Uma CPI s avessas (no caso da privataria)

O comentarista Adriano Magalhes nos envia este artigo do jornalista gacho Percival Puggina, que faz interessantes consideraes sobre a convocao da chamada CPI da Privataria.

Percival Puggina

Em um descuido imperdovel, no arquivei a foto. Mas ela me ficou na memria porque a cena foi montada com percia de bons marqueteiros. Transcorriam os ltimos meses do governo Fernando Henrique Cardoso. Era poca, portanto, da campanha presidencial de 2002. O fotgrafo que produziu a imagem posicionou-se, provavelmente, no nvel da mesa da Cmara dos Deputados. Os figurantes, parlamentares todos, estenderam de um lado a outro do plenrio um cordo do qual pendiam pequenos cartazes com os nomes de todas as CPIs solicitadas pela oposio durante os oito anos da gesto tucana. Pelo que me ficou gravado, era um cordel com bandeirolas em nmero suficiente para decorar um salo de baile em festa de So Joo.

Fora do poder, o PT era to operoso na fiscalizao, to minucioso em vasculhar as entranhas do governo e apontar indcios de irregularidades, to exigente em transparncia para a tica e em tica para a transparncia, que Brizola definia o partido como a UDN de macaco.

Meses depois da foto, aquele grupo poltico conquistou a presidncia, levado no na onda, mas na branca espuma da onda de suas irretocveis exigncias morais. Portanto, desde o dia 1 de janeiro de 2003, teve acesso a todos os instrumentos necessrios para apurar o que escancaradamente denunciara. Passou a contar com mais de trs mil auditores altamente qualificados na Controladoria Geral da Unio, com o aparato tcnico e funcional da Polcia Federal, da Receita Federal, da ABIN. Podia intervir junto ao TCU e ao Ministrio Pblico Federal. E principalmente: assumiu o comando partidrio de todos os rgos da administrao e do governo, e de todas as estatais sobre cujos antigos dirigentes incidiam suas acusaes. Fez o qu? Encontrou o qu?

Mas no ficam por a os paradoxos. No poder, atraiu para a base o que havia de pior no Congresso, passou a impedir a formao de CPIs, constrangeu parlamentares a desassinar requerimentos de investigao que j haviam subscrito e expulsou os mais renitentes. Passou a qualificar como denuncismo as acusaes levantadas pela mdia e abraadas pela minguada oposio como afogado se abraa a pau de enchente. Denuncismo? Se for isso, Braslia est acometida de um surto psictico depressivo que se manifesta em injustificadas renncias, demisses e banimentos.

Como o rolo compressor da base de apoio tem maioria para aprovar e rejeitar o que bem entender, o governo inviabilizou totalmente o instituto da CPI. No adianta oposio requer-las porque no se concretizam as adeses necessrias. Pois eis que apesar da enxurrada de denncias que faz rolar cabeas nos altos escales governamentais, num parlamento onde a oposio no consegue criar uma CPI sequer, o governo que vai dar luz uma CPI para investigar o governo anterior. Coisa de 10 anos atrs, que poderia ter cumprido como tema de casa to logo chegou ao poder, e que at hoje no se sabe se fez, se no fez, nem por que fez ou deixou de fazer.

Trata-se de uma CPI de cabea para baixo, s avessas. Primor de manobra diversionista. Uma CPI do governo contra a oposio, para mostrar como esto as coisas no Brasil.

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