Uma experiência de impacto: o encontro com Pepe Mujica

Leonardo Boff
O Tempo

Participando de um congresso ibero-americano sobre medicina familiar e comunitária, em Montevidéu, no Uruguai, tive a oportunidade de ter um encontro com o ex-presidente José Mujica. Tal encontro deu-se em sua chácara, nos arredores da capital uruguaia. Ali estava ele, com sua camisa suada e rasgada pelo trabalho no campo, uma calça esportiva muito usada e sandálias rudes, deixando ver uns pés empoeirados como quem vem da faina da terra.

Vive numa casa humilde, com o velho Fusca que não anda mais que 70 km/h. Já lhe ofereceram US$ 1 milhão por ele; rejeitou a oferta por respeito ao velho carro, que diariamente o levava ao palácio presidencial, e por consideração ao amigo que lho havia dado de presente. Rejeita que o considerem pobre.

Pertenceu à resistência à ditadura militar. Viveu na prisão por 13 anos, mas nunca fala disso nem mostra o mínimo ressentimento. Comenta que a vida lhe fez passar por muitas situações difíceis, mas todas eram boas para lhe dar sábias lições e fazê-lo crescer.

Conversamos por mais de uma hora. Começamos com a situação do Brasil e da América Latina. Mostrou-se muito solidário com Dilma, especialmente em sua determinação de cobrar investigação rigorosa e punição adequada no penoso caso da Petrobras. Não deixou de assinalar que há uma política orquestrada a partir dos Estados Unidos de desestabilizar governos que tentam realizar um projeto autônomo de país.

SISTEMA VIDA

Mas a grande conversa foi sobre a situação do sistema vida e do sistema Terra. Aí me dei conta do vasto horizonte de sua visão de mundo. Enfatizou que a questão axial hoje reside na preocupação não com o Uruguai ou com o nosso continente latino-americano, mas com o destino de nosso planeta e o futuro de nossa civilização. Dizia, entre meditativo e preocupado, que talvez tenhamos que assistir a grandes catástrofes até que os chefes de Estado se deem conta da gravidade de nossa situação. Caso contrário, iremos ao encontro de uma tragédia ecológico-social inimaginável.

O triste, comentou Mujica, é perceber que entre os chefes de Estado não se verifica nenhuma preocupação em criar uma gestão plural e global do planeta. Cada país prefere defender seus direitos particulares, sem dar-se conta das ameaças gerais que pesam sobre a totalidade de nosso destino.

Mas o ponto alto da conversação foi sobre a urgência de criarmos uma cultura alternativa à dominante cultura do capital. De pouco vale, sublinhava, trocarmos de modo de produção, de distribuição e de consumo se ainda mantemos os hábitos e valores vividos e proclamados pela cultura do capital, que aprisionou toda a humanidade com a ideia de que precisamos crescer de forma ilimitada e de buscar um bem-estar material sem fim, o que opõe ricos e pobres.

CULTURA DO CAPITAL

A cultura do capital, acentuava Mujica, não pode nos dar felicidade porque nos ocupa totalmente, na ânsia de acumular e de crescer, não nos deixando tempo de vida para simplesmente viver, celebrar a convivência com outros e nos sentirmos inseridos na natureza.

Importa viver o que pensamos. Impõem-se a simplicidade voluntária, a sobriedade compartida e a comunhão com as pessoas e com a realidade. É difícil, constatava Mujica, construir as bases para essa cultura humanitária e amiga da vida, mas temos que começar por nós mesmos.

Saí do encontro como quem viveu um choque existencial benfazejo: me confirmou aquilo que com tantos outros pensamos e procuramos viver. E agradeci a Deus por nos ter dado uma pessoa com tanto carisma, tanta simplicidade, tanta inteireza e tanta irradiação de vida e de

amor.

5 thoughts on “Uma experiência de impacto: o encontro com Pepe Mujica

  1. Que belo exemplo de austeridade para a elite petista não seu Boff?
    Imagine só que seu guia Lula quando saiu do Palácio levou nove caminhões de mudança, é mole?
    somente um deles era com ar acondicionado para manter a adega no grau.
    Que belo exemplo, tai um esquerdista que tiro o chapéu…coerente e simples
    mas e os outros? Palocci, Dirceu Lula et caterva?

  2. Por que é que os governos petralhas representados por Lula e por Dilma não seguiram o exemplo dde 2 grandes estadistas:
    O 1º, Nelson Mandela, que esqueceu completamente qualquer idéias revanchista, embora tivesse razões pessoais para isso, e procurou governar para todos os sul-africanos, negros, brancos, hindus e outras origens. E conseguir pacificar o país. UM VERDADEIRO ESTADISTA!
    o 2º é o Mujica, que também tendo razões pessoais para agir com revanchismo, procurou governar olhando para o futuro sem abrir mão de suas convicções socialistas. Além disso seu exemplo pessoal é um grande exemplo de austeridade. Tá certo que Lula e Dilma, não precisem chegar a tanto, mas um pouco de austeridade não faz mal para ninguém, principalmente para governantes.
    Além disso, tanto Uruguai como o Chile,da presidente Bachelet, fazem alternância de poder, sem haver nada de trágico, muito pelo contrário.
    Por que só os PETRALHAS não aceitam isso, procuram ganhar eleição a qualquer custo, mesmo o de deixar um país dividido.
    ALTERNANCIA DE PODER SERIA BOM PARA TODO MUNDO, ATÉ MESMO PARA O PT!

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