UNE renegou sua história de luta e deu adeus às armas na era Lula

Pedro do Coutto

Reportagem de Demétrio Weber e Regina Alvarez, O Globo de 8 de junho, revela que o Procurador da República Marinus Marsico representou ao Tribunal de Contas requerendo investigação sobre as comprovações prestadas pela UNE e pela União Metropolitana de Estudantes Secundários de São Paulo, feitas de forma rudimentar e genérica, pela execução de tarefas constantes de convênios firmados com o governo federal. Montante de 12 milhões de reais, período de 2006 a 2010. Antes portanto da posse da presidente Dilma Rousseff. A foto que acompanha a matéria é de Ailton de Freitas.

Marinus aponta a existência de notas frias para cobrir despesas fictícias. Ou então, em outro caso, notas verdadeiras, mas para justificar despesas absurdas com aquisição de bebidas alcoólicas que em nada se relacionam com os objetivos, já por si inadequados, contidos nas cláusulas existentes. A UNE e a UMES ainda não apresentaram relatórios referentes aos convênios vigentes em 2011, se é que foram mantidos pelo governo atual.

Os contratos da era Lula, com a UNE e a UMES não faziam o menor sentido. Destinavam-se à capacitação de estudantes e a promoção de eventos culturais relacionava-se com o MEC, cujo titular era Fernando Haddad. No que se refere a projetos culturais, claro, ao Ministério da Cultura.

A terceira etapa pertence à esfera do Ministério do Esporte. Todos inadequados. Não cabe a entidades representativas da classe estudantil capacitar alunos. Capacitar como e por quê? À UNE e UMES não cabem também tarefas de promover eventos culturais e esportivos. O que significa isso?

Ia me esquecendo: Marinus Marsico cita também uma cláusula, ainda assim surpreendente, citando atividades de promoção de saúde. Incrível que tais convênios tenham sido firmados. Só uma coisa é capaz de explicar: cooptação da juventude.

O que representa um entorpecimento extremo e duplamente negativo. Fazer com que a brava UNE de tantas lutas memoráveis dê adeus às armas, não adianta nada. Na verdade prejudica o próprio cooptador. Todo governo necessita ouvir a voz das ruas, enfrentar protestos, aceitar as críticas. Transformar a UNE em bela adormecida não resolve coisa alguma.

Basta olhar o passado. Em 1942, foi uma passeata no centro do Rio liderada pela UNE que derrubou Filinto Muller da chefia da Polícia e levou o governo Vargas a declarar guerra ao eixo nazi-fascista. Vinte e dois navios mercantes brasileiros haviam sido covardemente afundados ao longo do litoral do país por submarinos de Hitler.

A UNE enfrentou a repressão da ditadura militar, de 64 a 85, fazendo ecoar o grito de liberdade e democracia. A União Nacional dos Estudantes não faltou à campanha diretas já, tampouco à candidatura de Tancredo Neves. Foi a UNE, então presidida pelo hoje senador Lindberg Farias, que colocou os caras pintadas na linha de frente no protesto popular que se transformou no processo de impeachment do presidente Fernando Collor. Foi a UNE também que lutou pela anistia, culminando com sua transformação em lei, agosto de 79, pelo presidente João Figueiredo.

Tudo isso passou. De uns tempos para cá, mais precisamente a partir do governo Luis Inácio Lula da Silva, não mais se ouve a sua voz. O seu inconformismo, sua capacidade de se bater pela justiça, sua revolta muitas vezes pela utopia e pelo romantismo.

Os mosqueteiros guardaram suas espadas. Passaram a concordar com tudo o que o governo faz. Substituíram as palavras de ordem pelo silêncio. Lamentável a omissão. Cabe a presidente Dilma Rousseff devolver a UNE aos seus belos princípios. A iniciativa é bem simples: basta acabar com a cooptação, esse fantasma político e social.

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