Unidos contra o povo

Carlos Chagas

Existem momentos em que situao e oposio se unem. Quando? Quando para ficar contra o povo. Brada aos cus assistiro presidente Lula e o governador Jos Serra de mos dadas, pressionando suas bases parlamentares para, na Cmara, rejeitarem projeto j aprovado no Senado, estendendo a todos os aposentados os nveis de reajuste daqueles que recebem o salrio mnimo.

Quer dizer, se para impedir gastos que beneficiariam milhes dos que pararam de trabalhar, esto juntos. A alegao de que a Previdncia Social iria falncia, levando o atual governo a despender seis bilhes ano que vem, e o futuro governo a enfrentar a multiplicao da despesa nos anos seguintes.

Importa menos aos dois que desde o governo Fernando Henrique vem sendo reduzido o valor das aposentadorias de quantos recebem mais do que o salrio mnimo, ainda que tenham descontado para isso. H sete anos, por exemplo, um cidado aposentado fazia jus a cinco salrios mnimos. Hoje, recebe apenas dois. Continuando as coisas como vo, por fora desse abominvel fator previdencirio, logo todos estaro nivelados por baixo.

Outra soluo para esses algozes da populao seria chamarem o Herodes, convencendo-o a terminar sua trajetria mandando matar os velhinhos, depois de ter feito o mesmo com os bebs. Afinal, os aposentados apenas consomem.

Recursos, no faz muito, a administrao Lula encontrou para liberar mais de cem bilhes de reais para os bancos falidos e as indstrias em dificuldades. Para fazer justia aos aposentados, no encontra. Vale o mesmo para o perodo Jos Serra, se ele vencer a eleio. Mas ser a mesma coisa se Dilma Rousseff chegar em primeiro lugar.

Convenhamos, trata-se de canibalismo explcito. Uma evidncia a mais de que, contra o povo, as elites se unem.

O pior que ele tem razo

Em entrevista concedida em agosto e apenas agora divulgada pelo El Pas, de Madri, o ex-presidente Fernando Henrique sustenta haver muito pouca diferena entre o seu passado governo e o governo do presidente Lula. O pior que ele tem razo, tanto nos fatos quanto nas intenes.

Circula nos corredores do Congresso que o Palcio do Planalto aproveitar a consolidao das leis sociais para impor mais uma maldade. Seria permitido s empresas parcelar em doze vezes o dcimo terceiro salrio e as frias remuneradas. Com o passar dos anos, esses dois benefcios desapareceriam, dada a queda permanente do poder aquisitivo dos salrios.

Perde tempo quem acreditar que PT, PMDB e penduricalhos se oporiam malandragem. Muito menos o PSDB e o DEM. Acontece com os partidos o mesmo verificado entre os governantes: unem-se contra o povo…

Mil formas de dar emprego

Getlio Vargas encontrava-se no znite do poder, depois da decretao do Estado Novo. Foi procurado por um antigo colega da Faculdade de Direito, naqueles dias em pssima situao financeira, atrs de um emprego. O ditador o recebeu com alegria e carinho, mas pediu-lhe para voltar no dia seguinte, at para tomarem o caf da manh. Na oportunidade, conversaram sobre os tempos de estudante e nada do emprego. Espantou-se o comensal quando recebeu outro convite, para outro caf da manh. E assim aconteceu, sem que Getlio abordasse o pedido. No quarto dia, o espantado colega tomou-se de coragem e cobrou o emprego. Recebeu a resposta final: Quando souberem que voc tomou o caf da manh a semana inteira com o presidente da Repblica, no faltaro convites…

O resto eu fao

Outra de Getlio Vargas: todas as manhs, quando no chovia, ele deixava o Palcio Guanabara, onde morava, indo a p at o Palcio do Catete, onde trabalhava. Na confluncia da rua Paissandu com a praia do Flamengo, encontrava sempre um grupo de empresriosque conversavam antes de ir para o trabalhoe o saudavam com grande respeito. Acostumou-se com os cumprimentos e um dia perguntou a um deles se no desejava nada do governo. O esperto interlocutor respondeu que no. Nem empregos, nem emprstimos do Banco do Brasil. Contentar-se-ia se o presidente, toda vez que passasse pelo grupo, se dirigisse a ele pelo nome, dando bom dia. Getlio no entendeu e o empresrio completou: O resto eu fao sozinho…

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