Uma visita às favelas sul-africanas (depois da Copa)

Alexandre Versiani (Diário do Centro do Mundo)

A poucos quilômetros das belas paisagens que transformam a Cidade do Cabo em um cartão-postal da África do Sul, ficam localizadas as “townships”, como são chamadas as favelas sul-africanas. Afastadas do centro, elas cresceram de maneira desproporcional após o início do Apartheid, em 1948, quando receberam milhares de negros, mulatos e indianos expulsos de suas residências.

São regiões remotas, sem acesso à luz, água, educação, sistema de saúde ou rede de esgoto. Nem mesmo o final do regime de segregação racial, em 1994, foi capaz de melhorar a situação para centenas de milhares de pessoas que vivem em townships atualmente na Cidade do Cabo.

Há diferentes tipos de townships. Algumas misturam raças e outras reúnem apenas tribos específicas. Em comum compartilham a miséria e a hostilidade aos sul-africanos brancos. Rusgas do passado que não se apagaram devido aos anos de opressão.

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FANTASMA DO APARTHEID

A Cidade do Cabo possui o maior símbolo do regime, a prisão de segurança máxima Robben Island. Lá Nelson Mandela e outras centenas de líderes políticos negros ficaram isolados da população por décadas em uma ilha. Hoje a prisão virou símbolo de liberdade e famoso ponto turístico da cidade, enquanto as townships caíram no esquecimento e ainda convivem com o fantasma do Apartheid.

Nossa primeira parada é em uma tradicional casa de cultura Xhosa, onde somos recebidos com uma tímida, porém animada, música local. O lugar parece importante, já recebeu a visita até de Bill Clinton. Por isso uma ilustração enorme do norte-americano na parede. Aprendemos, entre outras coisas, que Xhosa é a segunda língua mais falada na África do Sul, atrás apenas do Zulu. Artesanatos locais também são vendidos. Os preços chegam a ser salgados, mas é difícil sair de lá sem querer ajudar um pessoal ponta-firme, que preserva as tradições.

Logo na saída, um choque de realidade. Entre becos obscuros, Lelé nos leva a um minúsculo quarto, onde vivem cerca de três famílias. Durante o dia ninguém fica por lá, pois não há espaço para todos. À noite todos se espremem para dormir. “Cerca de trinta pessoas moram aqui”, Lelé traduz as palavras de uma senhora aparentemente triste e cansada, que estava gentilmente no local para nos receber.

Com os sentimentos um pouco confusos, vamos em direção ao próximo programa. Degustação de uma cerveja artesanal local. Lelé deve ter incluído isso na turnê “townshipica”, pois sabe que estudantes e turistas só querem saber de cerveja.

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PRATO TÍPICO

É praticamente no meio da rua que acontece o momento mais desafiador do nosso passeio às favelas. Em um fogão improvisado sobre latões de lixo, simpáticas cozinheiras começam a preparar o “Smiley”, prato típico da culinária de uma township. Ele consiste em comer tudo o que a cabeça de uma ovelha proporciona, desde cérebro, olhos e língua. Um pequeno pedaço da bochecha foi o suficiente e, para falar a verdade, até que ela possui um gosto razoável.

Já de volta à van e um pouco traumatizados com a cena das ovelhas mortas, somos levados à última parada, o bar Mzoli’s, na vizinha township de Gugulethu. É neste território Zulu, onde também funciona uma churrascaria, que a cultura de uma township pode ser mostrada para os quatro cantos do mundo. Brancos, negros, mulatos e “pessoas de todas as tribos”, misturam-se em uma grande festa com música ao vivo tradicional e cerveja barata.

O território é livre e o clima de paz prevalece. Talvez um dos poucos lugares na Cidade do Cabo onde brancos, negros e mulatos convivem em condições iguais. Por lá ninguém é melhor do que ninguém e todos compartilham histórias. Depois de muito churrasco de carneiro, cerveja e outros aperitivos locais, saímos com a certeza, já ao anoitecer, de que o sol também brilha em uma township.

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