Uma greve vergonhosa

Carlos Chagas

Para a imagem e até a sobrevivência do Congresso, pior não  poderia ser a decisão dos líderes dos partidos da base do governo na Câmara  do que paralisar a votação de projetos de interesse do palácio do Planalto, como represália ao combate à corrupção efetuado em ministérios do PMDB, PR, PT e penduricalhos. Apesar do exagero da utilização de algemas pela Polícia Federal, nos episódios da prisão de suspeitos, não há justificativa para a decisão dos líderes.  Em especial porque a greve  terminará na hora,  se o governo liberar  verbas relativas às emendas individuais ao orçamento  e,  de tabela, nomear alguns  indicados pelos  partidos oficiais  para mais uns tantos  cargos de  segundo escalão na administração federal.                                                          

Um descalabro. Uma vergonha. Os tempos são outros, o país conseguiu superar a ditadura e promover uma democracia razoável, mas,  se o Congresso desaparecesse,  pouca gente lamentaria. A instituição Poder Legislativo está acima das lambanças praticadas por seus integrantes, ainda que a sucessão de evidências fisiológicas possa desembocar na fusão entre o todo e as partes.                                                        

Acresce  que desde o início da atual Legislatura nenhuma atenção foi dada por deputados e senadores para os grandes problemas nacionais. Faltam até  discursos sobre a crise econômica e o vazio social, quanto mais projetos e programas destinados a desatar nós que o governo, sozinho, mostra-se incapaz de resolver.                                                      

Em suma, vive-se um período amargo onde os valores se inverteram. Eficiente é o partido que mais sinecuras realiza nas fatias de poder postas à sua disposição. Aí estão os ministérios dos Transportes, da Agricultura e do Turismo para não deixar ninguem mentir. Aliás, se  também  desaparecessem, ninguém notaria,  exceção dos vigaristas que neles se locupletam. 

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LÁ NÃO USAM ALGEMAS                                                        

Em setembro de 1969, quando a primeira leva de presos políticos chegou ao México, logo em seguida ao sequestro do embaixador  dos Estados Unidos, um grupo de policiais daquele país  entrou no Hércules logo que aterrissou.  A aeronave estava sob os cuidados da Polícia Federal brasileira e todos os presos tiveram que viajar longas horas  algemados. Assim estavam. Quando um dos carcereiros voadores sugeriu ao colega mexicano  que José Dirceu, Wladimir Palmeira, Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho e tantos  outros desembarcassem com as algemas, ouviu frase de arrepiar qualquer esbirro policial: “Neste país não se usam instrumentos medievais!”                                                       

Não vamos chegar a tanto. Algemas, às vezes, são  necessárias, como decidiu o Supremo Tribunal Federal. Mas só em casos excepcionais, quando o preso tenta fugir,  põe em risco a vida do captor ou pode atentar contra a própria vida. Nenhum desses casos se enquadrou nos 36 detidos e algemados pela Polícia Federal nas investigações sobre roubalheira no ministério do Turismo.  O episódio  deslustrou a louvável operação anti-corrupção.  Tem gente precisando fazer um estágio no México.

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PENSANDO LONGE                                                       

Falta muito para 2014 mas o velho provérbio árabe continua valendo: bebe água limpa quem chega primeiro na fonte. A vez será da presidente Dilma disputar um segundo mandato, já que reforma política alguma ousará extinguir o princípio da reeleição. Empecilhos poderão aparecer, é claro. O maior  deles se o ex-presidente Lula for convencido a disputar o palácio do Planalto, caso a popularidade de sua sucessora estiver na baixa.                                                        

Esse  enigma  queima o cérebro dos tucanos. Disputar com Dilma é a opção deles. Já com o Lula, nem tanto. Para a primeira hipótese, posiciona-se Aécio Neves. Para a segunda, faltam pretendentes. José Serra  deve buscar abrigo na prefeitura de São Paulo, que disputaria ano que vem, ficando de sobreaviso mas sem nenuuma vontade de enfrentar o primeiro-companheiro. Geraldo Alckmin dificilmente trocará o certo pelo duvidoso, ou seja, em seus planos estará um segundo  mandato no palácio dos Bandeirantes.  Há quem eomece a falar, apesar de seus oitenta anos, na possibilidade  de Fernando  Henrique enfrentar o Lula pela terceira vez. Afinal, já ganhou duas. E ele aceita. 

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BOLA DE CRISTAL CEARENSE                                                        

Não faz muito o   governador do Ceará, Cid Gomes, abriu contundente destampatório contra o então ministro Alfredo Nascimento, que logo depois caiu.  Dias mais tarde  seu irmão, ex-governador Ciro Gomes, desceu tacape e borduna em Nelson Jobim, em seguida defenestrado do ministério da Defesa.  Por conta dessa premonição, os ministros Wagner Rossi e Pedro Novais deram ordens peremptórias em seus gabinetes: nas  viagens pelo país, é proibido até sobrevoar o Ceará. Descer em Fortaleza, nem por milagre…

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