Uma falha na Abertura da Olimpíada

Foi esquecida a importante influência de migrantes europeus

Marcelo Câmara

Foi um belo espetáculo a cerimônia de Abertura da Olimpíada2016, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. “Belíssimo, irretocável, emocionante” – disseram todos, escreveu o mundo. Eu assisti e ratifico: Uma maravilha. Criatividade, gigantesca e adequada cenografia, recursos audiovisuais, coreografia, artes circenses, tecnologias, efeitos especiais. Execução impecável de atores e voluntários. A equipe de criação e produção, formada por Abel Gomes, Andrucha Waddinton, Daniela Thomas e Fernando Meirelles estão de parabéns.

Porém uma falha na seleção e definição dos temas a serem desenvolvidos – que foi do nascimento da vida à defesa do meio ambiente no planeta, passando por toda a formação da Gente e da Cultura Brasileiras – é incompreensível, inaceitável que ocorresse. Se fosse a ausência de um detalhe, um ornamento, um personagem lateral, um figurante, um objeto fora de lugar – tudo isto seria irrelevante, perdoável. Mas houve uma falha grave, um erro importante no roteiro, um pecado mortal, que, creio, o entusiasmo, a emoção, a noite memorável, não permitiram que alguém percebesse e a Imprensa registrasse, em meio à grandiosidade e beleza do espetáculo.

Quando se passeou pelas matrizes e influências na formação da Nação, após o protagonismo do nativo, o índio, habitante de Pindorama, vieram os portugueses, colonizadores. Depois, os africanos, negros escravizados arrancados a chicote da sua terra, amordaçados, acorrentados. Em seguida, passamos à influência árabe, especialmente de sírios e libaneses, para, afinal, apresentar a imigração japonesa no início século passado. Tudo quase perfeito.

DOIS POVOS – Esqueceu-se de dois povos, cujas imigrações constituíram presenças muito mais importantes e influentes do que os árabes e os japoneses. Foram e são eles os alemães e os italianos.

A imigração alemã, iniciada antes da nossa Independência, tem uma história humana de quase duzentos anos, de chegadas, de jornadas que duraram até 1960, de muito trabalho, construção, conflitos, autonomias, assimilações, acréscimos, recepções, permutas, criações, doações, e contribuições à Civilização Brasileira. Enfim, os alemães aqui estabelecidos, e suas descendências, exibem uma vasta fenomenologia socioantropológica, visíveis em monumentais patrimônios sociais, econômicos e culturais, identificados e flagrantes na nossa Vida e na nossa Terra.

As “germanidades” e os traços germânicos habitam muitos fatos, façanhas, expressões e feitos da nossa Cultura, especialmente no Sul do País: na resistência da língua e dialetos alemães, ainda falados e escritos em muitas comunidades e, depois dividindo currículos com a língua portuguesa; em vários estilos de vida, mentalidades e ideologias, rurais e urbanas; no modo de ocupar, dividir e cultivar a terra e os recursos rurais que plasmaram grande parte da nossa Agricultura, diversificando-a e racionalizando-a, resultando um campesinato peculiar, marcados pela maneira de produção, convívio e desenvolvimento próprios, plasmados na racionalidade e na sustentação ambiental; na Culinária, nas Festas profanas e em várias manifestações do Folclore.

INFLUÊNCIA FORTE – Os alemães também marcam a urbanização e a industrialização do Brasil, difusamente, em vários Estados, de forma mais concentrada nos espaços meridionais, onde uma arquitetura foi erguida. Os alemães criaram e influenciaram muitas artes, da Literatura às Artes Plásticas, as Ciências e Tecnologias; na Educação e na Academia. A nossa paisagem humana, físico-social, está marcada por essa germanidade, ora espantosamente européia, íntegra, distinta, ora incorporando-se ao nosso modo de viver e conviver, enriquecendo a Cultura Brasileira. Pode-se afirmar que há uma população teuto-brasileira, integrada à Vida Brasileira, que não renunciou aos valores, referências, signos e símbolos, fortunas e expressões culturais alemães.

As mais eloqüentes presenças, afirmações, heranças e marcas dessa imigração, nós as encontramos, principalmente, nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Centenas de cidades e vilas brasileiras foram criadas ou intensamente povoadas por alemães.

Já os italianos, que chegaram depois, na segunda metade do Século XIX, não são menos importantes para a Terra a Sociedade, a Economia, a Cultura Brasileira. Hoje, os seus descendentes somam quase vinte por cento a população do País. Creio que depois das três matrizes básicas – o índio, o português e o negro – o italiano, sua língua, sua fala, suas tradições, hábitos e costumes estão em toda a parte, tangem mentalidades e comportamentos onde a imigração desembarcou, nas cidades e nos campos. Assim como temos um Nordeste em São Paulo, encontramos nesse Estado a maior messe de italianos fora da Itália.

