).

MERECIDOS APLAUSOS  – Como cidadão brasileiro, advogado e músico, tributo ao deputado Rogério Rosso aplausos e agradecimentos. Certa vez, no Teatro Municipal do Rio e em companhia do apresentador de televisão Flávio Cavalcanti, vi de longe o maestro Cláudio Santoro num dos camarotes enquanto se apresentava no palco o pianista Witold Malcuzynski. Quase fui lá abraçá-lo. Que pena não ter ido! Vejo que nem tudo está perdido. Rogério Rosso ou R. Schumann está fazendo isso hoje por mim e por todo o povo brasileiro. Bravo!, bravíssimo, Rogério Rosso ou R.Schumann.

Para finalizar: nosso editor, o experiente e tarimbado jornalista Carlos Newton sabe a importância desta iniciativa do deputado Rogério Rosso. Sabe, porque Carlos Newton guarda igual acervo musical de seu talentoso e querido filho que partiu tão jovem. E sua dor não pode ser medida, tão intensa ela é.

8 thoughts on “Uma bela e justa homenagem do deputado Rogério Rosso ao maestro Cláudio Santoro 

  1. Querido Béja, escreve-lhe o Marcelo Câmara, jornalista, editor, escritor, consultor cultural, seu colega do Salesiano, amigo também do Carlos Newton, que foi meu editor na década de 1970, aqui no Rio. Sou Consultor Legislativo do Senado, aposentado, vivo em Ipanema, desde 1993. Devo informar ao amigo que Cláudio Santoro foi meu amigo íntimo, companheiro, confidente, defendi-o em inflamados, virulentos artigos pela Imprensa, nos últimos anos de vida, contra Marlos Nobre, protegido pelos governos militares e X9 da Ditadura, e a turma do Sarney em Brasília, que o assassinaram obliquamente. Elaborei a minuta dos estatutos da sonhada Fundação Cláudio Santoro, que se transformou no atual Instituto Cláudio Santoro, em plena atividade; elaborei, também, o programa nacional de eventos dos 70 anos do Santoro, falecendo o maestro às vésperas do aniversário. Concebi (tive a ideia da homenagem), elaborei e assessorei, no Senado, o projeto que denominou TEATRO NACIONAL CLÁUDIO SANTORO, o Teatro Nacional de Brasília. Cláudio, aos onze anos, era professor de violino para adultos em Manaus, lecionando de pé sobre uma cadeira. Villa Lobos e Cláudio Santoro, considerado “O Mozart Brasileiro”, foram os dois maiores compositores do País. Santoro, no Leste Europeu é mais executado que o Villa. Em 1962, recebe o Prêmio Internacional da Paz, do Conselho Mundial da Paz, pela sua partitura da Canção de Amor e Paz. Cria a Orquestra de Câmara da Rádio MEC, considerada “a melhor do Rio de Janeiro”. Nos 200 anos de nascimento de Mozart, ele ganhou um concurso internacional na Alemanha com a obra “Bodas sem Fígaro”, que todos achavam que era de autoria do Wolfgang Amadeus. Na Alemanha, onde morou por muitos anos, era considerado “um artista alemão”. Aos Pertencia à Academia Brasileira de Música; à Associação dos Compositores da União Soviética, onde ele era o único membro que não era soviético (e só soviéticos poderiam integrá-la), mas foi o único estrangeiro nos seus quadros. Santoro é um gênio plural, completo, brilhantíssimo, vanguarda em tudo que criou, além de homem de caráter reto, inteiriço, e uma alma generosa e fraterna. Exilado e perseguido, antes de sair do País, fundou o Instituto de Música da UnB e a Escola de Música de Brasília, e, depois que voltou, a Orquestra do Teatro Nacional, hoje Teatro Nacional Cláudio Santoro, por conta da minha ousadia e trabalho no Parlamento. Receba os parabéns e o abraço do amigo de juventude, que o admira e o aplaude há quase sessenta anos, e pela bela reportagem sobre o Santoro e o importante Projeto do Deputado Rosso, Forte abraço do Marcelo Câmara.

    • Marcelo Câmara, estou emocionado e encantado com seu comentário, com seu depoimento, com o seu testemunho, com seu talento, cultura e cordialidade. Que maravilha! Muito obrigado.
      Seu colega, amigo e irmão,
      Jorge

      • Marcelo, enviei o artigo para Rogério Rosso, diretamente, e para seu chefe de gabinete, Napoleão Miranda. Rogério também vai se encantar com este seu depoimento, seus feitos e seu conhecimento e íntima amizade com o talentoso Cláudio Santoro, um privilégio que você teve em sua vida e que agora pode se orgulhar de contar. Reitero e reafirmou que estou encantado. Certamente Rogério Rosso também estará.

          • Marcelo Câmara, já enviei seu aviso ao Napoleão Miranda, chefe de gabinete do deputado.

            Dois registros:

            1) no texto deste artigo escrevi que o monumental órgão da Basílica Nossa Senhora Auxiliadora em Niterói possui 710 tubos. Errei. O órgão, o 3º maior do mundo, tem 11.300 tubos, os menores com 08mm de altura e os maiores com 12 metros, além de 132 registros sonoros. É igual ao órgão da Basílica de São Pedro no Vaticano, do qual o organista brasileiro, padre Marcello Martiniano Ferreira, foi titular;

            2) é digno de nota a delicada e sutil forma que o deputado, autor do projeto de lei, empregou para indicar o falecimento do maestro Cláudio Santonio. No final do primeiro parágrafo da “Justificativas”, e sem falar em morte ou falecimento, delicadamente registrou:

            “…Em 27 de março de 1989, aos 69 anos, quando regia a orquestra, realizou seu último ensaio”.

            Se foi mesmo o deputado Rosso autor desta redação (e creio que foi), que beleza! Santoro nos deixou regendo em pleno palco.

    • Muito agradeço, leitor Geraldo Andrade, em meu nome e no de Marcelo Câmara que, sem que eu soubesse, foi companheiro no Colégio Salesiano de Santa Rosa, em Niterói, onde estudei parte da minha juventude, após cinco anos aos cuidados dos monges beneditinos, no Colégio São Bento, do Alto da Boa Vista ( Rua Ferreira de Almeida) e da Praça Mauá (Rua Dom Gerardo).

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