Uma ideia para Galvão Bueno, que é grande historiador do futebol brasileiro

É preciso assegurar o acervo histórico do futebol brasileiro

Pedro do Coutto

Estava com essa ideia há muito tempo, não consegui desenvolvê-la, mas ela ficou incorporada na minha memória. Lembrei-me dela ao tomar conhecimento do incêndio que atingiu a Cinemateca da Embrafilme, em São Paulo, consequência, penso eu, da falta de preservação dentro dos moldes exigidos pela técnica moderna.

Lembrei também do incêndio no arquivo de Milton Rodrigues, irmão de Nelson Rodrigues, e que tinha em seu acervo partidas importantes do futebol. Além disso, recordei o incêndio no arquivo do Canal 100, de Carlinhos Niemeyer e me preocupei.

ANÁLISE – Com o desaparecimento de arquivos, por exemplo, ficamos sem poder comparar as várias fases do futebol brasileiro e mundial, e por isso passo a ideia a Galvão Bueno em desenvolver um projeto que permita não só assegurar todo esse histórico que faz parte de sua trajetória profissional e do esporte ao longo de décadas, mas também analisar de forma comparativa as partidas do passado e do presente, chamando a atenção para as mudanças táticas pelas quais o futebol passou.

Por uma consequência do destino, acredito ser a única testemunha viva  do diálogo que no dia 13 de julho de 1950, uma quinta-feira, mantiveram na sede do Fluminense, na Rua Álvaro Chaves, Obdulio Varela, futebolista uruguaio, e João Coelho Netto, o Preguinho.

Os uruguaios que estavam hospedados no Hotel Paysandu foram treinar no campo do Fluminense. Saíram a pé do hotel e chegaram na Álvaro Chaves.  Prego e Obdulio se abraçaram e Prego congratulou-se com Obdulio pela atuação do Uruguai na Copa do Mundo. Mas disse: “no domingo não vai dar para vocês. Não vai dar para a sua seleção”. Obdulio rebateu e disse: “Prego, não vai dar por quê?”. João Coelho Netto disse: “Porque ganhamos da Espanha por 6×1 e a sua seleção ganhou por 3×2 nos três minutos finais. Vocês empataram com a Suécia e nós ganhamos por 7×1”.

INTERMEDIÁRIA – E Obdulio respondeu, “se nós fossemos jogar contra o Brasil da forma com que jogamos com a Espanha e com a Suécia, você teria razão. Perderíamos disparado. Mas não vamos atuar assim. Vamos fazer o seguinte, só combateremos o time brasileiro a partir da  linha intermediária em nosso campo. A torcida brasileira vai empurrar vocês para frente. A nossa tática será de combater vocês a partir da nossa intermediária”.

Estava participando do encontro também o treinador Otto Vieira, do Fluminense, que depois treinou a seleção paraguaia, além de um antigo sócio do clube, Joaquim Amaral, e o diretor de natação. Otto Vieira achou o relato de Obdulio bastante óbvio e procurou Flávio Costa, técnico da seleção brasileira. Depois Otto me contaria que Flávio não deu maior atenção.  

Não foi este lado do sistema uruguaio que garantiu a vitória, mas funcionou para reduzir o espaço do ataque brasileiro. Porque o ponta-esquerda Rubén Morán recuava para marcar o ponta brasileiro Friaça, que era um ponto improvisado, cuja posição real era de meia direita e com isso traçava uma linha oblíqua para encostar em Zizinho e Ademir de Menezes. A tática uruguaia viria a ser o primeiro 4x3x3 da história.  Flávio Costa não percebeu. Entretanto, não foi por aí que o Uruguai venceu o jogo.

EMPATE – Friaça fez 1×0 para nós. Mas Júlio Pérez lançou Ghiggia, ponta direita, que passou por Bigode, aproximou-se do lado área, Barbosa temeu o chute e procurou fechar o ângulo esquerdo. Mas Ghiggia levantou por cima de Juvenal. Schiafino ficou sozinho com o goleiro e empatou o jogo chutando.