FALA CANTADA – De onde vem a fala cantada, as inflexões e a prosódia paulistana típica, consolidada, se não da imigração italiana, non è vero? As contribuições e influências italianas ao País são importantíssimas, muitas vezes primaciais, fundamentais, mais visíveis, eloquentes, tal qual a alemã, no Sudeste e Sul do País, onde eles foram mão-de-obra substituta da escrava, principalmente nos cafezais paulistas.

Os italianos também foram vanguarda e maioria esmagadora na industrialização paulistana e, no Sul, fez o desenho da estrutura das pequenas propriedades, antilatifundiárias, na introdução de tecnologias agrícolas, e oposta à monocultura. O Catolicismo itálico azeitou a adaptação dos imigrantes ao convívio com brasileiros. As capacidades de trabalho, superação, adaptação e improvisação, a musicalidade, a alegria, a criatividade italianas foram fatores decisivos, amalgamadores, de integração e assimilação mútua ao cotidiano brasileiro.

ERRO GRAVE – No Rio Grande do Sul, bem como em toda a região meridional do País, a partir do Século XIX, as colônias italianas, de atividade agrícola, contrabalançaram, com a latinidade, com o sentimento e a alma latina, a germanização ortodoxa dos assentamentos, inflexível, às vezes cingidos pelo Luteranismo rígido e alguns manchadas pelo racismo, filho de execráveis e perversas ideologias políticas. Os italianos projetaram sua língua, modos de vida, costumes e sentimentos, seus gêneros, ritmos e talentos na música, dança, teatro, artesanato, poesia, nas artes plásticas e visuais, na culinária, no nosso plural Folclore, e até nos esportes que praticamos, por extensas áreas da terra brasileira, recriando, enriquecendo as correspondentes expressões nacionais. A escola e a universidade brasileira receberam mestres, pensadores, artistas e gestores oriundi de famílias dessa imigração, especialmente em São Paulo, que revolucionaram, inovaram, fizeram vanguarda em seus campos de atividades. Como os alemães, também fundaram vilas e cidades em diversos Estados.

Não se pode mostrar para o mundo, na Abertura de uma Olimpíada, num grande, belo e longo espetáculo cênico, de música, dança, luz, cores de grandes e belos efeitos visuais, num evento pensado e planejado durante anos, a formação e evolução da Nação e da Cultura Brasileiras, excluindo-se as doações e influências, as contribuições que recebemos dos alemães e italianos. Um esquecimento transformado em erro. Erro grave, injustificado, imperdoável, irremediável. Falta de uma consultoria cultural? Não se sabe. O tropeço serve como lição a ser aprendida.

18 thoughts on “Uma falha na Abertura da Olimpíada

  1. Você tem razão, Marcelo Câmara, italianos e alemães mereciam estar na abertura da festa. Mas acho que a ‘turma da Sapucaí’ fez como fazem os jornalistas e escritores para melhorar o texto: cortaram palavras.

    Não creio que não tenham pensado neles, nos alemães e italianos, Foi uma questão de escolha.

    Ninguém chiou. Nem os representantes dos dois povos no país. Que sabem da sua (deles) importância na nossa cultura e no desenvolvimento do Brasil. Não duvido que estivessem lá nas arquibancadas (cadeiras) vibrando, ajudando a melhorar o espetáculo com sua gigante torcida.

    Meu bisa paterno era italiano, pai da minha avó Júlia. E não senti que foi menor a contribuição dele para a nação por não estar presente na louvação da noite.

    De todo modo, Marcelo Câmara, foi uma bela lembrança a sua. Gostei muito.

    Meu bisa Benjamim, que, diante do prédio de A Noite, coçava o queixo e repetia “ora,ora,ora”, encantado com a construção no Rio de Janeiro (como contava meu pai), diria o mesmo para a abertura da Olimpíada no Maracanã, estou certa disso. Ora, ora, ora.

  2. Não reclamei desta falha, apesar de tê-la sentido, pois italianos e alemães vieram em maior grupo para o Brasil que os árabes, além de terem contribuído muito mais para o nosso desenvolvimento industrial e agrícola.

    No entanto, os organizadores conhecem somente Rio e São Paulo, desconhecendo como o restante do País se ergueu, se consolidou, foi colonizado, razão pela qual este esquecimento e falha verdadeiramente imperdoáveis, que, no entanto, não deslustraram a festa, bonita, sensacional, muito bem feita.

