Uma pergunta de 5 trilhões de dólares: Por que Obama deixou-se atacar? O que é isso?!

Pepe Escobar (Asia Times Online)

O presidente Barack Obama teve de governar o país – e mantê-lo em dia com o mundo – nas últimas semanas, enquanto o candidato Republicano à presidência Mitt Romney só teve de governar 47% da própria boca[1] – enquanto era treinado, retreinado, mega-treinado para o debate em Denver, semana passada, também chamado “fechamento do Colorado”, que lhe daria (ou tiraria) fôlego para o páreo final.

Um para cada lado

Montanhas Himalayas, Hindu Kushes, Karakorams e Pamirs de diz-que-disse cruzam-se e recruzam-se no éter, sobre o “reboot de Romney” e ‘diagnósticos’ de que teria vencido o debate. Nada disso faz qualquer diferença. A única coisa que importa é qualquer coisa que mobilize eleitores independentes e indecisos – sobretudo em Ohio e na Flórida. Críticos de teatro talvez se deem o trabalho de observar que Mitt parecia um morcego recém-chegado do inferno, em oficina do Actor’s Studio, tentando representar um político cheio de entusiasmado e ardor.

E, sim, há também a questão, de somenos, de um tal plano de impostos.

Em sua ânsia para cuspir logo as frases decoradas em praticamente todas as intervenções, como se tivesse encontro marcado com o destino (e tinha), Mitt-47% parece ter esquecido que, há meses, faz campanha eleitoral na qual um dos pontos centrais é baixar cerca de 20% de todos os impostos nos EUA. Todos os cálculos que interessa conhecer nos EUA demonstram que corte desse tipo gerará, em 10 anos, déficit de $5 trilhões.

Pois leiam aqui o que Mitt tinha a dizer sobre isso, quando Obama o interpelou:

Não tenho plano algum para cortar $5 trilhões de impostos. Não tenho plano de corte de impostos na escala que você disse. Acho que temos de aliviar os impostos do pessoal da classe média. Mas não vou reduzir a parte que é paga pelo pessoal de renda alta. Não estou pensando em cortar impostos massivos e reduzir o dinheiro que o governo recebe. Meu princípio número 1 é: não cortarei impostos que aumentem o déficit. Quero sublinhar isso. Nenhum corte de imposto aumentará o déficit.

Caso se leve a sério o que ele diz – o que exige contorcionismo jamais visto nos anais do yoga – Mitt-47% disse, de fato, que criará milhões de empregos sem aumentar o déficit e sem aumentar impostos sobre a combalida classe média norte-americana. A receita mágica é fechar todos os furos e deduções que beneficiam “o pessoal de renda alta”.

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DIZ-QUE-FARÁ

Vejamos o que diz o Tax Policy Center, apartidário: ainda que Mitt fizesse o que diz, e não fará, porque é candidato do 1%, vá, vá, que seja, dos 3% –, o resultado final é impossível, a conta não fecha, não chega lá. O único modo existente para Mitt não aumentar o déficit é fazer o que diz que não fará: aumentar impostos sobre a classe média.

Dado que se recusa furiosamente a oferecer qualquer detalhe – os “específicos”, como ele diz – sobre seu plano de impostos, Mitt, no Colorado, fez o que sabe fazer melhor: saltitou em torno do seu próprio diz-que-plano. Disse que “Se o plano de impostos que Obama descreveu fosse plano para eu apoiar, eu responderia não, não, absolutamente não.”

Coube à rede CNN prover o jornalismo necessário para comprovar todos os fatos. Mitt disse que cortar furos e deduções bastaria para compensar os $ 5 trilhões que diz-que-vai cortar em impostos. Segundo a rede CNN, se Mitt diz, está dito. Compensa. Compensa mesmo. Jornalismo investigativo. Tudo verificado.

Imaginemos que Sun Tzu tenha assistindo àquele debate, lá, em algum círculo dantesco de eminências pardas, bebendo saquê com seu colega Maquiavel. Talvez tenha achado que Obama jogou certo. Manifestou o entusiasmo e o calor de quem se aproxima a passos largos da guilhotina. Por que não saltou na jugular de Mitt? Por que nem falou dos 47%? Por que nem tentou desmascarar os números da conta de Mitt, que não fecha?

Porque tudo isso pode ser parte de longa estratégia, complexa, de “dê corda, que ele se enforca”. Basta esperar, que todos aqueles eleitores indecisos, independentes, de classe média, nos estados ‘oscilantes’ – sobretudo em Ohio e na Flórida – eles mesmos farão as contas, calcularão tudo, perceberão que a conta de $5 trilhões de Mitt não fecha. Pronto. Resolvido. É Mitt, cheio de corda para se enforcar!

[1] Mitt Romney disse, em reunião com doadores de sua campanha, que 47% da população dos EUA frauda o fisco e não paga impostos. O vídeo, divulgado pela internet, de onde chegou a vários blogs influentes e foi muito divulgado em meados de setembro, provocou forte incômodo à campanha. Pode ser visto (em inglês) em http://www.huffingtonpost.com/2012/09/18/mitt-romney-47-percent-full-video-_n_1893615.html [NTs]

 

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