Momentos depois, sete minutos, a jogada se repetiu. Ghiggia passou facilmente por Bigode, e mais uma vez o meio campo não recuou para cobrir. Juvenal também não saiu do meio da área. Ghiggia entrou muito fácil e desfechou o chute fatal a curta distância no lado esquerdo do arco de Barbosa. Era a vitória uruguaia.

Vendo o filme do jogo, Ruy Castro também é de opinião que Barbosa não teve a menor culpa. Eu e Ruy Castro não sabemos qual o motivo que levou Barbosa a culpar-se. E carregou essa culpa até o final da vida. Foi uma injustiça que ele cometeu contra si mesmo. Disse isso a ele na mesa do programa Haroldo de Andrade, de grande audiência, na antiga Rádio Globo.

ALÍVIO – Participava da mesa às terças e quintas-feiras. Barbosa foi numa quinta-feira. Tive a certeza de que o depoimento que dei o aliviou um pouco, afinal o programa tinha grande audiência. Fui vacinado contra derrotas, assumindo a certeza que futebol só se ganha no campo. Na véspera houve um carnaval na Avenida Rio Branco entre a Santa Luzia e o Hotel Serrador. Era a véspera da derrota. Não se pode cantar vitória antes do tempo.

No entanto, a vitória uruguaia foi comandada por Obdulio Varela, o herói da partida. Ele estava em todos os pontos do campo, com dedos da mão direita sacudia a camisa e pedia aos companheiros amor ao Uruguai e à camisa o tempo inteiro.

JOGO FECHADO – Quando o Brasil abriu o placar no gol de Friaça, ele correu para os seus companheiros e disse, contaria depois quando se despediu do Prego e voltava para o Uruguai, “olha ninguém sai, vamos continuar jogando fechados. Se abrirmos, perderemos de quatro. Vamos manter o modo com que estamos jogando até agora.”

Na segunda, no Jornal dos Sports, de Mário Filho, Nelson Rodrigues escrevia, “fomos derrotados por um homem só. Obdulio Varela merece o reconhecimento de sua atuação. É preciso notar que com Obdulio e o goleiro Roque Máspoli,  os uruguaios foram aplaudidos por parte da torcida brasileira quando deram a volta olímpica no estádio.

NO CAMPO – Enfim, quero dar a ideia a Galvão Bueno que ele possa obter filmes de Copas, Olimpíadas e outros campeonatos internacionais passados e históricos que mostram que futebol se ganha no campo e não na véspera. Uma tese eterna. E assim, conte as histórias dos importantes jogos e das finais desse esporte tão amado, imortal e arrebatador.

Galvão marcou sua presença, narrando por anos de forma brilhante, passando grande emoção de suas narrativas, irão ressoar para sempre a vibração das multidões. Dou essa ideia para que fiquem os registros do esporte brasileiro.

Para terminar essa sugestão, glória eterna à Rebeca Andrade que conquistou o ouro olímpico em um desempenho fantástico. Nasce uma estrela ! Glória eterna também à Rayssa Leal. O seu desempenho no skate foi fenomenal e representa bem o orgulho de todos os brasileiros e brasileiras. Exemplos heróicos e de superação que nos enchem de emoção.  

4 thoughts on “Uma ideia para Galvão Bueno, que é grande historiador do futebol brasileiro

  1. Os filmes/fitas de celulose, pegam fogo com facilidade e velocidade, desprendendo gases sufocantes e impossível combate sem EPI’s adequados, inclusive cilindros de oxigênio.

  2. Sr Pedro;
    Muito boa a sua sugestão.
    Em 2005, eu comprei de um colecionador canadense, o jogo
    completo Chile vs Brasil 1962. O Brasil não tinha estas imagens.
    Hoje, elas estão no you tube.

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