    O que se pode dizer, nessas alturas, que os italianos e alemães foram INJUSTIÇADOS, uma ofensa grave conta esses povos que enalteceram e desenvolveram o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, além de São Paulo, no caso italiano, a ponto de parte deste sotaque paulistano tem muito do jeito de falar do italiano.

    Se os petistas – bem possível -, quiseram deixar de lado essas duas nações por questões políticas, a se lamentar profundamente esta decisão grotesca, pois na mesma medida que homenagearam os mascates, os judeus deveriam ter a mesma honraria, e ficaram de fora também.

    Se era para agradecer a dois povos sobre o início da colonização brasileira, então os portugueses que nos “descobriram” e os índios, mas a etnia que definitivamente projetou a agricultura foi a negra, merecida homenagem apesar da escravidão, o mais triste período, e longo, da História do Brasil!

    • Bendl, poderia se dizer que os alemães e italianos foram mais importantes em outras partes do país que não o Rio de Janeiro, onde se realiza as Olimpíadas, mas não. Em 1824, imigrantes alemães foram levados para Petrópolis e Nova Fraiburgo. Local onde também se estabeleceu o primeiro pastor protestante do país. Muitos destes imigrantes eram cafeicultores, empresários ligados a este setor, comerciantes e soldados contratados.

      • Efrom,

        Muito obrigado pela correção histórica, confirmando que a ausência dos alemães e italianos foi mesmo uma falha imperdoável, apesar de não ter ofuscado a festa, muito bonita.

        No entanto, se a ideia era homenagear os povos que nos colonizaram, houve mesmo um esquecimento grave neste aspecto.

        Um abraço, forte e caloroso, Efrom.
        Saúde e Paz!

  3. Isto é revoltante, o brasileiro não pode fazer um espetáculo maravilhoso, melhor que alguns feitos por países do Primeiro Mundo, que logo aparece alguém para colocar defeito.

    • Menos, Ruy, menos!

      Os que criticaram o espetáculo da abertura da Olimpíada não estão diminuindo a grandiosidade do espetáculo, mas que houve falhas, houve!

      Não quer dizer que por ter sido aplaudido mundialmente, que está isento de falhas e que poderia ter sido melhor.

      Que alemães e italianos foram esquecidos, e se tornou uma grande injustiça para esses povos que contribuíram decididamente para nosso desenvolvimento agrícola e industrial é uma verdade indiscutível, mesmo que tenhamos feito uma fantástica apresentação!

      Na mesma dimensão que não podemos ter o complexo de vira-lata, igualmente devemos evitar o enaltecimento absoluto pelo que fazemos, pois errado o primeiro conceito e exagerado o segundo.

      Saúde e Paz!

  4. É certo. Mas sugiro deixar passar…italianos…. alemães…
    Mesmo porque durante a segunda guerra essas colonias procuraram discreção por razões óbvias…
    O pessoal sobreviveu aqui e sou testemunha de que amam o Brasil e são agradecidos por aqui serem bem recebidos.

  5. Concordo plenamente. Também senti falta da menção destas duas colonizações (italiana e alemã) que fizeram parte da formação histórica do Brasil, principalmente do Rio Grande do Sul. A representação da cultura gaúcha coube a top model Gisele Bündchen de origem alemã e a pira olímpica, que lembrou uma cuia de chimarrão, um hábito do sul do Brasil. Esta última, não sei se foi proposital ou uma mera coincidência .

  6. Que foi uma escolha, é claro que foi, segundo os vieses dos organizadores. Se foi um imperdoável, tenho minhas dúvidas. Será que caberia uma polca no meio de tanto samba e bossa nova? Inconscientemente foram mostradas as raízes do Brasil colônia e não do Brasil moderno, talvez simbolizado pelo 14 Bis de um Santos Dumont mais próximo dos imigrantes alemães e italianos que povoaram Petrópolis. Um abraço de Salatiel.

  7. Caro Marcelo. Perfeita as suas colocações e acrescento mais uma que, considerando a excelência da equipe de produção, considero uma falha grave,
    Maravilhoso ver a Gisele desfilando como a Garota de Ipanema, ao som da música Garota de Ipanema, tendo ao fundo a imagem do Maestro Tom Jobim. Lindo, mas incompleto cenário.
    Esqueceram do “poetinha”. Esqueceram simplesmente do Vinícius de Moraes.
    Até mais ver.

  8. Foi mais facil glorificar favelas ne? Favelas.. das quais ninguem deveria ter orgulho mas sim vergonha. Mostrar favelas com “glamour” minimiza o grave problema social mas confere um “status” de reconhecimento cultural a pobreza nao é?

    Não..italianos e alemães nao representam o Brasil ..

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